DivulgaçãoO material desenvolvido na Unicamp consegue isolar o calor interno das construções. O ganho pode chegar a 3ºCUm material, a princípio idealizado como solução simples e de baixo custo para a construção de forros e divisórias internas de residências e escritórios, está se transformando em um verdadeiro achado técnico e ecológico. Este material, ainda sem nome, pode ser produzido quase artesanalmente e foi desenvolvido pelo engenheiro Luiz Alfredo Cotini Grandi, professor das faculdades de Engenharia Agrícola e Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O material utiliza apenas cimento e pó-de-serra para a confecção de placas pré-moldadas e blocos empregados na construção civil. Cotini pesquisou durante quase dez anos para desenvolver e aperfeiçoar o seu invento. ‘‘Hoje’’, diz ele, ‘‘o material pode ser largamente usado em divisórias, paredes internas, forros e todo tipo de estrutura leve de uma casa, galpão ou escritório.’’
Desde o início do ano passado, quando apresentou o material em sua tese de doutorado na Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp, o professor passou a receber uma enxurrada de cartas de pessoas interessadas em utilizá-lo em suas construções ou produzí-lo para comercializar. ‘‘Para quem quiser usá-lo sem fins comerciais, as receitas (leia texto nesta página) estão disponíveis. Quem pretende comercializá-lo deve pedir autorização à Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp, que tem o privilégio da patente’’, explica.
Esta rápida e inesperada notoriedade de seu invento alegra e assusta Cotini. Ele se alegra ao descobrir que acertou na escolha dos materiais empregados. um grande número de consultas é proveniente de empresários ligados à indústria madeireira. ‘‘O pó-de-serra se transformou, para muitos, em um verdadeiro problema. Não há como dar fim a ele. Mesmo quando decidimos queimá-lo, o que é uma operação complicada, estamos provocando efeitos ecológicos negativos, por causa das altas quantidades de C02 lançados na atmosfera’’.
DivulgaçãoFabricadas a base de pó-de-serra e cimento, as placas tem bom aproveitamento e baixo custo
Na outra direção, o que Cotini teme com a rápida notoriedade é que as pessoas se entusiasmem e passem a empregar seu material em finalidades para as quais ainda não foi devidamente testado. Segundo ele, antes que um produto desta natureza chegue ao mercado, deve passar por uma bateria de testes muito rigorosos e demorada. Nestes testes são avaliadas a flexibilidade, resistência a impactos e fogo, durabilidade e capacidade de absorção de água, entre outras qualidades do material.
As placas e blocos leves foram exaustivamente testados e passaram por todas as provas. ‘‘Já a utilização do material em paredes externas ou blocos maiores, que tenham que suportar estruturas muito pesados, ainda estão sendo avaliadas’’, diz. Por isso, o que ele sugere é que os interessados, por enquanto, não o empreguem além daqueles limites pesquisados em laboratório. ‘‘E que já são muitos’’, diz.
Manuseio fácilO novo material, segundo Cotini, deve se transformar, a princípio, em uma opção a diversos produtos hoje empregados pela construção civil, entre eles as placas de gesso, as placas de cimento amianto e concretos leves, as de madeira aglomerada e várias espécies de tábuas de madeira maciça ou folheadas.
Cotini não gosta de estabelecer comparações entre o seu invento e outros materiais existentes no mercado. ‘‘Na verdade, ele deve ser encarado como mais uma opção a ser utilizada depois de se levar em conta todas as variáveis de uma obra’’, diz. Mas, em alguns casos, as vantagens são evidentes. As placas de cimento e pó-de-serra apresentam excelente resistência à comprensão, ao choque e à tração simples, têm boa capacidade de deformação, são isolantes acústicos e térmicos, resistentes ao fogo. Além disso são muito baratas e podem ser feitras por qualquer pessoa, sem necessidade de equipamentos especiais.
