DEPRESSÃO: O CÉREBRO EM PANE
Falhas no funcionamento dos neurotransmissores podem acarretar a depressão, uma doença que já atinge 340 milhões de pessoas
Célia Baroni
Especial para Folha Ciência
IlustraçãoReproduçãoEstar triste, não saber o que fazer, sentir-se desmotivado, não ter vontade de nada. Fome demais, sono de menos. Fome de menos, sono demais. As combinações variam de pessoa para pessoa. E estes sentimentos e emoções são comuns. Fazem parte da vida e do processo de sobrevivência. Ensinam o ser humano a se adaptar. Mas este mundo ‘‘marrom’’, onde tudo parece e aparece sem perspectivas de solução não pode durar indefinidamente.
É justamente a duração, o tempo que a pessoa demora para recuperar o ‘‘prazer de viver ’’ que diferencia a crise existencial da depressão. ‘‘Somente os mortos não ficam tristes. Mas viver em agonia e sem motivação? Isto é uma doença que deve ser vista e tratada como patologia e não simplesmente encarada como um desvio ou desequilíbrio emocional’’, afirma o professor Jorge Ciprian Olliver, titular da cadeira de Psicofarmacologia na Universidade de Buenos Aires que participou em abril do Congresso Mundial Regional de Psiquiatria, realizado em São Paulo.
Apesar de, nos últimos anos, a depressão ter se tornado assunto tratado nas rodas mais variadas, pouco se sabe sobre ela. Os cientistas já conseguiram provar, em laboratório, que ela existe de fato e que é uma doença. O exame é complicado e caro, mas pode ser feito. Depressão não é frescura de madame nem problema de preguiçoso.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 340 milhões de pessoas, no mundo, sofrem ou sofreram crises de depressão. Em 2020, a depressão será a segunda causa mundial de anos perdidos de vida saudável, perdendo apenas para a isquemia cardíaca. Só a Inglaterra gasta cerca de 40 bilhões de dólares por ano com a depressão - queda da produtividade, falta ao trabalho, tratamento e hospital.
Das tentativas de suicídio, 60% são provocadas pela depressão - o restante está relacionado a doenças psiquiátricas. Sabe-se que quando a depressão ocorre há uma queda sensível na disponibilização de neurotransmissores no cérebro, principalmente da serotonina e da noradrenalina. Estas substâncias são responsáveis pela boa transmissão dos impulsos nervosos e consequentemente pela leitura correta dos estímulos que recebemos e pelas ‘‘respostas’’ que damos.
Os neurotransmissores estão para o cérebro como o regente está para a orquestra. Um movimento diferente do maestro e a orquestra se perde.
Existem vários tipos de neurotransmissores, mas até agora, a ciência conseguiu evidenciar apenas três como sendo os mais importantes: a serotonina, a noradrenalina e dopamina. Eles interagem, regendo juntos a mesma orquestra. Mas cada um tem a sua especialidade - agem com mais ênfase sobre um determinado tipo de impulso nervoso.
A serotonina é o neurotransmissor do ‘‘impulso’’ - os principais sintomas da carência dela são a prostração, o raciocínio e reflexos lentos e a dificuldade de compreensão; decodificação dos estímulos externos. Já a noradrenalina responde pela vigilância e motivação. A diminuição dos níveis de noradrenalina no cérebro ocasiona a perda da ‘‘força vital’’ que leva o ser humano a reagir e a se comunicar.
Mas a falta de neurotransmissores ainda não é a resposta para a causa da depressão. Em um recente estudo, realizado na Inglaterra, os cientistas tentaram induzir a depressão em pessoas, reduzindo a quantidade de neurotransmissores no seu cérebro, sem resultado. Um grupo teve reduzida a quantidade de noradrenalina e outro grupo a quantidade de serotonina. Concluíram que a simples redução dos níveis de neurotransmissores não é capaz de provocar depressão.
Esta pesquisa abre uma nova janela para tentar desvendar o que realmente provoca a depressão. A partir dela os cientistas começam a encarar a possibilidade de que a carência de neurotransmissores é apenas a ‘‘ponta do iceberg’’ e que a causa da depressão pode estar em uma disfunção em outro ou outros pontos do cérebro.
Por enquanto, a ciência sabe que em pessoas com depressão o aumento da oferta de neurotransmissores supre uma deficiência e contribui sensivelmente para a cura da crise. E enquanto não encontra a ‘‘ponta do novelo’’, a ciência segue desenvolvendo medicamentos que, se não oferecem a cura completa da depressão prometem melhorar a qualidade de vida para quem sofre do mal.

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