Márcia Barizon (à direita) e a sócia Sheila Ueda estreiam no e-commerce
Márcia Barizon (à direita) e a sócia Sheila Ueda estreiam no e-commerce | Foto: Anderson Coelho



Com 24 anos de atividade no varejo físico, dona de uma loja de decoração, a empresária Márcia Barizon resolveu investir em um e-commerce. "É a tendência. Hoje as pessoas querem comodidade, praticidade, pensam no tempo de locomoção. Estamos entrando no e-commerce para tentar atingir esse público." A empresária também investe nas mídias sociais, colocando anúncios que integram as mídias à loja virtual para converter em vendas o crescente relacionamento dos consumidores com marcas no ambiente digital. Com a estreia no comércio eletrônico, Márcia também espera expandir a atividade para todo o Brasil.

"Se avaliarmos as transformações que as novas tecnologias estão trazendo ao mercado, com outras formas de o consumidor se relacionar com as marcas, com os produtos, o varejo é o que mais sofre com as mudanças no modelo de negócio", observa Marco Aurélio Kumura, diretor de Tecnologia e Inovação da Acil. Para ele, os empresários precisam entender que as novas tecnologias e as transformações digitais terão grande impacto sobre o comportamento do consumidor, e por isso será preciso se adaptar a essa nova realidade.

O sucesso do comércio eletrônico tem levado à mudança do comportamento do consumidor, e à necessidade de o varejo como um todo se transformar. O consultor do Sebrae/PR, Rubens Negrão, observa que grandes redes e grupos do varejo já operam quase 100% no mercado digital. "Isso impacta diretamente o lojista tradicional. Ele não sente isso de imediato, mas vai tirando aos poucos o faturamento. O cliente migra e não é mais tão fiel quanto antes."

Ele observa que, cada vez mais o consumidor está conectado à rede mundial de computadores pelo celular. "Se analisarmos o varejo, ele cresce 1% a 2% ao ano, e a web cresce 15% ao ano. Isso mostra que as pessoas estão cada vez mais acostumadas a comprar pelos meios digitais, e o mobile representa 30% disso. Estima-se que nos próximos dois anos esse índice pode chegar a 50%", afirma.

Apesar disso, o varejo físico não irá acabar. "Ele vai adotar um novo papel", diz Kumura. O diretor da Acil se refere ao conceito de Omnichannel, ou seja, a presença do varejo em diversos canais, físicos ou digitais, de modo que a transição de um canal para outro não seja percebida pelo consumidor. "A experiência da marca passa a ser única como se não houvesse diferença entre o físico e o digital. O consumidor quando olha para uma marca, quer conversar com ela independentemente se está na loja física, no celular, no desktop. A mudança está no comportamento do consumidor, que não enxerga a diferença entre o físico e o digital, e a tecnologia propicia isso."

Segundo Fabiola Paes, especialista em varejo, responsável pelo laboratório de startups do OasisLab (primeiro centro de inovação especializado em varejo do Brasil) e uma das fundadoras da startup Neomode, de soluções voltadas para o setor, muitos varejistas ainda enxergam os canais digitais como uma ameaça. "Na verdade, a ameaça é se manter analógico." Uma das vantagens de se atuar no canal on-line é poder ter uma maior previsibilidade de compras, ressalta a especialista. "Você consegue prever melhor, planejar as compras." Fabíola é uma das palestrantes da 5ª edição do Mercado em Foco, evento da Acil que discutirá tendências e práticas inovadoras no varejo no próximo dia 21.

STARTUPS
E para aqueles que querem apostar na tecnologia, não faltam soluções para apoiar as empresas nessa transformação digital. Estudo realizado por Fabíola, em parceria do OasisLab com a Neomode, e apoio acadêmico do Núcleo de Varejo Retail Lab da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), revelou 193 startups de tecnologia voltadas ao varejo no Brasil. Muitas atuam com o modelo de SaaS (Software as a Service), que permite aos empresários terem acesso aos seus serviços pelo custo de uma mensalidade, ou chegam até mesmo a oferecer software gratuito. "A tecnologia está disponível. Basta ter vontade de fazer", diz Kumura.
Mas também é importante que o empresário conheça seu cliente para saber o quanto a tecnologia faz parte do dia a dia dele, completa Negrão. E a partir daí, tentar interferir o quanto antes nesse cenário.
Na visão de Fabíola, aderir aos canais digitais não necessariamente significa que o varejista precisa migrar para o e-commerce. Existem alternativas que podem atender ao empresário, como aplicativo de fidelidade, shopbot (programa de simulação de preços), ou chatbot (programa que simula conversa entre pessoas). "Um e-commerce é uma boa porta de entrada, mas é preciso entender o que é melhor para o seu negócio, junto com as startups."