O forro do escritório de Cotini, na Unicamp, é inteiramente revestido por placas de cimento e pó-de-serra. Ele as instalou há dois anos, depois de testar diversas outras placas e acompanhar seu comportamento térmico. Com isso, comprovou que as suas placas conseguem isolar bem mais o calor externo do que as outras testadas. ‘‘Em alguns casos este ganho chega a até 3ºC’’, diz.
A utilização dos blocos na construção de paredes internas de residências e galpões também foi testada e aprovada. Segundo Cotini, há inúmeras maneiras de destinar o material a estas finalidades. ‘‘Podem ser construídos blocos de diferentes tamanhos, placas tipo sanduíche, com o material em diferentes densidades interna e externamente, e assim por diante’’, explica.
Em todos estes casos o material apresenta ainda a vantagem extra do manuseio fácil, já que é muito leve. Como os blocos podem ser unidos entre si com cola de madeira ao invés de cimento, também permitem um trabalho mais limpo. ‘‘Isso o torna ideal para erguer paredes internas e muretas em construções que passam por reformas’’, sugere.
Casa inteiraCotini sabe que as possibilidades de aproveitamento são inúmeras. Recentemente, um pequeno empresário do interior do Estado de São Paulo o procurou porque queria usar o material em substituição à madeira e ao plástico na fabricação de peças de jogos de dominó. ‘‘Ele já fez os primeiros testes e por enquanto tudo vai indo bem. O material é facilmente moldável e, por isso, pode ser empregado também na fabricação de peças decorativas’’, diz.
Para casos como este, ou qualquer outro que exija a observação de detalhes ainda não estudados, o professor sugere que o interessado entre em contato com ele. ‘‘Para nós isso é bom, pois teremos vários laboratórios trabalhando. E para o interessado também pois evitará cometer os erros que cometi e sugeri nestes quase dez anos de pesquisas’’, afirma.
Em julho deste ano Cotini viaja para a Itália, um dos raros países do mundo onde existe uma fábrica que já produz um material onde o cimento é misturado com fibras orgânicas. A sua idéia é obter o máximo de informações que o levem à realização de um sonho: a construção de uma casa pré-moldada inteiramente fabricada com placas de cimento e pó-de-serra. ‘‘O projeto já está bem desenvolvido e espero tê-lo completamente concluído no ano que vem’’, diz.
As fórmulasO material desenvolvido por Cotini pode ser fabricado a partir de inúmeras fórmulas, algumas com mais pó-de-serra, outras com menos, de acordo, com o fim a que se destinam. Três delas, no entanto, são consideradas mais adequadas para as utilizações especificadas acima.
De acordo com ele, a fórmula com mais cimento, deve ser utilizada em situações que exigem maior resistência, como muretas e paredes internas. A fórmula com menos cimento e mais pó-de-serra pode ser empregada em revestimentos de forro e divisórias de escritórios, entre outros. ‘‘Quem quiser ampliar sua utilização deve ter bom senso e cautela’’, diz.
As três receitas apresentadas por Cotini apresentam, respectivamente, as seguintes fórmulas: 1:0,25:0,68 (ou seja, para cada kg de cimento, 250g de pó-de-serra e 680 ml de água), 1:0,38:1 (1kg de cimento, 380g de pó-de-serra e 1 litro d’água) e 1:0,50: 1,50 (1kg de cimento, 500g de pó-de-serra, 1,5 litro d’água). A primeira fórmula resultará em um produto de peso aproximado de 800kgf/cm3, a segunda 1000kgf/cm3 e a terceira 800kgf/cm3.
‘‘Um detalhes importante, adverte o professor, ‘‘é que o cimento utilizado seja o Portland de alta resistência inicial, conhecido pela sigla CPV-ARI, e muito utilizado pela indústria de pré-moldados de concreto.
O endereço para contatos com o professor Luiz Alfredo Cotini Grandi é o seguinte: Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Faculdade de Engenharia Civil - Departamento de Construção Civil/Cidade Universitária - Distrito de Barão Geraldo/Campinas - SP/Caixa Postal 6021/CEP 13083-970/Fone: (019) 239-7003 - Fax: (019) 239-4823.

mockup