Diagnóstico pré-natal pode ajudar
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sexta-feira, 27 de dezembro de 1996
Jackeline Seglin 
Que riscos uma mulher corre na gravidez? Como saber se o feto nascerá perfeito, sem nenhuma anomalia? Será que existem mesmo exames eficazes e seguros para detectar anomalias no feto? Dúvidas são comuns e o medo de uma síndrome desconhecida ou uma doença incurável deixam futuras mamães bastante preocupadas.
O médico Walter Pinto Júnior, diretor do Serviço Fetal do Centro Médico Especializado de São Paulo e da Clínica de Doenças Hereditárias de Campinas, e professor titular do Departamento de Genética Médica da Unicamp, explica que existem mulheres com maior probabilidade de apresentar problemas para o feto.
As que tem mais de 35 anos correm um risco maior de alteração cromossômica. Uma dessas alterações é a Síndrome de Down, que apresenta um cromossomo a mais no par 21, o que denomina-se Trissomia do Cromossomo, explica. O médico aponta que as doenças genéticas conhecidas já chegam a seis mil e em metade delas é possível fazer o diagnóstico.
As outras causas de risco para gravidez são histórico familiar e doenças não-genéticas como drogas, alcoolismo materno, uso de anti-convulsivos e rubéola (que pode provocar no feto catarata, surdez, cardiopatia congênita e microcefalia).
Diagnóstico Para investigar se a mulher corre riscos, podem ser feitos dois tipos de exame. O biofísico (ultra-som) faz a pesquisa da Translucência Nucal (espessamento nucal) com 12 semanas. O exame também pode ser realizado através da pulsão do líquido amniótico, com 14 semanas de gravidez, e oferece um risco de 0,2 a 0,4% para o feto. De dez a 13 semanas, através da placenta, o risco fica entre 0,5 e 1%. Com 20 semanas, o material pode ser colhido via cordão umbilical, com risco maior de 1%. Apesar desses índices, os riscos para o feto são considerado pequenos comparados aos benefícios que o exame pode trazer na prevenção e controle de doenças.
Não tão completo quanto o biofísico, o exame bioquímico (Tri-Teste) é feito através do soro da mãe, no período de 15 a 20 semanas.
Em ambos os casos, explica o médico, o risco maior é a perda do bebê. Mas, diante do diagnóstico, é possível detectar a doença e interromper legalmente a gravidez através do aborto. Este processo, segundo Walter Pinto, é uma decisão exclusiva dos pais.
Tratamentos Muitos problemas podem ser diagnosticados e tratados durante a gestação. Um exemplo é a Síndrome Adreno-Genital (quando a criança tem o sexo feminino com um grande clitóris ou um pequeno pênis). O especialista explica que o que ocorre é um desvio de corticóides para produção de hormônio masculino, produzido na glândula suprarrenal. Para bloquear a produção deste hormônio é usado o próprio corticóide. Se não tiver tratamento durante a gravidez, a criança pode morrer logo após o nascimento, avisa.
A toxoplasmose também pode ser curada se a criança não for infectada. Dados do especialista mostram que 30% dos filhos de pessoas contaminadas se infectam. Destes, um terço tem manifestação clínica, podendo ocorrer microcefalia, calcificação cerebral, cardiopatia e retardo mental num grau de 5%. Com tratamento, estes níveis baixam.
A anencefalia, um defeito de fusão do tubo neural que consiste na falta de cérebro, é outra doença que pode ser evitada na gravidez. Se a mulher tomar uma vitamina - conhecida como ácido fólico - desde o dia da concepção, poderá previnir a doença. Independente da proporção de casos, se um casal já teve um filho anencefálico, o risco para ter um segundo filho afetado é de 4%. Com o ácido fólico, esse número baixa para 1%. Esta substância é uma vitamina que não engorda e só age nas primeiras semanas de gravidez, explica. O ácido fólico pode ser encontrado em forma de medicamento e em frutas como caju ou laranja e verduras verdes cruas.
Walter Pinto Júnior aponta uma preocupação talvez maior que o diagnóstico de doenças na gravidez. Como o custo de um exame completo chega a R$ 500 ou R$ 600, só poderá se prevenir quem tem esse dinheiro. E os casais que não têm condições de pagar?, questiona.


