Cola de cobra é testada na Unesp
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de maio de 1997
Liana John Agência Estado 
O veneno das cobras atua sobre o fibrinogênio, a proteína do sangue responsável pelo estancamento de ferimentos e cortesO veneno das cobras brasileiras agora serve também para fabricar uma cola cirúrgica, que substitui a sutura no fechamento de cortes. Os testes em pacientes humanos estão sendo realizados no Hospital das Clínicas de Botucatu, no interior de São Paulo, desde maio de 1996, com sucesso. A cola tem, ainda, usos veterinários muito específicos, igualmente em fase de testes em Botucatu.
A idéia de fazer uma cola cirúrgica com veneno de cobra surgiu de uma pesquisa com acidentes ofídicos na Universidade Estadual Paulista (UNESP) (http://www.unesp.br), campus de Botucatu, interior de São Paulo. O pesquisador Benedito Barravieira observou que os pacientes picados de cobra consumiam muito fibrinogênio, a proteína do sangue responsável pelo estancamento de ferimentos e cortes. Nossa hipótese era a de que o veneno de cobra atuava na molécula do fibrinogênio. Ao misturar o veneno com sangue verificamos a formação de um precipitado, como uma geléia. Partimos, então, para estudar qual a fração do veneno de cobra que causava esta reação, explica Barravieira.
A separação das frações do veneno foi feita pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara, SP. Os venenos estudados são das serpentes do gênero Bothrops (família das jararacas) e Crotalus (cascavéis). A fração que atua sobre o fibrinogênio está presente em ambos, embora o princípio ativo e os efeitos dos dois venenos sejam muito diferentes entre si.
Com a fração do veneno identificada, uma série de testes demonstrou suas propriedades adesivas e hemostáticas (anti-hemorrágicas). Observou-se também a ausência de toxicidade na colagem de nervos, pele e tecidos do intestino. A fração do veneno foi, então, misturada ao plasma de boi e nasceu a cola de fibrina, como é conhecida entre os pesquisadores esta cola cirúrgica. O plasma de boi foi escolhido por ser o mais próximo do humano e possibilitar o controle de doenças humanas transmissíveis pelo sangue, como Aids, esclarece Benedito Barravieira. O risco de transmissão de doenças bovinas - sobretudo brucelose e tuberculose - precisa ser controlado na purificação do plasma utilizado.


