Governo monta QG para observar o bug
Agência Estado,
de Brasília
Para enfrentar o imprevisível inimigo em que se transformou o bug do milênio, as Forças Armadas adotaram duas prioridades: montar uma sala especial de observação no Ministério da Defesa, em Brasília, e orientar todos os comandantes militares de área a obter dos governadores a integração das polícias estaduais aos centros de operações militares montados para acompanhar a chegada do ano 2000.
A sala de contingência, que estará disponível a partir de 15 de dezembro, será acionada às nove horas do dia 31. Representantes de todos os ministérios poderão acompanhar, por meio de rádio, televisão, informes de embaixadas e até mesmo radioamadores, tudo que acontecer durante o dia nos países que chegarem mais cedo ao próximo ano. Será o QG do governo, define o analista de sistemas Iú Maracajá Branquinho, coordenador do plano de continuidade de negócios montado pelo Serpro, empresa de processamento de dados ligada ao Ministério da Fazenda.
A operação com os governadores está prevista para durar de sete a dez dias. Nesse período, o Ministério da Defesa pilotará um sistema alternativo de infra-estrutura para prevenir riscos. Segundo fontes militares, a busca de cooperação tem origem numa conta simples: as polícias estaduais reunidas somam um efetivo de 656 mil homens, contra cerca de 280 mil dos contingentes das três Forças Exército, Marinha e Aeronáutica. Estas, no entanto, estarão à frente de uma gigantesca operação que não admite falhas.
Cogitou-se, no governo, a edição de uma medida provisória que previsse a subordinação, nesse período, das polícias estaduais ao Ministério da Defesa. Mas chegou-se depois à conclusão que a providência seria desnecessária e poderia gerar interpretações politicamente indesejáveis. A cautela procede na medida em que existe o consenso de não poder ocorrer nada que não se possa reverter em cinco dias, explica uma fonte militar. Mas nada que não se possa obter pela cooperação, acrescenta.
A operação preventiva divide-se em cinco áreas essenciais: telecomunicações, energia, transportes, comunicação e infra-estrutura. E prevê esquema de transmissão alternativo ao sistema nacional de telecomunicações. Os radioamadores de todas as regiões, especialmente as mais despreparadas, vão compor uma rede coordenada pelos militares.
Beneficiados pelo calendário, que fez o último reveillon do século cair em um final de semana, os militares escaparam de um esquema de prontidão excepcional que estava sendo montado. Além disso, o governo conta com a dianteira da Nova Zelândia, país com alto nível de desenvolvimento tecnológico, que entrará no novo ano 13 horas antes do Brasil. Teremos tempo de nos prevenir de algo que não tenha sido previsto, se ocorrer lá antes, explica um oficial.
Na área de segurança, uma grande operação de prevenção está marcada para o dia 23. Nesse dia, o Ministério da Justiça e as secretarias estaduais simularão a virada do ano, para verificar de que forma ela poderá afetar o funcionamento dos bancos de dados do Infoseg um sistema baseado em Brasília e alimentado por bancos de dados estaduais que contém informações a respeito de armas, veículos e pessoas condenadas.
Já fizemos todos os preparativos, mas vamos virar a data para verificar se podem existir problemas na interface com os estados, antecipa Ethel Aírton Capuano, coordenador geral de informática do Ministério da Justiça. Qualquer problema de comunicação entre a capital federal e as secretarias estaduais, ele explica, poderão tornar indisponíveis temporariamente os dados do Infoseg. Com isso, seria impossível verificar, por exemplo, se um carro investigado é roubado ou a procedência de qualquer armamento que venha a ser apreendido pela polícia.
Enquanto prepara a simulação, o Ministério da Justiça também analisa os riscos de problemas operacionais nas polícias federal e rodoviária e na defesa civil. A principal ameaça em observação é a de pane nas telecomunicações. Os técnicos do governo recordam que janeiro costuma ser um mês de muitas chuvas e quedas de barreiras nas estradas. Caso os equipamentos da polícia rodoviária sofram estrago por causa do bug do milênio, corre-se o risco de aumento do número de acidentes.
A possibilidade de queda de energia também preocupa o Serpro, que está montando uma sala de gestão para o ministro da Fazenda, Pedro Malan. O gabinete em que ele despacha todos os dias não está conectado ao gerador de energia do Ministério da Fazenda. Por isso, qualquer pane no sistema elétrico ou de telecomunicações poderia deixá-lo incomunicável.
Precisa haver um ambiente alternativo, recomenda Branquinho. A sala vip, como já vem sendo apelidado o local, poderá ser montada no edifício do Banco Central, no anexo do Ministério da Fazenda ou mesmo no escritório mantido pela pasta no Rio de Janeiro, onde Malan eventualmente passará o reveillon. Dessa forma, quando ele retornar ao trabalho no início de janeiro, terá à disposição, como habitualmente, todos os dados de que precisar.
Além de garantir a manutenção da rotina do ministro, o Serpro montou um plantão especial de observação para que seus próprios serviços permaneçam funcionando. Entre eles estão a preparação das folhas de pagamento dos servidores públicos, o sistema de comércio exterior que contabiliza todas as exportações e importações do país - e o sistema de administração financeira do governo Siafi onde são registrados todos os gastos do governo. Como são evidentes os prejuízos de uma eventual pane em cada um desses serviços, todos os principais sistemas do Serpro vêm sendo adaptados nos últimos anos ao funcionamento com o número de cada ano registrado em quatro dígitos.
Para superar uma eventual quebra no fornecimento de energia, os prédios do Serpro recebem eletricidade de duas fontes diferentes. Além disso, seria possível promover a manutenção das duas unidades principais da empresa em Brasília e São Paulo sem desligar os equipamentos. Mesmo diante de tantas precauções, porém, os próprios técnicos admitem que terão de acompanhar de perto a virada, para evitar surpresas que ofusquem as comemorações pela chegada do ano 2000.Estrutura especial vai monitorar tudo o que acontecer durante o dia nos países que chegarem mais cedo ao próxino ano
Arquivo FolhaDIANTEIRAComo o ano entrará primeiro na Nova Zelândia, militares acham que haverá tempo de prevenir algo não previsto, se ocorrer lá antes





