A palavra ‘‘arroba’’ ocupa um lugar de destaque. Sua sorte entrou na história dos homens há pouco anos apenas, ao mesmo tempo que o computador na ‘‘ponta dos pés’’ inundou o planeta e nenhum ‘‘ser humano’’, seja na Tailândia ou na Geórgia do Sul, poderia se prevalecer da qualidade ‘‘de homem’’ se não conhecesse a palavra ‘‘arroba’’.
Essa invasão instantânea, independente de qualquer fronteira, é curiosa. Mas, em última análise, há outros casos da mesma espécie: a palavra Aids (ou Sida), por exemplo, infelizmente teve uma celebridade tão fulgurante quanto. Mas o estranho na palavra ‘‘arroba’’ é que ninguém sabe de onde vem, como apareceu quando surgiu, qual é sua origem.
Ignora-se, inclusive, quem foi seu pai.
Fatalmente, um país tão apaixonado pela língua, como a França ficaria fascinado por esse ‘‘invasor’’, esse ‘‘intruso’’, que se instalou no meio da linguagem mundial, sem sequer apresentar seu passaporte. E, mais, seu pedigree. Uma ‘‘criança de pai desconhecido’’. Um ‘‘sem documentos’’, o que é o cúmulo para uma palavra.
Não é de se espantar que se desencadeasse uma batalha. Todos os linguistas folhearam seus dicionários e nos apresentam suas conclusões.
Os linguistas mais vigorosos remontam até a Idade Média: segundo eles, foram os escribas da Idade Média que utilizaram a abreviação ‘‘ad’’ para designar ‘‘para’’ (mas como passar de ‘‘ad’’ para ‘‘arroba’’ é um mistério!).
Um outro clã lembra-se que existia uma ‘‘medida’’ na Espanha árabe, cuja pronúncia se aproximava de ‘‘arroba’’.
A própria ortografia não é certa: em francês, escreve-se a palavra ‘‘arrobas’’ ou ‘‘arrobase’’, ou ainda ‘‘arrobace’’. A Academia Francesa, que é a guardiã da boa linguagem, foi então interrogada pelos linguistas.
Infelizmente, a Academia Francesa é lenta e extremamente minuciosa, não muito hábil e um pouco maníaca. Não é preciso apressá-la. Ela está estudando, para seu ‘‘dicionário’’, a letra ‘‘M’’. Assim, para chegar em ‘‘arroba’’, será preciso que ela termine seu dicionário atual e que inicie um novo. Na melhor das hipóteses, o veredicto será dado por volta do ano 2006.
O diretor do dicionário de maior prestígio - Le Robert - foi interrogado. Ele respondeu que a palavra ‘‘arroba’’ vinha da tipografia.
Seria uma deformação da língua dos tipógrafos de antigamente.
Na língua dos tipógrafos (antes da geração computadores) havia uma expressão ‘‘redondo caixa-baixa’’. Lembremos o sentido: antigamente, com as letras de chumbo, os tipógrafos trabalhavam com uma espécie de tabuleiros, com vários compartimentos, e as linhas de baixo, as ‘‘caixas-baixas’’ eram reservadas para as letras impressas utilizadas com mais frequência. ‘‘Arroba’’, retomando simplesmente a expressão ‘‘redondo caixa-baixa’’.
Um outro linguista, Claude Hagge, professor do College de France, e conhecedor de umas cinquenta línguas, defende um outro ponto de vista.
Sua primeira convicção é que, embora a palavra ‘‘arroba’’ nos tenha chegado pelos Estados Unidos e pela informática, não é anglo-saxônica, e sim latina ou ‘‘sobretudo neolatina’’.
Ele busca a origem no francês antigo ou, mais precisamente, no provençal (língua da França meridional, aliás, que lembra o português).
Hagge descobriu na obra de um grande poeta provençal do século 20 (Frédéric Mistral, um dos primeiros a receber o Prêmio Nobel) uma menção à palavra ‘‘arroba’’. Seria uma deformação da palavra ‘‘ara-bast’’.
E o que é um ‘‘ara-bast’’? É um gancho que se colocava nas bestas de carga, cavalos, ou bois.
Mas o próprio linguista Hagge, sem a preocupação de se contradizer, nos apresenta também uma outra etimologia: seria um ‘‘símbolo’’ inventado pelos escribas da Idade Média que constituía uma abreviação do ‘‘ad’’ latino.
Estamos apenas no início de um longo caminho; amanhã, linguistas ingleses, alemães, portugueses, russos ou chineses vão colocar suas pedras no edifício. Saberemos, algum dia, o sentido dessa palavra? O que nos remete a outra pergunta bem vertiginosa: como é possível que o mundo inteiro, em poucos anos tenha adotado uma palavra que sequer nos foi apresentada por seus pais, e que ninguém sabe como nem por que foi introduzida por violação em pleno auge da modernidade?

mockup