Fernando Flecha Alkmin e
Roberto Barros de Carvalho
Ciência Hoje
Os continentes têm memória: com o passar do tempo, ora colidem, ora desagregam-se em várias partes e todo esse movimento fica registrado através da deformação de vastas áreas, da formação de rochas e da transformação daqueles preexistentes. O geólogo inglês Brian Windley é um dos maiores especialistas do mundo no estudo dos processos evolutivos dos continentes, esses segmentos móveis e independentes da porção externa e sólida da Terra.
Graduado em geologia pela Universidade de Liverpool em 1957, Windley iniciou imediatamente seu doutorado na Groenlândia, onde, por 10 anos, trabalhou no serviço dessa ilha dinamarquesa na região do Ártico. Em 1968, fixou-se na Universidade de Leicester, na Inglaterra, da qual é até hoje professor. Foi ali que começou a preparar o livro-texto ‘‘Os Continentes em Evolução’’. Editada pela primeira vez em 1977, a obra tornou-se sucesso editorial em todas as partes do mundo.
Windley empreendeu ainda um sem-número de viagens para remotas regiões do globo, interessado em compreender processos geológicos e explicá-los à luz de suas observações e das descobertas propiciadas pelas novas ferramentas à disposição dos geólogos. Nesta entrevista, Windley fala da profissão, dos problemas a serem enfrentados no campo da geologia e destaca o valor de uma das mais importantes províncias minerais pré-cambrianas do mundo, o Quadrilátero Ferrífero, localizado em Minas Gerais.
No campo da pesquisa em geologia, qual o seu interesse atualmente? Após estudar na Groenlândia, por que o senhor se interessou pelos Himalaias?
De modo geral, os geólogos que se dedicam às porções mais antigas dos continentes sempre estiveram muito restrito a elas. Com isso, não conheciam a contento os processos em operação na Terra hoje, que geram cadeias de montanhas, que modificam os continentes e assim não encontravam soluções para muitos problemas. Para entender o Pré-cambriano (espaço de tempo superior a 570 milhões de anos), é preciso estudar feições modernas, as grandes estruturas jovens da Terra. Motivado então a conhecer bem essas estruturas, acabei indo para a Mongólia, na área de influência dos Himalaias, onde pude realizar um extenso trabalho. O que mais me impressionou foi a existência de cadeias de montanhas no interior do continente, distantes cerca de 3 mil quilômetros das margens continentais. E essas montanhas, convém destacar, são muito jovens (elevaram-se há aproximadamente 20-30 milhões de anos) e muito altas. Se os processos formadores das cadeias de montanhas resultam da colisão entre os continentes e afetam essencialmente as suas bordas, como foi possível surgir uma cadeia de montanhas assim tão longe das margens continentais? Foi isso que decisivamente me motivou a ir para a Mongólia.
E o que o senhor descobriu lá?
Verifiquqei que essas montanhas estão se elevando continuamente em consequência da colisão da Índia com o restante do continente asiático. Os choques entre essas duas partes têm repercussão a grande distância no interior do continente.
Por que razão isso se dá?
Porque a Índia não parou de se mover em direção ao norte, deslocando-se cerca de 5 cm/ano, e o norte da Ásia, por sua vez, está vindo em direção ao sul. Da interação dessas forças resulta um deslocamento de ambas as regiões, cada qual num sentido, da ordem de alguns milímetros por ano. É esse processo que faz com que, modernadamente, continue havendo elevações no interior do continente. Interessei-me também por estudar essas montanhas modernas visando entender aquelas formações que podem ser vistas no registro do Pré-cambriano. Trabalhando no Iêmem, em Mandagascar e em outros pontos do mundo, concluí que o estudo dos processos verificados na formação das montanhas modernas e o exame de suas particularidades são fundamentais para entender a formação das cadeias antigas. Podem ser feitas muitas analogias entre esses processos.
No ano passado, durante a Conferência Internacional sobre Tectônica de Terrenos Pré-cambrianos, em Ouro Preto, o senhor teve oportunidade de conhecer o Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais. Que impressão essa região lhe deixou?
Trabalhei recentemente em Madagascar, um país que vive um desastre ecológico sem precedentes, provocado pela eliminação de praticamente toda a sua floresta tropical. Com isso, as chuvas de monções, intensas na região, fizeram enorme estrago, produzindo uma paisagem extremamente erodida. Sem a proteção de cobertura vegetal, o solo fica muito vulnerável. Durante a excursão que fiz pela região do Quadrilátero Ferrífero (sua topografia e relevo são muito semelhantes aos de Madagascar), vi sinais das mesmas cicatrizes de erosão que arruínam aquele país. Também aqui a causa principal é a eliminação da floresta. Seria uma tragédia se o Brasil caminhasse na mesma direção de Madagascar. Apesar disso, fiquei encantado com os aspectos geológicos da região, com feições que jamais havia visto anteriormente. Visitei também a mina de Passagem (entre Outro Preto e Mariana) e foi muito interessante poder ver o minério in situ e saber como ele se formou.
Qual a importância da região do Quadrilátero Ferrífero?
