Exércitos de cookies espiam sua VIDA DIGITAL
Agência O Globo
Do Rio
Aparentemente inofensivos esses pequenos arquivos de texto mantidos por seu browser na máquina podem estar levando, sabe-se lá para que mãos, informações preciosas a seu respeito
No mundo virtual, sem querer, permitimos que aconteçam coisas que jamais toleraríamos no mundo real. Imagine um sujeito que o seguisse sempre, por todos os lados. Ele estaria de olho quando você saísse de carro, e ficaria à espreita quando você entrasse num shopping. Ficaria tomando notas sobre o que você compra, anotando até as suas eventuais olhadelas nas vitrines.
Continuaria de olho se você fosse ao cinema ou entrasse numa biblioteca, tomando nota de todos os livros que você consultou. Depois, que absurdo!, teria o desplante de ligar para as lojas que você visitou, convencendo os gerentes a lhe darem seus dados pessoais e informações sobre suas compras. Esse camarada ficaria ligado em você todos os dias, o tempo todo, construindo a seu respeito um dossiê supercompleto. Ninguém aceitaria isso na vida real - mas nossas máquinas estão cheias desses bisbilhoteiros digitais. São os cookies.
Num recente fórum sobre privacidade na Internet, moderado por Lauren Weinstein, foi dada ênfase especial ao junk, o lixo que nos invade tanto no ciberespaço quanto fora dele. Nosso colega Lauren, veterano nas questões de privacidade, vem dando particular atenção aos cookies, correpondentes digitais desse detetive enxerido hipotético.
Como se sabe, cookies são pequenos arquivos de texto que são mantidos por seu browser na máquina. Quem cria os cookies e os atualiza no seu computador são os sites que você visita na Web. É uma intromissão que, a princípio, não teria nada de sério. Mas a coisa tem mudado de figura ultimamente.
No mundo real, qualquer um imediatamente tomaria providências se alguém ficasse na sua cola como o nosso maldito detetive. Como os detetives da vida digital são menos perceptíveis, quase ninguém dá bola. Além disso, os grandes sites não estão nem aí para o que podem ou não chupar da sua máquina e dos seus hábitos de navegação. Eles querem tudo: quanto mais coisas conhecerem a seu respeito, melhor para eles.
Os cookies já foram motivo de muitas reclamações, mas chegou a hora de lutarmos contra eles, porque estão começando a aplicar golpes baixos contra nossa privacidade. Se comermos mosca, iremos nos tornar vítimas indefesas.
Logo que eles surgiram, houve uma onda inicial de descontentamento, respondida - e aplacada - com uma campanha muito bem orquestrada, informando sobre a inofensividade dos cookies. Foram muitas entrevistas, declarações formais e promessas feitas pelos grandalhões de que jamais se usariam cookies para monitorar a vida cibernáutica de ninguém.
Pode até ser que, no começo, a utilização pretendida para os cookies fosse realmente essa: a de manter controle sobre o estado das transações via Web e facilitar a autenticação do usuário no caso de novas visitas. Todavia, com o passar do tempo, os sites começaram a pôr as unhinhas de fora, e passaram a fazer cruzamentos entre os dados obtidos através dos cookies e de outras fontes de informações e bancos de dados. Nos EUA, virou rotina - já se faz este perigoso casamento o tempo todo, incorporando dados sobre visita de sites e compras online e offline, chegando-se ao cúmulo de incluir dados de crédito, informações eleitorais e de quaisquer outras fontes públicas. Ainda não se tem notícia de que essa aglutinação de informações tenha ocorrido aqui no Brasil, mas a gente não perde por esperar.
Em junho de 1999, a empresa DoubleClick Inc., em www.doubleclick.com tornou-se uma das primeiras vilãs nesse enredo, por ocasião da fusão que a uniu à Abacus Direct Corp. Há algumas semanas, a DoubleClick, que é a maior companhia de propaganda via Internet, foi pega no contrapé e se viu forçada a reconhecer que vem, de fato, monitorando nome e endereço de seus usuários à medida em que eles vão pulando de um site para outro na Web.
Esta técnica, conhecida como profiling (pronuncia-se profáilin) permite que os donos do site venham a saber até a renda do usuário e, em alguns casos, a identidade precisa de cada uma das pessoas que visitam um dos 11.500 sites que recebem os cookies escondidos por trás dos anúncios da DoubleClick.
No outro lado da equação, a Abacus Direct é uma empresa de serviços de marketing direto, com um precioso banco de dados com nomes, endereços, telefones e hábitos de consumo a varejo de cerca de 90% das famílias americanas. Correlacionando as fontes de informação, a DoubleClick tem agora em suas mãos um poder de ataque de venda jamais visto no mundo.
A fusão das duas empresas é um exemplo das perigosas iniciativas de integrar monstruosos cadastros, configurando uma tendência que ameaça abalar a própria natureza da World Wide Web, que a princípio deveria ser uma teia mundial em que o navegante poderia se mover anonimamente.
A Web pode estar se transformando numa cela a que o usuário estará confinado, trazendo acorrentados à canela sua identidade e seus hábitos de consumo. A privacidade do indivíduo novamente está sendo atacada de forma corrosiva, com o perigo de que se forme uma sociedade baseada na vigilância indiscriminada do cidadão, prejudicando seriamente a confiança do consumidor na Internet.