'UBER DAS ENTREGAS'

O antigo Cabenocarro, plataforma de entregas colaborativas lançada no ano passado para conectar pessoas que estavam prestes a viajar a pessoas que precisavam fazer uma entrega no mesmo destino, se transformou na Zarpou. Em 40 dias, já foram feitas cerca de 300 entregas pela plataforma. O foco agora é a distribuição dentro da cidade, através de uma rede de entregadores em todos os modais: bicicleta, motocicleta, carro.
Na visão de um dos fundadores, Marlon Pascoal, os restaurantes são clientes em potencial por terem dificuldade em manter entregadores fixos devido à oscilação na demanda de entregas. A plataforma permite que restaurantes, lanchonetes e outras empresas como farmácias, autopeças e empresas do e-commerce se conectem ao entregador mais próximo para realizar suas entregas.
"É como um 'Uber das entregas'", diz Pascoal. Antes de serem cadastrados na plataforma, os entregadores passam por uma avaliação criteriosa. A solução beneficia tanto a empresa, que pode pagar pelas entregas apenas quando têm demanda, como os entregadores, que podem conseguir mais trabalho por meio da plataforma. "É uma oportunidade para quem não tem muita demanda de entregas ou não tem delivery ainda", comenta o empreendedor.

JOGO DE GANHA-GANHA

O mercado calçadista enfrenta o problema de previsibilidade nas vendas. É o que conta Carlos Nunes Junior, fundador da startup Virtuare. "As lojas de calçados têm dificuldades de ter uma média histórica do que vão vender", afirma. Isso leva à falta ou excesso de mercadorias no estoque.
Para solucionar o problema, Nunes desenvolveu uma solução que se baseia no histórico de vendas e utiliza Inteligência Artificial para oferecer ao varejo uma previsão de vendas segmentada por modelos e marcas de calçados. Os resultados também podem auxiliar a indústria. A ferramenta será lançada entre o final de abril e o início de maio.
Outra startup que propõe a atender o varejo é a londrinense TadTarget. Valendo-se de ferramentas tecnológicas, as soluções da empresa visam a busca por mais clientes, seja no ambiente on-line ou off-line. Ela atua na tendência do omnichannel, em que as empresas têm presença em todos os canais, que se integram harmonicamente para oferecer uma melhor experiência de compra ao consumidor.
A solução da TadTarget utiliza ferramentas de big data, inteligência artificial e machine learning (aprendizado de máquina) para oferecer ao consumidor ofertas segmentadas a partir de dados sobre seu comportamento na web, explica Lucas Darienço Valença, sócio da TadTarget junto com Tadeu Luis Pires Gaudio.
A compra pode ser efetuada tanto no ambiente on-line quanto no off-line, mas a interação com o consumidor é sempre no virtual. Lá, a ferramenta pode oferecer cupons para que a compra seja feita com desconto na loja física, por exemplo.

STARTUP WEEKEND

O tema da Startup Weekend 2018 Londrina, que acontece nos dias 16 a 18, é o varejo. O evento de startups e empreendedorismo é realizado em diversas cidades do País, mas Londrina sediará a primeira com o tema do varejo no Brasil. A organizadora Regimara Azevedo afirma que a existência de empreendedores na cidade que já estavam trabalhando com soluções na área foi um dos fatores determinantes para a escolha do tema. "Pensamos em algo que tivesse tanto o potencial de ser absorvido pela cidade quanto uma área com empreendedores que já vinham desenvolvendo soluções." O fato de o setor ser um dos principais na economia da cidade também influenciou na decisão.
Para Regimara, é ampla a cadeia do varejo, que oferece oportunidades para as startups. "Abrange a inteligência do mercado, a fabricação e todo o percurso até chegar ao consumidor com a logística, meios de pagamento, experiência do consumidor, pós-venda." A interação entre startups e empresários do varejo pode beneficiar os dois lados. "A startup precisa de informação, entender os problemas pelos quais as empresas estão passando, e o empresário precisa de uma solução. É um jogo de ganha-ganha."

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