Confirmada descoberta da antigravidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de dezembro de 1998
Carlos Orsi Martinho Agência Estado 
A expansão do universo não é constante, e nem está desacelerando. Na verdade, o universo está crescendo cada vez mais rápido. A idéia, inicialmente apenas uma conjectura, foi confirmada pela observação da mais distante supernova já descoberta. Chamada Albinoni, essa nova - na verdade, a luz da explosão de uma estrela - está a 18 bilhões de anos-luz da Terra, e se move rápido. Muito rápido.
À medida que o universo se expande, a luz emitida por uma estrela é esticada pelo efeito Doppler - o mesmo fenômeno que faz com que um som pareça mais agudo, conforme sua fonte se afasta do ouvinte. No caso da luz, esse tornar-se agudo se traduz em um desvio para a região vermelha do espectro. Quanto mais rápida a expansão, maior esse desvio.
Se a gravidade fosse a única força atuando sobre a expansão do universo, seria de se esperar que as estrelas mais distantes apresentassem um desvio para o vermelho relativamente modesto - já que a velocidade com que viajam teria sido reduzida pela atração gravitacional dos demais corpos. O estudo de Albinoni, no entanto, revelou o mesmo que observações anteriores haviam mostrado: a velocidade de expansão do universo está crescendo, e não diminuindo. A única explicação aparente é a existência de uma outra força cósmica - até então desconhecida - que não só atua contra a gravidade, como também a supera.
Essa conclusão é ainda mais surpreendente porque contraria praticamente todas as conclusões lógicas sobre os rumos do universo, conforme extraídas da Teoria da Relatividade de Einstein e de uma série de observações anteriores. O novo universo em aceleração contradiz tudo que a ciência pensava saber sobre o funcionamento do cosmos. Não sem razão, a revista Science já declarou a descoberta da força repulsiva como um dos dez maiores feitos científicos do ano.
O cenário anterior à nova descoberta era de uma lógica impecável: o universo começou no Big Bang - uma misteriosa explosão que criou tudo a partir do nada. Essa explosão teria dado às partículas primordiais um grande impulso, afastando-as rapidamente do centro hipotético da Criação.
Atuando ao longo de bilhões de anos, no entanto, a gravidade - uma força que faz com que matéria atraia matéria - estaria consumindo esse impulso inicial, como o atrito com o chão desacelera uma bola em movimento. A dúvida que restava era saber se a gravidade seria suficiente apenas para parar a expansão, ou se teria poder suficiente para reverter o movimento, arrastando tudo de volta para o centro inicial.
A nova evidência mostra que nenhum dos dois cenários irá ocorrer. A expansão pode continuar, talvez indefinidamente, diz a Sociedade Americana para o Avanço da Ciência, que publica a Science, em uma nota oficial. Para a Sociedade, as conclusões da nova pesquisa implicam em que a gravidade não é páreo para a força que está empurrando o universo para fora, em todas as direções.
Agora, qual será a natureza dessa força? Quando Einstein percebeu que suas teorias levavam à idéia de um universo em expansão/contração, ele incluiu em suas equações uma constante cosmológica, uma espécie de força antigravidade que equilibraria as coisas, produzindo um resultado diferente - um universo estático. Não havia qualquer razão experimental para isso. Acontece, apenas, que para os gostos da época, um universo estático parecia mais plausível, intuitivamente, que um em expansão. Depois, quando a expansão foi confirmada experimentalmente, o próprio Einstein admitiu que a constante cosmológia havia sido um erro.
A nova descoberta volta a colocar a constante cosmológica na berlinda. Outra explicação, já sugerida, fala em uma expansão do espaço - como se as distâncias fossem feitas de partículas, e essas partículas estivessem se expandindo, ou se multiplicando. Seja qual for a explicação, essa descoberta do ano mudará nossa compreensão do universo.


