DivulgaçãoRodolfo Lagos: ‘‘Surpreende-me o fato da comunidade científica não ter ainda assumido, publicamente, uma posição sobre o assunto’’As chamadas bolas de fogo, que há mais de 50 anos intrigam físicos, geólogos, meteorologistas e que chegaram a assustar estrategistas militares norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, estão por trás de 99% dos documentos confiáveis que registram o chamado fenômeno Ovni (Objetos Voadores Não Identificados). Quem garante isso é o chileno Rodolfo Lagos, doutorado em Física pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e radicado no Brasil desde 1980. Lagos começou a se interessar pelas bolas de fogo quando ainda era estudante de Física, no Chile, na década de 70. ‘‘Elas são, com certeza, um dos maiores mistérios para a Ciência deste século’’, diz.
Com a preocupação voltada para as bolas de fogo, Rodolfo Lagos analisou, nos últimos três anos, mais de duas mil fotografias e filmagens de luzes atribuídas a Ovnis. ‘‘Lancei mão apenas de registros absolutamente confiáveis, como os obtidos pela Nasa, pelos satélites, ou aqueles testemunhados por milhares de pessoas’’, explica. Depois, comparou estas imagens com os documentos científicos - fotografias e descrições - catalogados nos últimos cinquenta anos sobre as bolas de fogo. ‘‘Em quase cem por cento dos casos a semelhança é tão óbvia que me surpreende o fato da comunidade científica não ter assumido ainda, publicamente, uma posição sobre o assunto’’, argumenta.
Bola de fogo foi fotografada acompanhando o módulo lunar da Apolo 11: mistério para a Ciência
Mas o próprio Rodolfo Lagos reconhece que há razões para este silêncio. Em agosto do ano passado, uma das mais importantes revistas mundiais de divulgação científica, a Scientific American, dos Estados Unidos, publicou uma longa reportagem, com fotos obtidas por satélites, onde são registradas bolas de fogo até na estratosfera da Terra e no interior de grandes furacões. ‘‘Apenas agora a comunidade científica mundial começou a admitir que as bolas de fogo são uma fenômeno de ocorrência universal’’, afirma. Longe das teorias conspiratórias que cercam o fenômento Ovni, as bolas de fogo são tratadas com certo mistério pela Ciência por outras razões. A Física, a Geologia e a Metereologia, ramos da Ciência que as estudam, ainda não têm como explicá-las. Tudo o que existe sobre as bolas de fogo são teorias.
Há três anos, o Japão anunciou que investiria cerca de US$ 1 bilhão num programa especial para capturar bolas de fogo. Há interesses científicos e estratégicos envolvidos neste programa. Uma das teorias mais aceitas pela Ciência é que as bolas de fogo são formadas de plasma ‘‘o quarto estado da matéria ’’, onde átomos leves se encontram altamente ionizados e com altíssimos níveis de energia. ‘‘Até hoje, em laboratório, os físicos só conseguiram confinar (sem recipientes materiais) um tipo de plasma por frações de micro-segundos’’, explica Lagos. A partir do domínio do plasma é possível obter o controle da tecnologia mais cobiçada pelos cientistas, a da fusão nuclear.
O início do mistérioA história humana registra ocorrências de bolas de fogo desde tempos imemoriais (leia texto nesta página). Mas, até 50 anos atrás, elas sequer eram alvo da preocupação dos cientistas. A explicação que se dava, até por falta de qualquer outra, é que tratava-se de fogo fátuo, um clarão provocado por ossos em decomposição e fenômeno muito comum nas proximidades dos cemitérios. Quando ocorriam na alta atmosfera, eram atribuídas a meteoritos ascendentes. Durante a 2ªGuerra Mundial a história começou a mudar. Pilotos norte-americanos em ação relataram ocorrências que, em alguns casos, beiravam o fantástico. Centenas deles teriam visto bolas de fogo nos céus, algumas vezes fazendo verdadeiras evoluções ao lado de aviões. No começo, os relatos foram atribuídos a alucinações provocadas pela tensão do combate. Depois, graças às primeiras fotografias que começaram a surgir, passaram a ser tratadas como segredo militar. ‘‘Os militares acreditavam que elas seriam uma espécie de arma secreta dos nazis, programadas para confundir os radares dos aviões’’, conta Lagos.
Quando a guerra acabou e descobriu-se que elas não eram fruto de nenhuma tecnologia humana, os cientistas foram chamados a explicá-las. Como ocorriam com muita frequência nas proximidades de vulcões, pântanos, cavernas e ao longo de falhas geológicas, os primeiros a ousarem uma hipótese foram os geólogos. De acordo com esta teoria, as bolas de fogo seriam um tipo de gás desconhecido, produzido em situações de alta energia nas profundezas da Terra e depois lançados na atmosfera.
