Agência O Globo,
do Rio
Nesta quarta-feira completam-se 40 anos da morte do compositor de ‘‘Bachianas Brasileiras’’ e, para homenageá-lo, o cineasta Zelito Viana se prepara para lançar, em abril do ano 2000, um filme que conta a sua história. Claro que uma das principais estrelas de ‘‘Villa-Lobos - Uma vida de paixão’’ será a música. Mas como nem só do básico vive o cinema do século XXI, a película promete surpreender pelo conjunto de efeitos especiais, todos made in Rio.
O público, porém, não deve esperar explosões sensacionais, acidentes mirabolantes ou perseguições de tirar o fôlego, à la Spielberg. O trabalho de computação gráfica feito pela produtora carioca Twister tem o difícil papel de criar, com a máxima perfeição, situações triviais e cotidianas, a ponto de não se perceber o que é real e o que é virtual. O computador foi usado para fazer muitas coisas imperceptíveis, como multiplicar platéias ou mudar a cor do céu, e algumas mágicas, como a dos balões que se soltam das mãos de crianças e formam a bandeira do Brasil.
Um bom exemplo do papel dos efeitos está na cena em que Villa-Lobos deixa o País. O barco que leva o compositor (vivido por Antônio Fagundes) foi filmado ao meio-dia em Angra dos Reis, mas a imagem final é noturna... e com os contornos da cidade do Rio de Janeiro ao fundo! A intrépida equipe da Twister, sob a coordenação de Sergio Schmid, entrou em campo, transformando o céu claro num mar de estrelas e substituindo a topografia de Angra pela silhueta do Pão de Açúcar. Impressionado com a qualidade do trabalho, Zelito Viana comemorou o fato de não precisar buscar nos EUA mão-de-obra para seus efeitos em 3D.
Acostumada a fazer trabalhos para televisão (um dos mais recentes é o conjunto de vinhetas da Net), a turma da Twister enfrentou um grande desafio ao aceitar produzir, pela primeira vez, efeitos de computação gráfica para cinema. Na raiz desse desafio, está um tipo de arquivo, o Cineon. Desenvolvida pela Kodak, esta extensão capta uma quantidade muito maior de informação do que os arquivos convencionais: ela tem 10 bits por canal, ao passo que os outros não passam de 8 bits.
Por causa disso, explica Sergio Schmid, diretor de Criação da Twister, o Cineon capta toda uma gama de detalhes que não aparece em reproduções feitas com arquivos convencionais. Com isso, naturalmente, a imagem ganha em qualidade. Além disso, o Cienon faz a passagem da película para o meio digital com o mínimo de perdas possível.
‘‘Apesar de todas as vantagens, o trabalho com o Cineon não é nada animador. Quando comentamos que iríamos usá-lo, muitos profissionais de cinema nos desencorajaram, aconselhando o bom e velho TIF,’’ lembra Schmid.
Luiz Felippe Santos, um dos responsáveis pelos efeitos 3D do filme de Zelito, comenta que a maioria dos softwares de mercado não consegue enxergar o Cineon. Por conta dessa particularidade, a produtora teve que comprar o Adobe After Effects 4.0. ‘‘Tivemos que pedir suporte à Adobe nos EUA, porque, no Brasil, nenhum funcionário da empresa tinha condições de nos ajudar’’, diz ele.
Outro desafio para a equipe foi trabalhar com o Cineon... mas sem usar as estações da Silicon Graphics, uma dobradinha comum em Hollywood. Para reproduzir com perfeição os 24 efeitos idealizados por Zelito Viana (equivalentes a um total de 11.300 quadros), a produtora adquiriu duas estações Terex 20.000, com processadores Pentium III de 500 MHz, 1Gb de memória RAM e HD de 80Gb. Além de um DLT, o equipamento que faz o backup das fitas, enviadas à efilm, em Hollywood, onde se faz, enfim, a passagem do meio digital para película. Além do software da Adobe, a Twister está usando 3D Studio Max, para terceira dimensão, e Effect *, da Discret Logic, para composição de imagens.
Marcelo Souza, outro integrante da equipe que assina os efeitos do filme, diz que os esforços de decifrar os códigos do Cineon valeram a pena. Ele destaca recursos como o Matte, que facilitou a inserção dos balões na sequência acima.
Daniel Garcia, responsável pela multiplicação de pessoas em algumas cenas, explica que o Matte cria uma máscara nessas cenas, estourando ao máximo todos os brilhos e contrastes, sem que seja necessária a utilização de cromaqui.
‘‘Graças ao Matte, conseguimos fazer os balões passarem por trás do Antônio Fagundes e entre as árvores, como se eles estivessem lá na hora da filmagem’’, diz Garcia. ‘‘Seria impossível conseguir esse efeito tridimensional se usássemos um arquivo convencional de 8 bits.Previsto para ser lançado em abril ‘‘Villa-Lobos’’ é uma sinfonia: de efeitos especiais
Agência O GloboAgência O GloboTÉCNICANesta sequência, os balões e a cor do céu foram inseridos na cena depois de filmada, graças a uma máscara (no destaque) gerada pelo arquivo Kodak Cineon

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