Agência O Globo
Micreiro que se preza sabe muito bem como é: primeiro a gente compra computador e impressora simplesinhos, depois descobre que um scanner é imprescindível. Junta mais um dinheirinho e faz um upgrade na máquina. Mais tarde, troca a impressora por outra de qualidade fotográfica, passa a gastar mensalmente uma pequena fortuna com papel e tinta subsidiando aquela alegria inenarrável que os filhos têm ao imprimir tudo o que desenham no micro. Para muita gente, o equipamento não passa disso mesmo: uma máquina de devorar caraminguás. Mas há quem - acredite! - não só pague o investimento em pouco tempo como até faça do seu PC um aliado para tirar o orçamento doméstico do vermelho. A seguir, quatro histórias de usuários que vêm conseguindo essa façanha, apenas com máquinas domésticas e criatividade.
O astrólogo e tarólogo Aluizio Derizans - que há três anos vem escarafunchando a Internet atrás de belas imagens esotéricas para estampar camisetas - é um exemplo de micreiro que inventou uma maneira de ganhar dinheiro enquanto trabalha com o computador doméstico. A estamparia de camisetas deixou de ser um hobby com o qual ganhava uns trocados e já pode ser considerada um bom negócio. O que Derizans ganha com as blusas estampadas corresponde atualmente a 40% do que precisa para viver, mensalmente.
Outro exemplo de sucesso é Tatiana Machado, estudante de pós-graduação em psicologia, de 25 anos. A moça sempre gostou de trabalhos manuais, especialmente os que incluíam colagens de figuras, retocadas com verniz. Com elas, fazia porta-retratos e bandejas. Um dia, resolveu presentear uma amiga com uma caixa forrada de fotografias e experimentou usar o computador para fazer um trabalho mais sofisticado: escaneou e imprimiu as imagens. Fez uma caixa para a amiga guardar fotos e gostou tanto que acabou fazendo uma outra para ela própria. Para decorar as duas caixas, também revestiu as cópias impressas com uma camada de verniz. Outra amiga viu, pediu uma igual e por aí foi.
Em poucas semanas Tatiana já tinha vendido 20 caixinhas. Cada uma custa R$ 40,00. Para ela, tudo é lucro. Também pudera; a moça não fez nenhum investimento em equipamento. ‘‘Foi meu pai quem comprou computador, impressora, scanner e câmera digital’’, conta a felizarda, que de vez em quando precisa recorrer a fotos digitais. ‘‘Às vezes o cliente chega aqui com poucas fotografias para forrar a caixa; então tiro umas fotos dele rapidamente, na hora, para completar o que falta.’’
Quem também está conseguindo tirar seu sustento do equipamento doméstico é a graduada em Belas Artes Ana Maria Larqué Rangel. Foi o marido de Ana quem comprou o micro há pouco mais de um ano, mas quem usa (e tem lucro) com a máquina hoje em dia é ela.
Ana tornou-se publicitária por causa das facilidades da informática doméstica. Hoje ela cria layouts em papel e desenvolve sites na Internet. Pouco a pouco foi se equipando melhor - já tem scanner e uma câmera digital - e conta, orgulhosa, que em alguns meses seu faturamento consegue ser ainda um pouco maior do que o do marido empresário.
‘‘Trabalho muito para isso’’, revela Ana Larqué. Escaldada com uma crise que a fez perder clientes e adiou a troca do seu HD - a alta do dólar - Ana também afirma que o trabalho com informática tem sido compensador.
‘‘Os clientes estão voltando’’, comemora ela, para quem mais grave do que a crise é a falta de iniciativa dos que temem enfrentar um mercado difícil. Voltando à história do astrólogo e tarólogo: as camisetas que correspondem à quase metade do que ganha por mês custam entre R$ 12,00 e R$ 15,00. Cada estampa encontrada por ele na Internet é reproduzida no máximo em cinco camisetas postas à venda. Para ele, esse é um dos segredos da sua bem sucedida empreitada.
‘‘Acho muito chato um freguês encontrar outro na rua com uma camiseta igual’’, diz Derizans, que ocasionalmente também imprime estampas em mouse pads, produzidos com material importado. A borracha sintética importada, segundo ele, é mais resistente para ser usada com a prensa térmica que tem em casa: ‘‘Quem usa borracha nacional precisa recorrer ao silk screen’’, explica. ‘‘A borracha daqui vira um papel na prensa.’’
O trabalho de Derizans começa com uma navegação no ciberespaço. Em museus e bibliotecas virtuais ele encontra as imagens livres de direito autoral. Baixa as imagens e as trabalha no Photoshop. Depois, é só imprimir em papel transfer, naquela chamada impressora de transferência de cera térmica. Derizans diz que não usa jato de tinta porque, segundo ele, a impressão com transferência térmica tem mais nuances e é mais resistente a lavagens.
‘‘Tenho retorno no meu investimento porque trabalho com produtos de qualidade’’, garante o astrólogo, que aproveitou uma viagem a Miami para comprar sua prensa por um preço bem mais em conta.
Para quem não tem uma dessas prensas, mas gostaria de fazer um trabalho parecido, o pequeno empresário dá uma dica: recorrer a birôs especializados, que geram cópias a partir de impressões originais ou de arquivos digitais.
‘‘Não tem mistério’’, ensina. Já os que querem ter equipamento como o dele - PC, impressora de transferência térmica, prensa, scanner - precisam saber que é necessário investimento de R$ 15 mil a R$ 20 mil.
‘‘Mas vale a pena, trabalho com informática e sou feliz’’, diz ele, que agora se dedica a uma pesquisa na Internet de imagens de signos do Zodíaco, do século XVII, para sua próxima coleção de camisetas.
O pequeno empresário pretende manter sua estratégia para vender bem: oferecer exclusividade. Para cada signo do Zodíaco, no máximo seis camisetas. Ele tem uma homepage pessoal em www.aguaforte.com/derizans. Lá o internauta encontra até programinhas freeware.
‘‘Ofereço todo tipo de programa para chamar atenção para minha página, onde vendo perfis astrológicos’’, completa, citando agora outra fonte de renda ligada à informática.
Se o investimento de Derizans assusta, é bom saber que é bem possível ganhar um troco com um micro bem simplesinho. Vejamos o exemplo de Felipe Frisch, estudante de jornalismo da PUC e de direito da Uni-Rio.
O jovem explora ao máximo os recursos de seu modesto computador doméstico, um 486 DX-2 66. Felipe tem como clientes colegas e funcionários das universidades onde estuda. Antes de oferecer os serviços de editoração - usando as versões 5 do PageMaker e do Corel - já ganhava um dinheirinho com o que aprendeu, sozinho, sobre informática: há cinco anos dá aulas.
‘‘Faço de tudo: de editoração e diagramação de jornais a portfólios e cartões de visita’’, enumera o estudante. ‘‘Cuido muito bem dele, não deixo o HD entupido de arquivos inúteis, faço manutenção e atualizo sempre que posso, mas só com o que ele realmente precisa’’, diz. ‘‘Quem se esforça, como eu, pode ganhar dinheiro com poucos recursos.’’

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