Computador ajuda a (re)ver Portinari
Agência O Globo
A brigada contra os falsários de obras do pintor Cândido Portinari está ganhando um reforço da tecnologia. O Projeto Portinari, responsável pelo levantamento do acervo do pintor e pela verificação da autenticidade das obras, uniu-se aos departamentos de matemática e informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) para criar um processo mais eficiente sobre a pesquisa de autoria. O resultado desta união, que tem o patrocínio da Petrobras, é o Projeto Pincelada. O diretor geral do Projeto Portinari, João Candido Portinari, diz que o objetivo é estudar a pincelada do artista, pois ela representa mais do que a caligrafia de um pintor.
O trabalho com a obra de Portinari no Laboratório de Engenharia de Algoritmos e Redes Neurais da PUC-RJ começou há nove meses. A expectativa do professor Ruy Luiz Milidiú, do departamento de informática da PUC, é de que dentro de três meses haja uma primeira versão do programa para testar a autenticidade das obras. Com programas desenvolvidos no próprio laboratório em linguagem C, a equipe de Milidiú começou a fazer testes com obras do próprio Portinari e de Enrico Bianco, discípulo e principal colaborador do pintor.
Agência O GloboO Projeto Portinari responde pelo levanta mento do acervo do pintor e pela verificação da autenticidade das obras que, pelo processo desen volvido na PUC-RJ, são divididas em qua drados (no detalhe), representando micropinceladasMilidiú explica que os quadros analisados foram divididos em pequenos quadrados, de quatro milímetros, cada um representando uma micropincelada. Os micro-quadrados são escaneados e entram num banco de dados como imagens digitais. Começa, então, um processamento matemático para capturar os padrões que identificarão os autores.
A partir dos dados registrados nesses pequenos quadrados, o método extrai um conjunto de atributos que caracterizam a pincelada do autor, diz Milidiú. Então, quanto maior o número de imagens capturadas, mais eficiente será o processo de verificação da autenticidade da obra.
De acordo com João Candido Portinari, a pincelada reflete a forma como cada artista mistura a tinta na palheta. Os dados do Projeto Portinari mostram que já foram atribuídas 5.511 obras a Portinari. Mas, desse total, foram consideradas verdadeiras 4.635. As obras falsas somam 211, e cerca de 600 ainda estão sendo analisadas. João Candido explica que os métodos tradicionais de autenticidade - olho de perito e análises físico-químicas feitas em laboratório - têm falhado.
O método usado no Projeto Pincelada começou a ser desenvolvido há três anos a partir de uma solicitação da Petrobras para análise de desempenho de gasolina. Milidiú explica que é gerado em laboratório um perfil químico da gasolina. Mas é preciso ser um especialista para poder interpretar este perfil. Poderíamos comparar este perfil químico a um eletroencefalograma, comenta Milidiú.
Paralelamente ao teste químico, faz-se um teste de motor que demora cerca de 12 horas. A intenção da Petrobras, ao entrar em contato com a PUC-RJ, era testar programas disponíveis no mercado para poder eliminar o teste do motor e garantir uma análise eficiente da gasolina. Milidiú explica que os produtos testados pela sua equipe foram considerados defasados. Então, eles resolveram construir um protótipo para análise da gasolina. Este modelo, desenvolvido para a predição do combustível, começou a ser testado em ambiente acadêmico para situações de previsão.
Tivemos muito sucesso nos testes iniciais, explica Milidiú. A partir desses resultados, vimos que era possível usar o mesmo método para o processo de autenticidade.





