O relações públicas Romeu Barreto de Menezes recorreu à tecnologia para tocar o coração da esposa, Tereza. Nascida na Ucrânia, ela tinha muitas gravações em LPs e fitas cassete de cânticos religiosos e folclóricos de sua terra natal, mas há anos não conseguia ouvi-las porque não tinha toca-discos. Menezes fez, então, uma seleção cuidadosa entre os vinis e fitas que tinha em casa, e encomendou ao analista de sistemas Roberto Rodrigues a gravação do seu conteúdo em CDs. A surpresa agradou em cheio. Tereza não conteve as lágrimas ao escutar novamente as músicas que lembravam sua infância.
A transformação de arquivos de música gravados em meios analógicos, como vinis e fitas, para CDs, que são mídias digitais, é cada vez mais anunciada nas seções de classificados. Mas é preciso ter cautela na hora de escolher quem vai fazer o serviço. Antes de se deixar seduzir pelos preços, é preciso verificar os equipamentos a serem utilizados.
Além disso, é preciso deixar bem claro, também, que tipo de gravação será feita. Há preços diferenciados para reprodução simples de discos, produção de CDs personalizados com faixas de vários LPs e gravações com eliminação de ruídos. A gravação simples custa, em média, R$ 20 por CD, um valor que varia de acordo com a quantidade e o estado de conservação dos discos.
O analista de sistemas Roberto Rodrigues começou a se interessar pela gravação de vinis em CD há um ano e meio, mas só começou a gravar em julho de 98, porque demorou a descobrir um software adequado. Dono de uma coleção de 750 LPs, Rodrigues constatou, observando os classificados, que cobrava-se caro pela gravação.
‘‘No meio do ano passado, vi anúncios em que a gravação de um LP custava R$ 60. Encontrei até anúncios em que o preço era R$ 75 por unidade’’, diz Rodrigues. ‘‘Fiz as contas e cheguei à conclusão de que se eu cobrasse R$ 20 por LP, daria para cobrir todos os custos e ainda ter margem de lucro. Resolvi pôr um anúncio num boletim da Coppe, onde trabalho. Desde então, raramente tenho tempo de gravar meus próprios vinis, pois vivo às voltas com encomendas.
O músico e analista de sistemas Aroaldo Veneu também entrou no ramo de gravação de vinis por curiosidade. Depois de muito estudar o assunto, Veneu fez as primeiras gravações, mostrou aos amigos e, graças ao boca a boca, foi ganhando clientes. Um deles é o militar aposentado Nilton Araújo, que confiou a ele sua coleção de discos de 78 rotações, com gravações raras de Orlando Silva, Isaurinha Garcia e Francisco Alves.
‘‘Demorei muito para achar alguém que trabalhasse com discos de 78 rotações, até porque não tenho mais aparelho de som próprio para esses discos’’, diz Araújo. ‘‘Estou super feliz porque vou poder ouvir minhas músicas prediletas novamente.’
Já o músico Carlos Pereira é especialista em recuperação de gravações danificadas, principalmente em fitas DAT com dropout. Ele se interessou pelo assunto quando começou a fazer o curso de mestrado em Música da UFRJ, há três anos. Seus clientes também chegaram através da recomendação de amigos, e ele assegura que, até hoje, ninguém se arrependeu.
Para Carlos, o importante é ter um bom analisador gráfico. De acordo com as variações expostas na tela do computador, ele tem condições de identificar a quantidade de frequência existente numa gravação e, a partir daí, pode eliminar todos os ruídos sem prejudicar nenhum acorde.
‘‘No caso das fitas DAT com problemas, não é preciso ser músico, mas é imprescindível ter bom ouvido’’, explica Pereira. A opinião é compartilhada por Aroaldo Veneu que, no entanto, observa que pessoas com conhecimentos de música tendem a prestar um serviço melhor, graças aos ouvidos mais apurados.
Na hora de escolher o profissional para dar nova vida a discos, LPs e fitas, é aconselhável trabalhar com alguém que tenha sido indicado, e verificar o tipo de equipamento e o método de trabalho. Veneu diz que se deve desconfiar de pessoas que prometem rapidez:
‘‘Este é um trabalho que pode demorar dias,’ explica. ‘‘Desconfie de quem disser que faz a gravação em duas horas.’
Saber o tipo de equipamento usado também é importante. Roberto Rodrigues avisa que há gente no ramo fazendo um trabalho muito rudimentar: ‘‘Existe muito enganador que pega um gravador de CD-R, liga num toca-discos qualquer e copia cada lado do disco como uma faixa, sem qualquer filtragem.’
O analista de sistemas diz que a cópia tem que ser feita através do computador, para que seja possível eliminar ‘‘pops’’ e ‘‘clics’’ e deixar os arranhados imperceptíveis. Rodrigues diz ainda que a qualidade do toca-discos é fundamental para manter os agudos da gravação original. Ele recomenda um equipamento com pitch control e agulha de boa qualidade, como a Shure, por exemplo.
A placa de som do micro é outro componente importante. Veneu usa a Audiomedia, mas diz que o resultado também será bom se a pessoa usar placas como CardD Plus, Gina e Layla. De acordo com Veneu, essas placas podem ser encontradas a partir de US$ 500. Na hora de eliminar ruídos, ele trabalha com o software Soundforge, da Sonic Foundry (www.sonicfoundry.com). Já Rodrigues prefere o DartPro.
Do ponto de vista legal, não se considera crime a reprodução de faixas de um LP ou disco de vinil em CD. O advogado Eduardo Pimenta, especializado em Direito Autoral (trabalha para o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Rio de Janeiro), explica que a reprodução e a utilização de obra intelectual depende de autorização do autor ou do seu representante legal, o que implica pagamento de direitos autorais. Mas acrescenta que a atual lei de direitos autorais (Lei 9610/98) cita determinadas formas de utilização que não dependem de autorização e não ofendem os direitos autorais.
‘‘Estas exceções estão no artigo 46, no inciso ‘I’, letra ‘d’ e inciso ‘II’.’, diz Pimenta. Quem consultar o tal artigo 46, nas seções indicadas pelo advogado, vai encontrar o seguinte texto: ‘‘Não constitui ofensa aos direitos do autor: ‘‘A reprodução, em um só exemplar, de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que seja feita por este sem fins lucrativos’’. Consciência tranquila, pois.

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