A partir dos anos 70, com o advento dos satélites e da alta tecnologia no estudo dos fenômenos metereológicos, os cientistas descobriram que sua ocorrência era bem mais generalizada do que se imaginava até então. Bolas de fogo aparecem em quase todas as grandes tempestades magnéticas e fenômenos atmosféricos de alta energia. Diante disso, os meteorologistas cunharam a teoria dos relâmpagos esféricos, ou seja, descargas elétricas que tomam a forma de bolas durante as tempestades. Mas esta hipótese está longe de ser absoluta. A Física ainda não tem um modelo baseado na teoria eletromagnética que explique qual o mecanismo capaz de fazer um relâmpago adquirir esta forma por um certo tempo.
O mistério aumentaDefinitivamente assumidas como objeto de estudo pela Ciência, as bolas de fogo foram exaustivamente investigadas ao longo dos últimos vinte anos. Mas o mistério que as envolve só aumentou. No final da década de 80 e, principalmente, a partir dos últimos anos desta década de 90, a Nasa revelou inúmeras filmagens e fotografias feitas por astronautas e satélites, onde bolas de fogo aparecem em diferentes circunstâncias, dentro e fora da atmosfera terrestre. ‘‘A comunidade científica mundial tem hoje uma farta documentação sobre o assunto. Qualquer interessado pode ter acesso a parte dela através da Internet, onde há, pelo menos, meia centena de sites com documentos sérios’’, conta Lagos.
Os cientistas dividem o fenômeno chamado bolas de fogo em três tipos de ocorrências. Jatos de luz que cruzam os céus; os chamados relâmpagos esféricos e, por fim, as luzes redondas, que na maior parte das vezes são observadas em duplas ou em formações que chegam a reunir dezenas delas. De acordo com Rodolfo Lagos, as luzes redondas são as mais intrigantes e as que tem se revelado a mais fantásticas nos últimos anos. Em julho de 97, nos céus de Fênix, no Oeste dos Estados Unidos, uma verdadeira formação, que reuniu mais de vinte bolas de fogo, foi vista durante duas horas, num raio de cerca de 200 quilômetros. Seus movimentos foram exaustivamente filmados por dezenas de pessoas. Estas imagens chegaram ao Brasil e foram divulgadas pelas emissoras de televisão. ‘‘Atribuiu-se o fenômeno a discos voadores e a coisas deste tipo. Mas o comportamento é muito semelhante às últimas coisas que se tem visto sobre as bolas de fogo’’, comenta Lagos. Hoje, a maior parte dos físicos que investiga o fenômeno admite que estas bolas de fogo são formações de plasma. Ao seu redor ocorrem fenômenos eletromagnéticos e variações de temperatura que, teoricamente, só poderiam ser explicados por este estado da matéria.
De acordo com Lagos, um dos aspectos mais intrigantes das bolas de fogo é sua capacidade de agir, em determinadas ocasiões, como se tivessem algum tipo de inteligência. ‘‘Mas veja bem’’, alerta Lagos, ‘‘não estamos falando de inteligências humanas. Se pegarmos o comportamento climático da Terra como um todo, por exemplo, também se poderia pensar que o planeta age com um certo grau de inteligência. E muitas vezes um comportamento ‘‘altamente correlacionado’’ acontece também na intimidade do micromundo. Durante as inúmeras ocorrências de bolas de fogo na cidade de Marfa, 300 quilômetros de Houston, nos EUA, os cientistas emitiram feixes de raio laser contra algumas delas. Em resposta, as bolas de fogo atingidas alteraram a sua frequência de emissão de luz.
Enfim, segundo Lagos, os últimos anos de pesquisa envolvendo as bolas de fogo acumularam mais mistérios do que soluções. É ele quem sistematiza: ‘‘O primeiro mistério sobre estas bolas luminosas ou bolas de plasma se refere a um problema técnico. Não existe uma teoria física capaz de explicar a formação de algum tipo de bola de plasma com as energias naturais do meio ambiente. O segundo mistério está na forma coletiva e aparentemente organizada que se verifica muitas vezes em seu comportamento. O terceiro é a grande aceleração que estas bolas mostram com muita frequência. Neste último caso, existe a remota possibilidade de que o fenômeno seja provocado pela sincronização do movimento de diferentes bolas - na verdade não seria uma única bola que se desloca em altíssima velocidade, mas diversas bolas agindo intermitentemente. Quando uma se apaga, a outra se acende lá na frente, dando a impressão, ao observador, que uma só bola deslocou-se em altíssima velocidade’’.
Lagos acredita que esta conjunção de mistérios é a principal responsável pelo quase silêncio com que a comunidade científica trata o tema. ‘‘Os cientistas sempre evitam se pronunciar sobre aquelas coisas que não podem explicar’’, argumenta. Mas, para ele, este silêncio é responsável por algumas controvérsias muito mais graves. ‘‘A história de Ovnis e discos voadores chegou, no mundo inteiro, às raias da histeria. A falta de pronunciamentos da comunidade científica tem provocado uma grande desconfiança do público e um acúmulo de teorias conspirativas, que falam de governos ocultando contatos e capturas de extraterrestres’’, diz. E ele tem certeza que se houvessem comunicações periódicas sobre os estudos que estão sendo desenvolvidos com as bolas de fogo, grande parte deste quadro de desinformação poderia ser alterado.

mockup