De acordo com o dicionário, coprólito significa simplesmente excremento fóssil, Mas, para a paleontologia, os dejetos petrificados de animais que habitaram a Terra há milhões de anos estão carregados de informações. Aspectos climáticos, geológicos, de interação dos organismos na cadeia alimentar e até de migração das espécies podem ser descobertos com a análise de tais estruturas.
Recentemente pesquisa feita com coprólitos da formação Santa Maria, no Rio Grande do Sul, confirmou dados já levantados sobre os hábitos de dinossauros e outros vertebrados que viveram na região no período Triássico, ou seja, há aproximadamente 230 milhões de anos. O trabalho foi realizado por Paulo Roberto de Figueiredo Souto, paleontólogo do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e, segundo ele, serviu para ressaltar a importância das fezes fossilizadas como mais um elo de ligação com o passado.
As primeiras notificações de coprólitos datam do século 17. Mas só em 1822 essas estruturas foram identificadas como excrementos fósseis pelo inglês Gideon Mantell (1790-1852), que julgou ter descoberto restos fecais de ictiossauros, répteis marinhos que viveram há cerca de 65 milhões de anos. Já no século 20, o paleontólogo brasileiro Llewellyn Ivor Price coletou inúmeros exemplares de coprólitos na própria formação Santa Maria.
Foi a análise das amostras recolhidas por Price, que instigou o pesquisador da UFRJ a retomar as pesquisas no Rio Grande do Sul. A localidade é conhecida pelo grande afloramento de animais fósseis, em geral pertencentes a uma fauna autóctone, isto é, que viveu e morreu naquela região. Próximo às carcaças desses seres pré-históricos, Paulo Roberto encontrou outros coprólitos extremamente bem preservados.
Matendo em vista a escassez de bibliografia sobre o tema, o pesquisador precisou desenvolver uma metodologia que lhe permitisse a investigação dos coprólitos sem danificar o material. A análise externa consistiu em fotografar, fichar e classificar as amostras quanto à forma; a interna incluiu exames com raios X de emissão, de fluorescência e de difração.
No caso dos raios X tradicionais, de emissão, o objetivo é orientar o corte laminar para verificar alguma estrutura de origem orgânica contida no coprólito. Os raios X de fluorescência são aplicadas sobre o pó retirado da amostra para pesquisar as substâncias que a compõem. Já os raios X de difração serve para constatar o processo de fossilização, isto é, as trocas com o meio externo que fazem alguns elementos químicos reduzirem seu número atômico.
De posse dos dados obtidos com a análise geral dos excrementos fósseis, o paleontólogo realizou uma pesquisa com animais da Fundação Rio Zôo, do Rio de JAneiro, para estabelecer correlações entre as fezes triássicas e as atuais. Ele escolheu no zoológico animais pertencentes à mesma classe e com a mesma dieta dos extintos.
A primeira constatação foi que os aglomerados fecais fossilizados muito se assemelhavam aos de animais de hoje e a observação mais curiosa foi que para cada espécie que ocorreu na região havia uma forma de dejeto condizente com seu tipo de alimentação - o que pode ser suposto em função da dentição do animal. ‘‘As formas ovóides encontradas estão relacionadas com animais de dieta herbívora. No caso da formação Santa Maria, seriam de herbívoros dicinodontes, espécies muito similares aos atuais hipopótamos’’, descreve Paulo Roberto. ‘‘Já as formas cilíndricas estariam relacionadas a cinodontes, animais de dieta onívora como os ursos, que se alimentam de vegetais, carnes e insetos. Aos carnívoros, tanto do Triássico (tecodontes) quanto de hoje (felinos), também corresponderiam fezes em forma cilíndrica’’.
A pesquisa mostrou que os componentes minerais encontrados nas fezes atuais correspondem aos que foram observados nas amostras de Santa Maria. Naturalmente, por conta do processo de fossilização, alguns elementos químicos presentes nas fezes do Mesozóico apresentaram redução de números atômicos e outros se volatilizaram, como é o caso do enxofre e do nitrogênio.
‘‘Essa comparação nos leva a concluir que o coprólito é uma estrutura de padrão conservativo, capaz de resgatar para a paleontologia as relações dos níveis tróficos (produtores, consumidores primários, consumidores secundários e decompositores) e as condições do ecossistema no momento em que esses excrementos foram depositados’’, ressalta Paulo Roberto, que, com base nos excrementos fósseis da formação Santa Maria, esquematizou a cadeia alimentar para o período Triássico naquela localidade.

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