Fósseis à venda
Fernando Paiva
Ciência Hoje
O Brasil tem um tesouro que talvez poucas pessoas fora do meio científico conheçam: trata-se do sítio fossilífero da Chapada do Araripe, no Nordeste. Lá encontram-se com facilidade fósseis de peixes, insetos e plantas, além de pterossauros e pegadas de dinossauros. Todos têm idade referente ao período Cretáceo, entre 110 e 65 milhões de anos. Mas esse patrimônio nacional protegido por lei está sendo ameaçado pelo comércio ilegal. Milhares de exemplares saem do país todo ano e caem nas mãos de colecionadores, curadores de museus e cientistas estrangeiros.
Reprodução/Ciência HojeFóssil de libélula muito bem conservado exposto no Museu de Paleontologia de Santana do CaririA área cearense da Chapada, que se estende também por Pernambuco e Piauí, é a mais abundante em ossos e outros vestígios de seres do passado. Os fósseis são extraídos por trabalhadores rurais da própria região que durante a época de seca não podem viver da agricultura. Chamados de peixeiros, pela enorme quantidade de fósseis de peixes que encontram, vendem os exemplares a preços irrisórios para intermediários que os levam para os grandes centros do Sudeste. Muitas vezes as peças saem camufladas em caminhões que transportam gesso, afirma José Arthur Ferreira Gomes, técnico do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão responsável pela fiscalização e controle da extração de fósseis em território nacional. No Rio de Janeiro e em São Paulo, boa parte dos exemplares é vendida abertamente em praças, enquanto outra toma o rumo dos Estados Unidos, Japão e Europa.
A oferta de fósseis do Araripe já chegou até a rede mundial de computadores. Qualquer pessoa pode comprar um fóssil de peixe brasileiro de dezenas de milhões de anos. Basta acessar na Internet o endereço http://www.ctcnet.net/
treasure/vinctifer.htm e fazer a encomenda. A empresa responsável é a norte-americana Treasures of the Earth. Em sua página virtual, ela garante a origem dos produtos vendidos: os fósseis apresentados são quase todos provenientes da Formação de Santana, no município de Santana do Cariri (CE). Pagando US$ 92 - mais despesas postais - pode-se comprar um Vinctifer comptoni, espécie há muito extinta. Quem quiser desembolsar US$ 800 tem a chance de adquirir um Cladocyclus : tamanhos variando entre 22 e 39 polegadas, dentes bem preservados, escrevem os vendedores.
ReproduçãoA agência regional do DNPM, chamada Centro de Pesquisas Paleontológicas da Chapada do Araripe e localizada na cidade de Crato (CE), conta apenas com José Arthur para fiscalizar uma área de 9.000 km2. Munido de um Fiat Uno, o fiscal reclama que mal consegue atravessar os terrenos irregulares da Chapada. Apreensões são feitas ocasionalmente pela Polícia Federal e pelo Ibama que enviam o material dos contrabandistas para análise e armazenamento no DNPM. Em novembro do ano passado, mais de 3 mil fósseis foram apreendidos em poder de um dos intermediários. Boa parte era composta de nódulos de calcário contendo peixes fossilizados de gêneros como Vinctifer, Cladocyclus, Neoproscinetes e Brannerion -justamente os que são oferecidos pela Treasures of the Earth aos internautas. Entre as peças havia ainda restos de vegetais e ossos de pterossauros, como descreve relatório enviado por José Arthur.
O que mais atrai os compradores é a qualidade de preservação dos fósseis do Araripe. Uma libélula de 100 milhões de anos exposta no Museu de Paleontologia de Santana do Cariri ilustra bem isso: suas nervuras estão intactas e é possível ver o interior do intestino. Os fósseis da Chapada são cobertos por um fino sedimento carbonático que faz com que os detalhes morfológicos sejam preservados. Exemplares com tecidos moles ocorrem em abundância, o que é raríssimo na paleontologia, como explica Ismar de Souza Carvalho, presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia (S.B.P.).





