FILHOTE DE CELACANTO É ENCONTRADO NO NORDESTE
Fernando Paiva
Ciência Hoje
A chapada do Araripe, região compreendida entre os estados do Ceará, Piauí e Pernambuco, é famosa mundialmente pela quantidade dos fósseis encontrados em seu subsolo. Mas o que acaba de chamar a atenção dos cientistas foi a descoberta de um fóssil de apenas 7 cm de comprimento, o primeiro de um celacanto bebê atribuído ao gênero Axelrodichthys. Seu corpo está inteiro, faltando apenas alguns ossos da cabeça, e seu estado de conservação, em uma placa de calcário laminado, é ótimo.
Até então, os paleontólogos só tinham tido contato com bebês de três de espécies de celacantos: Undina penicillata e Rhabdoderma exiguum, a partir de fósseis, e Latimeria chalumnae, a partir de indíviduos vivos. O pouco que se sabe a respeito do desenvolvimento dos embriões dos celacantos deve-se, principalmente, aos estudos feitos com bebês vivos de Latimeria.
Restam ainda muitas dúvidas quanto às estratégias de reprodução das espécies já extintas de celacantos. Do gênero Undina, por exemplo, os únicos fósseis bebês encontrados estavam dentro da barriga de uma fêmea. Como não foram descobertos outros fósseis bebês desse peixe, é, por enquanto, impossível saber se os indivíduos desse gênero eram vivíparos (animais que dão à luz filhotes já desenvolvidos) ou ovovivíparos (animais que retêm os ovos dentro do corpo até o momento da eclosão).
Paulo Brito, paleontólogo da Universidade do estado do Rio de Janeiro (UERJ) que vem estudando o fóssil bebê encontrado no Araripe, enfrenta o mesmo problema que tiveram os cientistas que analisaram os fósseis de Undina: entender precisamente, com tão poucos fósseis descobertos, qual era a estratégia reprodutiva desse peixe.
O que intriga Brito é que tanto os indíviduos adultos de Axelrodichthys quanto os de Latimeria têm mais ou menos o mesmo tamanho (1,5 m) mas os fósseis de seus filhos têm medidas radicalmente diferentes. No gênero Latimeria, ovovivíparo, são encontrados bebês com 35 cm, fora do ovo, mas ainda dentro da barriga da mãe. Já no gênero Axelrodichthys, o tamanho do bebê (7 cm), tenha ele nascido de um ovo ou diretamente da barriga da mãe, é muito desproporcional ao do indíviduo adulto. Por falta de outros fósseis, Brito ainda não pode provar, mas acredita ter em mãos o fóssil de um celacanto ovíparo (animais que depositam ovos), uma novidade no meio científico.
Em breve, o pesquisador da UERJ voltará à chapada do Araripe para procurar mais fósseis dessa espécie. Lá, ele conta com o apoio da equipe do Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri, instituição que lhe emprestou o fóssil de peixe bebê para estudo. A ação conjunta entre instituições e pesquisadores brasileiros é a maior arma no combate ao contrabando de fósseis da chapada nordestina para colecionadores e paleontólogos da Europa, do Japão e dos Estados Unidos.O corpo inteiro de um celacanto bebê, de 120 milhões de anos, foi encontrado na Chapada do Araripe
Ciência Hoje/ReproduçãoA diferença de tamanho entre um bebê normal do gênero Latimeria (no alto) e o fóssil de Axelrodichthys achado no Nordeste surpreendeu os cientistas





