Enciclopédia aborda ciências bizarras
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quarta-feira, 06 de agosto de 1997
Armando Antenore Agência Folha 
ReproduçãoEnciclopédia abre espaço para o bizarro, o sobrenatural, enfim tudo o que provoca calafrios em crédulos e incrédulosSe os agentes Fox Mulder e Dana Scully - heróis do seriado Arquivo X - tivessem um livro de cabeceira, com certeza seria a Enciclopédia do Inexplicável, que a Makron Books do Brasil acaba de lançar. Como a série da TV, o tijolo de 547 páginas abre espaço para o bizarro, o sobrenatural, o extraterrestre - tudo, enfim, que provoca calafrios, de terror ou fúria, em crédulos e incrédulos.
São 347 verbetes, dispostos alfabeticamente. Abarcam os chamados seres e fenômenos anômalos, aqueles que a ciência tradicional despreza ou ainda não conseguiu explicar. Muitos se confundem com lendas seculares. É o caso dos lobisomens, duendes, fadas, sereias, polvos gigantes e monstros do lago Ness, na Escócia. Outros constituem-se mistérios contemporâneos, como os discos voadores. O livro também se debruça sobre mitos bíblicos (a Arca de Noé, em especial) e um punhado de esquisitices que só os experts de plantão conhecem. Na página 379, por exemplo, menciona o orang-pendek, bípede da Sumatra que teria entre 0,75 e 1,5 metro de altura, pêlos curtos, longa cabeleira e semelhança estarrecedora com um homem. A página 112, aborda assunto ainda mais inusitado. Conta que, em setembro de 1880, David Lang, do Tennessee (EUA), atravessava um campo, sob os olhares carinhosos da mulher e dos dois filhos, quando - puf! - desapareceu. Não deixou nenhum vestígio. Mas, estranhamente, um círculo irregular com 4,5 metros de diâmetro se formou sobre a área do sumiço. Nada nascia ali dentro, e nem mesmo insetos ousavam se aproximar do local. Um dia, os filhos de Lang tomaram coragem e invadiram o círculo. Escutaram, então, a voz atormentada do pai, que ecoava da quarta dimensão.
ParacientistasFora o caráter enigmático, os acontecimentos e criaturas da enciclopédia têm em comum o fato de aguçarem o interesse dos paracientistas - estudiosos que deram as costas para o cânone oficial e abraçaram ciências paralelas, como a ufologia.
Boa parte dos fenômenos comunga, ainda, outra particularidade: não se apóia no relato de apenas duas ou três testemunhas. São prodígios narrados insistentemente por inúmeras pessoas, quase sempre em mais de uma região. O livro leva a assinatura do norte-americano Jerome Clark, vice-presidente do Cufos (Allen Hyneck Center for UFO Studies). A entidade fica em Illinois (EUA) e se dedica à pesquisa de Ovnis (objetos voadores não identificados).
O carioca de origem holandesa Philippe Piet van Putten, diretor da Academia Brasileira de Paraciências, supervisionou a tradução da enciclopédia para o português. O dedo discreto do especialista interfere, por exemplo, na página 308 - que exibe o retrato de um dos monstros do lago Ness. Quando publicou o livro, em 1993, Clark ainda não sabia que a foto era falsa, disse van Putten. Graças à interferência do carioca, a edição da Makron explica que o fotógrafo R. K. Wilson confessou a fraude em 1994, seis décadas depois de cometê-la.
Talvez para neutralizar de antemão o escárnio que a enciclopédia poderia despertar nos leitores mais críticos, Jerome Clark tratou de abri-la com um prefácio que soa como uma carta de intenções. O texto de 19 páginas reprova a arrogância diante do inexplicável. Adaptando-o à realidade brasileira, não é insensato resumi-lo assim: quando pipocaram os boatos sobre o ET de Varginha, almas céticas caíram na gargalhada por nutrirem a convicção de que extraterrestres não existem. Ou melhor, formularam para si mesmas a questão mais óbvia (e condenável): ETs existem?. Concluíram que não e, daí, se entregaram à zombaria. Deveriam ter feito outra pergunta: por que há homens e mulheres capazes de ver ETs?.
Clark defende que não importa se duendes, sereias ou marcianos são reais, concretos. O que interessa é o quão pouco compreendemos alguns tipos de experiência humana - como a de travar contato com criaturas imaginárias. Para o autor, investigar tais experiências significa, no fim das contas, remexer o enorme mistério que repousa dentro de todos nós.


