Excesso de e-mail faz mal à saúde
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de abril de 1998
Agência Globo 
Chega! A onda de e-mail spam - a prática de enviar uma montanha de correspondência não solicitada para a caixa postal de milhares de internautas - atingiu níveis insuportáveis. A Usenet, que controla as listas de discussão, está literalmente abarrotada com propaganda, enquanto toda a comunidade discute o que fazer para limitar a invasão sem comprometer a liberdade.
Ao contrário do que supõe nossa (às vezes) vã filosofia, o assunto mexe com poderosos lobbies no congresso americano, onde as discussões estão mais adiantadas. De um lado, está o pessoal que quer preservar a dignidade da caixa postal; de outro, as empresas que vendem endereços de correio eletrônico para... empresas que vendem endereços de correio eletrônico. Não se trata de uma frase repetida. A onda é exatamente esta: multiplicar, exponencialmente, o poder de fogo da propaganda pela rede.
Durante a semana passada, recebi exatas 112 mensagens comerciais (fiz questão de contar), vendendo produtos odontológicos, irrecusáveis business opportunities (que são, na verdade, as velhas correntes da felicidade), e... pacotes de mala direta. Dezenas de milhares de pessoas receberam a mesma coisa e seguramente algumas delas deverão comprar, pelos US$ 9,99 da promoção, nada menos de dez milhões de e-mails. Dez milhões...
Se - sendo otimista - apenas dez empresas comprarem o pacotão, elas poderão enviar propaganda para dez milhões de caixas postais. Se se fizer propaganda de apenas um produto, num mísero segundo a Internet terá transportado cem milhões de mensagens. Como nem todos esses endereços existem (muitos são gerados artificialmente por programas que combinam nomes de domínio com logins manjados, como john, fred, jose ), a recusa, por parte dos servidores, gera uma enorme sobrecarga de tráfego na rede. Na ponta do lápis, em 30 segundos a rede estará completamente entalada.
A Internet está, sim, cada vez mais lenta por causa do spam, diz o advogado David Kramer, da Califórnia, numa recente entrevista à www.webnews.com Pior: não há solução para isso a curto prazo.
O advogado aponta um outro aspecto. Ao receber um folheto impresso, o máximo que você pode fazer é jogar a papelada fora; os custos de offset e postagem foram pagos pelo anunciante. Na rede, ao contrário, receber uma propaganda não solicitada envolve custos para o provedor de acesso - que deve receber e entregar as mensagens na caixa postal do cliente - e, claro, para o cliente, que deve 1) fazer uma conexão, 2) baixar as mensagens e 3) pagar a energia elétrica que mantém o computador ligado nesse período. Por enquanto parece pouco, mas no ritmo que a coisa vai, é possível que daqui a pouco o spam fuja inteiramente ao controle.
Remédio? Difícil. O que pode ser feito por enquanto é, do lado do cliente, apelar para os filtros (os anti-spammers) e, do lado do provedor de acesso, configurar a máquina que recebe e-mails para barrar qualquer tentativa de spam. Mesmo assim, não é fácil.
Se a gente recebe spam vindo de fora, recusa na hora, diz Henrique Faulhaber, diretor da ISM Net, provedora de acesso à rede. E se for identificada alguma tentativa de spamming aqui dentro da ISM, mandamos uma mensagem para o autor, em tom de advertência.
Mas o grande remédio, por enquanto, é manter o máximo de anonimato possível, e não cair na tentação de assinar todas as listas do mundo. A maior parte desses pacotes de zilhões de e-mails é garimpada ali mesmo, nos arquivos dos servidores de listas da Usenet, o que transforma seus assinantes em vítimas perfeitas para receber propaganda.
Santo remédio também é usar redirecionadores anônimos para postar mensagens nas lista de discussão. Dê um pulo em www. replay.com, exercite um pouquinho de inglês e aprenda a enviar um e-mail anônimo. Além de proteger sua identidade, isto protege também a sua mailbox.
Além disso, os programas de e-mail - todos eles, incluindo Netscape, Outlook, Eudora, etc. - permitem que você defina endereço de resposta com algo que não seja necessariamente um e-mail. Por exemplo: se você substituir o @ por algo como Ý ou #, terá apagado o rastro principal. Mas isto não impede que, no corpo da mensagem (ou na assinatura), sua identidade seja restaurada, se lhe interessar.
Além dessas dicas, há programas específicos para recusar junk e-mail antes que você traga toda a correspondência. Experimentei vários. Gostei de um em especial: o Spam Exterminator, em www.unisyn.com. Assim que você faz uma conexão, ele vai até o provedor e traz uma lista completa dos cabeçalhos das mensagens, além de informações sobre attachments, permitindo que você apague as mensagens antes de trazer o conteúdo delas. É um achado. A versão disponível é um demo inteiramente funcional; se você quiser comprar o programa, paga US$ 27,95 no cartão. Outra boa opção é o Spamicide www.compulink.co.uk/~ net-services/spam/, que traz, já de graça, uma lista com os spammers mais conhecidos do mercado. A esta lista, evidentemente, serão somados os spammers que você for acrescentando com o tempo mas - ora, convenhamos - o recurso é um excelente ponto de partida.
Uma boa lista de anti-spammers está guardada em tucows.alternex.com.br/spam95.html, mas se você quiser se aprofundar no assunto, a gente recomenda uma olhada nas discussões do Congresso americano. Eles estão estudando uma forma de aplicar ao correio eletrônico a mesma lei que barrou a propaganda por fax, lembram? A fonte da história toda está em www.ietf.org/html. charters/run-charter.html.


