Conhecimento genético cria temores
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de maio de 1999
France Presse 
Apesar da decodificação do genoma humano abrir a porta para tratamentos médicos revolucionários, o método também cria inúmeros temores, já que implica na revelação de segredos do organismo, o que pode resultar numa seleção arbitrária de indivíduos.
Vamos presenciar, num curto prazo, a uma explosão das capacidades de diagnóstico genético, prediz Thomas Magnus, do centro de bioética da Universidade da Pensilvânia. Vamos dispor cada vez mais de teses, mas sem sermos capazes de fazer grande coisa para extrair resultados concretos, prossegue. É muito preocupante.
Hoje, os testes genéticos são moeda corrente. Muitas mulheres o utilizam para descobrir os riscos de deformação em seus futuros filhos. Mas existem suspeitas de que empresas e seguradoras recorrem a eles para escolher seus funcionários ou negar seguros a pessoas predispostas a sofrer determinadas doenças.
Segundo o grupo Council for Responsible Genetics, cerca de trinta estudos norte-americanos proibiram estas práticas. Em 1996, o Congresso Federal votou uma lei que proíbe as seguradoras de negar um contrato de trabalho baseando-se no patrimônio genético do candidato.
Mas em alguns estados, as seguradoras burlam esta medida, aumentando os prêmios das pessoas que sofrem de uma enfermidade quando renovam seu contrato.
Sabemos que certas pessoas estão dispostas a utilizar as informações (obtidas através do genoma) para objetivos duvidosos, reconhece Craig Venter, presidente da empresa Celera Genomics. Por isso é necessária uma lei bem abrangente contra a discriminação genética.
Mais grave ainda: alguns temem que conhecer os detalhes do genoma crie a tentação de modificá-lo. Não deveríamos nem tentar isso, afirma taxativamente Venter. Só em 300 ou 400 anos saberemos modificar um determinado gene que permita eliminar definitivamente uma doença sem qualquer risco, mas acho que ainda não somos inteligentes o suficiente para fazer isso.
No entanto, a maioria dos cientistas enfatiza que a resposta para esta pergunta não compete a eles exclusivamente. Seria muito arrogante por parte de um pesquisador afirmar que isto não deve ser feito se o público achar o contrário, enfatiza outro peso pesado da biotecnologia, William Haseltine, presidente da companhia Human Genome Sciences (HGS).


