Golpes via WhatsApp
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Mie Francine Chiba<BR> Reportagem Local 

O WhatsApp se tornou uma das ferramentas de comunicação mais populares entre os brasileiros. E como não poderia deixar de ser, os criminosos virtuais estão tirando proveito disso para obterem vantagens financeiras. Levantamento da empresa global de cibersegurança Kaspersky Lab mostrou que só nos primeiros 20 dias de janeiro 10 campanhas maliciosas foram disseminadas pelo aplicativo de mensagem.
Por campanhas maliciosas entendem-se mensagens falsas sobre supostas promoções, vagas de emprego, bônus, cupons, prêmios, benefícios, acesso gratuito a serviços digitais e notícias, por exemplo. Para atrair os usuários, os criminosos atribuem às campanhas o nome de grandes empresas como Walmart, Assaí, Caixa Econômica, Burger King, Kibon, Spotify, Banco do Brasil, Santander, O Boticário, Lojas Americanas e Senac. As mensagens disseminadas pelos cibercriminosos contêm links que levam o usuário a caírem em golpes tramados por eles.
"O WhatsApp é o aplicativo mais popular no Brasil, onde tem mais de 100 milhões de usuários. Os ataques que usam o WhatsApp existem há muito tempo, mas do final do ano para janeiro tiveram um aumento considerável", afirma o analista sênior de segurança da Kaspersky Lab no Brasil, Fabio Assolini. Segundo ele, mais de 2,5 milhões de pessoas foram vítimas de golpes por meio da ferramenta.
Segundo o DFNDR Lab, laboratório da PSafe especializado em crimes cibernéticos, no último trimestre de 2017, foram detectadas mais de 44 milhões de ameaças disseminadas pelo WhatsApp, contra 21 milhões no trimestre anterior um crescimento de 107%. "Nos últimos três meses do ano passado, dois a cada três links maliciosos tinham como canal de infecção o WhatsApp. Praticamente todo mundo tem WhatsApp, o que torna muito mais fácil viralizar o ataque", observa Emílio Simoni, diretor do DFNDR Lab. De acordo com ele, os hackers têm se aprimorado para criar sites e ações com visual cada vez mais verossímeis, e assim, conquistarem uma grande quantidade de compartilhamento em um curto espaço de tempo.
Para o analista do Kaspersky Lab, alguns motivos podem ter levado ao aumento desses ataques: período de férias escolares, que dá mais tempo livre para hackers iniciantes e menores de idade, os chamados "script kids" criarem golpes; e as viagens de início de ano, que fazem aumentar o uso do WhatsApp. A perspectiva, diz o analista, é que o número de campanhas maliciosas por meio da ferramenta cresça ainda mais este ano com notícias falsas relacionadas a temas como Copa do Mundo e eleições.
Alguns minutos antes de conceder entrevista à FOLHA, Assolini havia recebido em um grupo do WhatsApp um anúncio que oferecia crédito a negativados. "Essas campanhas com intuito financeiro estão se tornando comuns", avalia. O link contido na campanha levava a um site que não tinha relação nenhuma com o anunciado, mas que possuía diversas propagandas que geravam pagamento ao criador do golpe pela visualização da página. "O criminoso ganha o page view, e como muita gente acessa, vem a monetização."
Mas esse, conforme o analista, é o menor dos danos que as campanhas maliciosas do WhatsApp podem causar. Em outros casos, o usuário é direcionado à loja de aplicativos, e lhe é ofertado um determinado app. O aplicativo pode até ser legítimo, e o criminoso ganha vantagem financeira por ter levado pessoas a instalar aquela ferramenta, em um sistema que remunera pessoas pela indicação.
Outra maneira encontrada pelos criminosos para prejudicar os usuários é direcionando-o, pelos links maliciosos do WhatsApp, a páginas de instalação de aplicativos fora das lojas oficiais, que geralmente são maliciosos. Uma vez instalado o aplicativo, o cibercriminoso pode obter as credenciais de acesso ao Internet Banking do usuário, gravar o número do seu cartão de crédito quando for feita uma compra on-line, roubar senhas ou até mesmo controlar o smartphone.
Uma terceira forma de ataque do criminoso virtual é solicitar o número do celular do usuário assim que ele clica no link malicioso da mensagem do WhatsApp. Assim que o usuário cede ao autor do golpe o número de seu telefone, ele assina, sem saber, um "serviço premium" que começa a descontar determinados valores dos seus créditos ou da sua conta do celular semanalmente. "O usuário só se dá conta que se inscreveu no serviço depois que recebe a conta ou que vai olhar os créditos do seu celular. Uma parte do valor descontado vai para quem vendeu o serviço."
Mas algo que a maioria dos tipos de golpe têm em comum é a exigência de compartilhamento do anúncio para outros contatos. É assim que as campanhas maliciosas se disseminam com facilidade. Emílio Simoni, do DFNDR Lab, afirma que uma das maneiras de começar a disseminar os links maliciosos é a partir dos grupos do WhatsApp. E depois que o usuário clica no link, muitas páginas pedem autorização para mandar notificações pelo navegador. Assim, o cibercriminoso forma uma base de usuários que passa a receber as ameaças constantemente por meio do navegador.

Hackers aproveitam desemprego para atingir mais vítimas
As campanhas maliciosas disseminadas via WhatsApp se valem de engenharia social para se aproximar dos usuários. Aproveitam-se de assuntos que possam interessar amplamente os brasileiros naquele momento para que mais pessoas sejam atingidas pelo golpe. No início de fevereiro, por exemplo, o Kaspersky Lab descobriu uma campanha maliciosa que promete isenção do pagamento do IPVA em um suposto projeto social do governo federal.
O DFNDR Lab identificou, em janeiro, pelo menos dois golpes digitais que prometem aos usuários a participação em processos seletivos de empresas. O laboratório estima que, em apenas 24 horas, mais de um milhão de pessoas tenham sido atingidas pelo golpe que utiliza o nome da loja de chocolates Cacau Show e, em menos de 48 horas, mais de 650 mil pessoas tenham sido afetadas pelo golpe que se vale do nome dos Correios para enganar os usuários. Para o DFNDR Lab, os hackers estão se aproveitando da alta taxa de desemprego no País para se aproximar das suas vítimas em potencial.
No mês passado, o DFNDR Lab também divulgou um golpe o primeiro descoberto em 2018 que oferecia um cupom no valor de R$ 50 para consumo na rede de lanchonetes Burger King. Mais de 350 mil pessoas haviam sido atingidas em apenas oito horas. No início de janeiro, o Kaspersky Lab alertou sobre uma campanha maliciosa que alcançou 1,5 milhão de pessoas e utilizava o nome do Walmart em uma falsa promoção que prometia R$ 40 mil em prêmios. Em novembro, outra ameaça prometia carteira de habilitação gratuita o "CNH Social" - a pessoas que recebem menos de dois salários mínimos ou que estão desempregadas há mais de um ano. O golpe atingiu mais de 270 mil pessoas em uma semana.
Para evitar cair nessas armadilhas, o DFNDR Lab recomenda sempre checar a veracidade das informações antes de compartilhá-las com os seus contatos e utilizar soluções de segurança no celular. O laboratório oferece ainda, em seu site (www.dfndrlab.com), um verificador de links que sinaliza se determinada página pode oferecer riscos.


