Descobrimento do Brasil gera polêmica
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quarta-feira, 08 de abril de 1998
Ranulfo Pedreiro 
ReproduçãoChegada de Cabral é colocada em xeque: novas teorias cercam a história do Descobrimento do BrasilQuem descobriu o Brasil? Se há tempos a questão era respondida automaticamente, hoje algumas teorias ameaçam tirar o nome de Cabral da ponta da língua. Afinal, até os espanhóis já andaram reivindicando a descoberta da terrinha. A chegada de Cabral ganha espaço na mídia e é colocada em xeque às vésperas das comemorações dos 500 anos do descobrimento.
As opiniões de pesquisadores e estudiosos se confrontam. Há quem não admita a versão oficial, de que Pedro Álvares Cabral chegou aqui por acaso. Mas também existem aqueles que defendem o fato com unhas e dentes. E, enquanto alguns historiadores se debatem para nomear o verdadeiro autor da proeza, outros não consideram a autoria do descobrimento tão importante.
Para os defensores desta última vertente, os portugueses chegaram, desmataram, destruíram nações indígenas e colonizaram o lugar apenas para não perdê-lo. Portanto, para esses pesquisadores, encontrar o verdadeiro descobridor do Brasil seria escrever mais uma vez a história sob a ótica do colonizador.
ReproduçãoA esquadra de Cabral: ilustração do Livro das Armadas da Academia de Ciências de Lisboa
Os historiadores não estão mais aceitando a versão de Cabral por uma série de fatores. A renegociação do Tratado de Tordesilhas, reassinado em 1494 para ampliar os domínios de Portugal tem uma implicação: por que tantas negociações se não existisse a perspectiva de terras nesta região? - questiona Rosimeire Angelini Castro, professora de História do Brasil do curso de História da Universidade Estadual de Londrina.
Rosimeire destaca que existem informações de que Vicente Yanez Pinzón esteve no Brasil no início de 1500, antes de Cabral, e que o fato já foi utilizado pelos espanhóis para reivindicar o descobrimento. Mas não conseguiram perpetuar esta versão. A história do Brasil é construída com datas que funcionam como divisores de águas, é fragmentária, e os nomes são perpetuados como se os feitos fossem inquestionáveis, ressalta.
Um dos indícios de que os portugueses já possuíam informações sobre as terras, segundo a professora, é a Carta de Caminha: O documento não tem um imaginário muito rico, a exemplo do que os espanhóis faziam em seus diários, porque Portugal já tinha conhecimento aprofundado de navegação. Dá a impressão de que quando eles chegaram ao Brasil não levaram um grande susto com as belezas naturais e os povos que aqui viviam. A Carta é descritiva, sucinta e objetiva, o que demonstra pouca surpresa com a descoberta.
A aceitação geral da descoberta de Cabral, para a professora, é uma das características da historiografia brasileira, sempre pródiga em estabelecer marcos e datas, mas pouco preocupada com a contextualização do processo histórico.
ReproduçãoCabral: data do descobrimento é contestada
Mudar os nomes do descobridor não implica em nenhuma alteração profunda na história. O que interessa foram as relações de trabalho impostas por Portugal e o aproveitamento dos povos nativos numa relação de domínio e monopólio. A tônica das novas pesquisas sobre o descobrimento se concentram na perspectiva de se estabelecer um marco histórico e continuar sob a ótica colonizadora, acrescenta Rosimeire Castro.
Ela ressalta que os indivíduos encontrados aqui pelos portugueses tinham uma sociedade organizada, que exercia o poder de uma forma diferente dos colonizadores: Portugal se atribuía a obrigação de ocupar o território e catequizar os povos que encontrasse.
Mas, para aprofundar as pesquisas neste sentido, os historiadores trombam com a falta de documentação. Muito material estaria na posse de países como Holanda, Inglaterra, Portugal e França. A situação tende a melhorar com um convênio assinado pelo governo para microfilmar parte desses documentos e trazê-los para o Brasil.
A coisa complica quando o assunto se restringe ao descobrimento: Foram produzidos apenas sete documentos sobre a descoberta de Cabral. Quatro se perderam. Nós temos apenas a Carta de Caminha, o Relato do Piloto Anônimo e um outro que também dá a notícia do descobrimento. O Esmeraldo de Situs Orbis, citado por alguns estudiosos como prova da descoberta de Duarte Pacheco, já foi pesquisado por historiadores brasileiros. É importante por tratar de novos lugares descobertos por Portugal e reafirmar a experiência marítima do país.
O Esmeraldo de Situ Orbis foi escrito pelo português Duarte Pacheco entre 1505 e 1508, e narra a visita do navegador em terras onde hoje estariam o Estado do Maranhão até a foz do Rio Amazonas em 1498. O documento já foi pesquisado algumas vezes para estabelecer uma nova data para o descobrimento, e recentemente foi estudado pelo pesquisador português Jorge Couto, da Universidade de Lisboa, autor de A Construção do Brasil.
Embora existam suspeitas sobre a passagem de outros povos pelas terras que constituiriam o Brasil, documentos seriam fundamentais para o estabelecimento de uma data: O que se perpetua na história é o que foi escrito. Quem registrou seus achados será lembrado, assegura Rosimeire, acentuando que as comemorações dos 500 anos de descobrimento deveriam seguir outros rumos. É uma reafirmação da cultura ocidental européia. Se o ângulo for transferido para as comunidades que viviam aqui percebe-se que é mais uma tentativa de se estabelecer uma verdade histórica.
Para a professora, a colonização baseada no trabalho escravo, ressurgido com teorias aristotélicas, veio para dispersar ameaças que rondavam o litoral brasileiro por volta de 1530, com os corsários. Como não foi encontrado ouro nem grandes riquezas, além do pau-brasil, o País ficou esquecido logo após o descobrimento. Portugal teria permanecido muito mais interessado no comércio de especiarias do que investir numa terra que, num primeiro momento, não exibia riquezas minerais.