A região do chamado Quadrilátero Ferrífero, compreendida entre Belo Horizonte e Ouro Preto, contém uma camada de rochas que guardam imensos depósitos de minério de ferro. Essa mesma unidade de rocha está presente também em outras áreas do globo, na Austrália, na Índia e no escudo canadense, para citar alguns exemplos. Mas no Quadrilátero Ferrífero a arquitetura dessa camada – a maneira como ela se encontra dobrada, perturbada – é algo absolutamente ímpar. Jamais vi algo do tipo antes e não imaginava que pudesse ser assim. Isso tem uma importância fundamental na geração dos depósitos de minério de ferro da região e certamente influiu no tamanho desses depósitos e na qualidade do minério. A natureza da exposição do minério é também muito curiosa. Explicitar a especificidade dessa formação é a grande contribuição que os geólogos brasileiros podem dar.
Qual o impacto do conhecimento vindo da área básica e do desenvolvimento tecnológico para a geologia hoje?
Depois de uma boa cabeça, as principais ferramentas para um geólogo são um martelo e uma bússola. Não mais que isso. Mas, observando a geologia que se pratica hoje, concluímos que há um certo descompasso entre o rápido avanço da tecnologia moderna e os dados gerados nos últimos anos sobre os diferentes tipos de rochas e as diversas feições do terreno cartografados geologicamente em todo o mundo. O avanço científico e tecnológico pôs na mão do geólogo um grande número de possibilidades de trabalho, mas o perfil da base de dados não evoluiu na mesma velocidade. O problema desse descompasso precisa então ser resolvido. Entre as ferramentas postas à disposição do geólogo com os avanços científicos e tecnológicos, destacam-se aquelas propiciadas pela geoquímica e pela geofísica. A geoquímica permite que se conheçam as condições e onde uma dada rocha se formou a partir do conhecimento de sua constituição química. Se investiga um pouco mais, analisando a química dos elementos raros que ela contém, é possível informar-se sobre sua origem ainda mais remota, podendo-se mesmo saber de onde se originou o material que deu origem àquela rocha, pois, como se sabe, elas estão em constante transformação. Temos também a geoquímica de isótopos que, entre outras coisas, nos informa a idade das rochas. Portanto, a geoquímica de um modo geral e a geoquímica de isótopos seriam, a princípio, as grandes ferramentas. Destaca-se ainda a geofísica, dividida em duas partes: a geofísica dos sólidos terrestres e a geofísica aplicada. A geofísica dos sólidos permite que se saiba, por exemplo, através de uma tomografia geofísica, como é uma cadeia de montanha a 50 ou 60 km de profundidade. Assim como em um hospital se faz uma tomografia para saber o que se passa no interior do organismo de um paciente, é possível também fazer a tomografia de uma cadeia de montanhas. O ‘‘exame’’ revela as peças constituites, a sua arquitetura e, indiretamente, os materiais que a constituem. Os equipamentos são de primeira linha, fornecendo resultados de grande precisão.
Que resultados importantes surgiram a partir do uso dessas ferramentas?
Foi com auxílio dessas ferramentas que se pôde conhecer, por exemplo, a estrutura profunda das cadeias de montanhas, as características do substrato dos oceanos, das bacias sedimentares e de quase todas a feições geológicas do globo. No uso das ferramentas geofísicas, é de se destacar, a propósito, os resultados obtidos por pesquisadores canadenses no estudo da estrutura profunda de uma das partes mais antigas dos continentes. Também a geocronologia avançou a partir do desenvovilmento de novas ferramentas. A geologia de isótopos revelou, por exemplo, a idade da rocha mais antiga da Terra, de 4 bilhões e 200 milhões de anos, encontrada no Canadá. Isso faz com que a geologia tenha um ponto de contato com o campo da astronomia.
Como assim...
Por causa da escala de tempo envolvida.
Como geólogo, o senhor viajou por várias partes do mundo. Que lugares mais o marcaram?
Dos muitos lugares que conheci, destacaria a Groenlândia, onde mapeei umas 200 ilhas aproximadamente. Com um helicóptero à minha disposição, podeia deslocar-me com facilidade para todos os lados. Era uma vida tranquila e interessante, levada num lugar belíssimo e dotado de enorme diversidade de coisas. Ali todas as rochas eram expostas – um sonho de todo geólogo, pois que isso facilita enormente o seu trabalho. Destacaria também a região dos Himalaias, cujo cenário é de uma beleza indescritível, de grande impacto para os olhos. Na Mongólia, tenho uma infra-estrutura que permite me deslocar de forma totalmente independente. Como não existem postos de abastecimento espalhados pelo país, desloco-me para o interior levando combustível, água e outras coisas num grande tanque. A vida lá assemelha-se muito à das populações nômades. Impressiona-me na Mongólia a beleza das flores, que cobrem extensas áreas do país em certas épocas do ano, e também o fato de vastas áreas da região não apresentarem sequer um habitante.O inglês Brian Windley traça um perfil da Terra e dos problemas a serem enfrentados no campo da geologia
Reprodução/CiênciaBrian Windley: ‘‘Depois de uma boa cabeça, os principais instrumentos para um geólogo são um martelo e uma bússola’’Arquivo FolhaEm Minas Gerais, Brian Windley encontrou o mesmo tipo de erosão que arrasou MadagascarReproduçãoA Mongólia impressiona Brian Windley pela beleza e também pelas vastas áreas sem um único habitante

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