fotos: Marcos BorgesRochaO geólogo e professor da UEL Edison Archela mostra as peças analisadas:
levantamento bibliográfico feito por ele fala de descobertas semelhantes na região do Rio do Rastro, no Rio Grande do Sul, que mesclavam fósseis e pseudofósseis (fósseis falsos)Estudos arqueológicos atuais dão conta de que os dinossauros surgiram no planeta durante o Período Triássico iniciado há 248 milhões de anos. Os fósseis de dinossauros mais antigos já registrados datam de 220 milhões de anos. Recentemente, peças descobertas por um pescador nas margens da represa de Xavantes na região de Riberão Claro (175 Km de Londrina, norte do Paraná) aguçaram a curiosidade dos moradores e da prefeitura da cidade. Especulações antecipadas afirmavam que tratava-se de ossos fosserizados de dinossauros. Como as rochas em que foi achado o material tinham mais de 250 milhões de anos, o achado alcançaria proporções nunca antes conferidas a qualquer descoberta na América Latina, pois anteciparia a existência dos dinossauros na Terra em no mínimo 30 milhões de anos.
Algumas peças descobertas na represa, que fica na divisa entre os estados do Paraná e de São Paulo, foram enviadas pela prefeitura de Ribeirão Claro para o Departamento de Geociência do Centro de Ciências Exatas (CCE) da Universidade Estadual de Londrina. Nesta semana, o geólogo e professor da UEL Edison Archela, responsável pela avaliação, derrubou a hipótese de que o achado trata-se de fósseis de animais pré-históricos. Segundo ele, os estudos revelaram não existir têxtura óssea nas peças analisadas. ‘‘O material se mostrou simplesmente uma rocha’’, afirma.
Areia cristalizada em meio à porosidade da rocha explica o mistério das cavidades que tornam as peças semelhantes a ossos verdadeiros
Experiência química O professor explica como alguns fatores levaram a crer na possibilidade de uma descoberta fossilífera. Assim como as rochas despertaram a curiosidade do pescador pelos formatos, houve interesse imediato do pesquisador em razão do grande peso das peças. ‘‘O peso é um dos fatores que leva a gente a pensar que se trata realmente de um fóssil’’. O processo de fosserização é uma troca de química entre o material que circunda o fóssil e material orgânico. Nesse processo acaba-se tendo uma réplica perfeita das células do organismo. O osso é formado de fosfato de cálcio. Com a fosserização, há uma saída de fosfato de cálcio e uma substituição por carbonato de cálcio. ‘‘Sai um material leve e entra um material mais denso’’, simplifica Edison.
O segundo passo da pesquisa é uma experiência química. Pingando-se ácido clorídrico num osso recente não há reação química. Porém, a fosserização reage fortemente ao ácido exalando dióxido de carbono, processo característico de efervescência.
No caso da descoberta da represa de Xavantes, as peças que entraram em contato com o ácido clorídrico reagiram com efervescência somando-se aos indícios de que tratavam-se de ossos fosserizados. O último e decisivo teste para o material estudado por Edison foi feito com o estudo das moléculas através das lentes de microscópios. As lupas dos equipamentos da UEL e, posteriormente da Universidade Federal do Paraná, descartaram a possibilidade de que o material coletado em Riberão Claro tratava-se de fóssil.
Pseudofósseis A explicação para as rochas em vários formatos é química. O solo é composto por areias finas que foram banhadas através do tempo por soluções de água salgada. ‘‘Essa areia se aproxima e se cristaliza em meio a porosidade da rocha formando o que a geologia chama de nódulo ou concreção’’. Isso desvenda o mistério das cavidades que conferiam às peças encontradas uma semelhança a ossos verdadeiros.
O interesse pelo caso da represa de Xavantes, levou o professor Edison Archela à Curitiba para pesquisar a literatura disponível. De acordo com o levantamento bibliográfico feito por ele, descobertas semelhantes na região do Rio do Rastro, no Rio Grande do Sul, mesclavam fósseis e pseudofósseis (fósseis falsos) numa camada rochosa de 250 milhões de anos. ‘‘No meio do material rochoso existiam fósseis que mostram animais de dimensões menores que as dos dinossauros’’, conta. É com essa hipótese que os pesquisadores irão trabalhar a partir de agora. De acordo com o professor Edison, uma equipe de estagiários e geólogos passarão a vasculhar a região em busca de fósseis verdadeiros. ‘‘Pode haver um sítio arqueológico na região. Nada ligado à dinossauros, mas a répteis menores’’, define.
Segundo o geólogo, há ‘‘uma pobreza fossilífera entre os dinossauros e os peixes’’. Na teoria da evolução das espécias, os peixes sairam das águas se transformando em anfíbios. Os anfíbios teriam se transformado em répteis através da riqueza do ecossistema. ‘‘Se eu considerar os dinossauros como grandes répteis, eles seriam o apogeu desses organismos no planeta’’, analisa. Porém, a comunidade de geólogos no mundo inteiro trabalha com a revolucionária hipótese de que os dinossauros não eram répteis mas sim aves primitivas. ‘‘Antes, pensava-se apenas na hipótese de que as aves surgiram dos dinossauros’’. Com os estudos atuais estes animais não só não estariam extintos como autênticos exemplares seriam encontratos numa simples galinha. A base desta teoria se baseia em indícios colhidos junto a fósseis encontrados em regiões frias do planeta. ‘‘Isso não seria condizente com um réptil que não consegue regular sua temperatura e sim com as aves que tem o que popularmente se chama de sangue quente’’, explica o professor.
Apesar do sonho do ‘‘Parque dos Dinossauros’’ estar longe de ser concretizado, a geologia caminha para desvendar os mistérios que envolvem estes enormes animais pré-históricos.
Serviço
O Departamento de Geociência da UEL tem o PROGEO/Museu da Geologia para atender as inúmeras consultas da comunidade em relação à rochas e outros materiais encontrados na natureza. Os interessados podem entrar em contato com o departamento através dos telefones: (043) 371-4316 e 371-4246.

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