Escavando a história
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quarta-feira, 22 de outubro de 1997
Ranulfo Pedreiro Londrina 
MAFB/ReproduçãoMaurício Schneider, especialista em ataúdes egípcios, é o único brasileiro a ter acesso a materiais intocados há milêniosOs sarcófagos da 21ª dinastia egípcia representaram uma inovação nos funerais do baixo Egito entre os anos 1050 a.C. até 985 a.C. Eles passaram a concentrar desenhos e hieróglifos que anteriormente eram feitos nas paredes das tumbas. Portanto, cada fragmento desses ataúdes trazem trechos representativos da cultura da época, e constituem o foco principal do trabalho do historiador paranaense Maurício Elvis Schneider, um dos poucos pesquisadores especialistas em identificar e restaurar esses sarcófagos e o único brasileiro a trabalhar em monumentos arqueológicos egípcios.
Até chegar às escavações, Schneider passou por um longo caminho de aprendizado que remonta à infância. Com um interesse fora do comum pela arqueologia do Egito, o pesquisador ainda era criança quando começou a colecionar livros e fotos sobre a região.
MAFB/ReproduçãoPedaço de tampa de ataúde da 21ªdinastia
Os estudos foram se intensificando e, já na adolescência, Schneider passou a ministrar palestras sobre o tema, além de escrever artigos para jornais paranaenses. O interesse o levou a cursar História na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.
Passei a conversar com pesquisadores e consegui um material básico sobre caixões. Os contatos aumentaram e obtive até trabalhos inéditos sobre o assunto. Como o tema era muito específico, não foi necessário que eu fizesse Egiptologia, comenta Schneider, que esteve em Londrina no início da semana para realizar uma palestra sobre o Oriente Médio, a convite da Rede Decisão de cursos pré-vestibulares.
Me formei em História e passei a participar de congressos no exterior. Estive nos Estados Unidos e depois na Inglaterra, num congresso sobre Egiptologia realizado em 1995, explica Schneider. Lá o historiador foi convidado para participar de um trabalho arqueológico em Saqqara, a Missão Francesa do Bubasteion. Na época o pesquisador já era especialista em ataúdes egípcios.
Maurício Schneider foi o primeiro brasileiro a participar dessas escavações. Na missão, eu fui o primeiro a acessar materiais que estavam intocados há milênios, a retirá-los do solo e tocá-los, ressalta.
MAFB/ReproduçãoOutro detalhe de ataúde: ouro e lápis-lazúli
A região de Saqqara, no Baixo Egito, próxima ao delta do Rio Nilo, é pródiga em tumbas, algumas do século 14 a.C., e abriga muitas com pessoas que moraram em Mênfis, capital do Antigo Império egípcio. A mais famosa é a de Aper-El, que foi primeiro-ministro de Amenhotep III e foi enterrado com a esposa e um filho. A tumba já sofreu saques antes da chegada dos pesquisadores, mas muitos objetos ainda foram encontrados.
Os saques e usurpações eram frequentes. Schneider comenta que em uma tumba pode ser encontrado corpos de pessoas que foram enterradas em séculos diferentes. Durante essas usurpações, não era incomum cobrir as inscrições antigas com as dos ursupadores. A maioria das tumbas foi reutilizada na Antiguidade. É o caso de Saqqara, em que os túmulos da 18ª dinastia foram reaproveitados pela 21ª, que destruiu vários sarcófagos. Daí a importância de se estudar os fragmentos dos caixões.
TumbasAté a época anterior à unificação do Egito, os corpos eram enterrados no deserto. Mas a necessidade de proteger os corpos - já que se acreditava que eles viveriam após a morte - e o desenvolvimento de técnicas arquitetônicas geraram a construção de tumbas cada vez mais elaboradas e seguras.
Como os egípcios acreditavam na continuidade da existência após o sepultamento, os artefatos mais encontrados são alimentos e vestes, além de objetos religiosos, como estatuetas e amuletos. Na verdade os egípcios não pensavam na morte, eles estavam preocupados com a continuação da vida, revela Schneider.
O material retirado nas escavações permanece trancado em um depósito do governo egípcio. Se for um artefato de ouro, é enviado para o Museu do Cairo, caso contrário permanece no depósito, comenta Schneider. No caso das múmias, elas passam por uma análise biológica para determinar o sexo e a idade no momento da morte.
Além dos saques, outro problema que aflige as tumbas é a dificuldade de conservação dos relevos: Em alguns templos as inscrições estão se desfazendo, e não dá para salvar todas. Então se torna necessário fazer réplicas de paredes. Nós copiamos os desenhos e inscrições com nanquim, assegura.
Aos que enxergam a cultura do antigo Egito com misticismo, o pesquisador rebate com dados científicos: Sou totalmente cético e não vejo mistério algum. Os egípcios eram muito materialistas.
No caso das pirâmides, por exemplo, Schneider aponta registros sobre os trabalhadores que ergueram os monumentos: Eram pessoas comuns. A grande pirâmide, por exemplo, foi construída durante as cheias do Nilo, que inundavam a região e deixavam o camponês ocioso. Então eles trabalhavam para o Estado nas construções. Todas as pirâmides tinham sarcófagos e registros da vida do faraó, portanto eram utilizadas para fins funerários. Em alguns registros é ressaltada a necessidade de uma rampa para se alcançar o céu, daí o formato das construções. As especulações sobre salas que ainda permaneceriam secretas nestes monumentos esbarram, segundo o pesquisador, na falta de evidências científicas.
O historiador ressalta também vários hábitos que aquela civilização legou aos dias de hoje, como o calendário e a cerveja: Muitos costumes ainda estão presentes no nosso dia-a-dia, por mais que isso pareça estranho. Maurício Schneider se prepara agora para retomar suas atividades no Egito, onde, em dezembro, volta a mergulhar em peças empoeiradas para elucidar detalhes do desenvolvimento de uma das civilizações mais antigas do planeta.


