Luiz Roberto de Souza Queiroz
Agência Estado

Arquivo/Folha





Teste desenvolvido por pesquisadora brasileira facilita a determinação do sexo de espécies como a arara que não tem disformismo sexual, isto é, machos e fêmeas parecem iguais











Uma pesquisadora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveu, na Inglaterra, um novo sistema de determinação do sexo de araras, jandaias e periquitos através do DNA, o código genético dos seres vivos. O método, que parte da análise de uma gota de sangue do animal, evitando o procedimento cirúrgico que se usava anteriormente e que por vezes resultava na morte da ave, vai ser aplicado nas 14 araras que vivem no Esporte Clube Pinheiros e que representam quatro espécies. Esse é o primeiro passo para um programa de reprodução em cativeiro, que evite a extinção e que está sendo desenvolvido num trabalho conjunto do Ibama, USP, Zoológico de São Paulo e Clube Pinheiros.
A descobridora do sistema, Cristina Yume Miyaki, explica que as araras, maracanãs, jandaias, aratingas e periquitos de cauda longa geralmente não tem dimorfismo sexual, isto é, machos e fêmeas externamente são idênticos. Os criadores costumavam usar um laparoscópio para perfurar o abdôme da ave anestesiada, visualizando em seu interior a presença de órgãos masculinos ou femininos, diferença essa que só fica patente nas aves adultas, ou então mandavam o sangue para os Estados Unidos, onde há outros sistemas de sexagem pelo DNA.
Pelo sistema desenvolvido pela pesquisadora brasileira, cada ave é anilhada, recebendo um número, depois do que se corta uma unha, para que saia uma pequena amostra de sangue, que é analisada em laboratório, para a identificação do marcador de sexo.
DNAA descoberta do novo sistema foi casual, explica Cristina. Ela foi fazer um estudo na Inglaterra, onde foram desenvolvidos os testes de DNA que determinam a paternidade em seres humanos, e como é funcionária do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências, levou amostras do sangue de araras brasileiras.
‘‘Apliquei o mesmo esquema usado para o DNA humano nas amostras que levei’’, explica ela. ‘‘Elas foram tratadas com enzimas, sais e detergentes, resultando numa solução que é posta em estufa e centrifugada, para purificação’’. O líquido resultante é posto numa placa de gel de agarose, através da qual se aplica uma corrente elétrica, que faz surgir a banda do DNA, visísel a olho nu. Acrescentada nova enzima, a placa é examinada sob luz ultra-violeta, subdividindo-se o DNA, que é então transferido para uma membrana de nylon e comparado com uma sequência conhecida de DNA, e que foi tratada com material radioativo. ‘‘Ao serem justapostas as duas bandas, elas se colam nos pontos em que houver identidade’’.
DefeitoDepois de realizado todo esse procedimento, a pesquisadora identificou uma estranha repetição de bandas fortes, que inicialmente pensou ser defeito do teste. Foram os ingleses que aventaram a possibilidade de que se tratasse de um marcador de sexo. A pesquisadora pediu, então, a um criador paulista de arara-juba (uma pequena arara verde-amarela), que enviasse amostras de sangue de um casal cuja fêmea estava identificada, porque estava em processo de postura.
O resultado foi positivo, novos testes de confirmação foram feitos com araras do Zoológico de Sorocaba, e o estudo já foi publicado em revistas científicas. A aplicação prática do sistema já começou. Além das araras do Esporte Clube Pinheiros, muitas outras estão sendo anilhadas e sexadas, o que permite a formação de casais que, entre as araras, geralmente são estáveis por toda a vida adulta das aves.
Com a identificação dos machos e fêmeas dos zoológicos e dos criadouros autorizados, o Ibama passa a ter uma relação das aves em cativeiro, o que facilita inclusive as permutas, para formar casais reprodutivos e ampliar o número de nascimentos de espécies ameaçadas. De algumas espécies brasileiras, sobrevivem poucas dezenas de exemplares e como o ‘‘habitat’’ foi destruído, a esperança é a criação em cativeiro.
Para o biólogo Luiz Francisco Sanfilippo, do Zoológico de São Paulo, o anilhamento, sexagem e formação de casais é efetivamente o caminho para a salvação de muitas espécies, ‘‘mas estamos apenas no começo, temos trabalho para muitos anos’’.

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