CIÊNCIA CONTA COM 'PROFETAS DA CHUVA'
Dario Mayorga e
Irles Mayorga
Ciência Hoje
Os profetas sertanejos, que dizem se vai chover ou fazer sol lendo sinais da natureza, podem prestar auxílio aos serviços de metereologia do Nordeste
Capazes de interpretar os sinais oferecidos pela natureza e traduzi-los em previsões meteorológicas, os profetas da chuva ganharam há muito a credibilidade dos povos do semi-árido nordestino. O trabalho desses personagens, típicos de uma realidade na qual o clima é a causa direta de diversos probelams socioeconômicos, pode servir de complemento às previsões climáticas de instituições, como a Fundação Cearense de Meteorologia. Essa seria uma forma de aproximar as previsões e estratégias do governo e dos órgãos competentes ao povo nordestino e criar condições para uma mudança radical na percepção e nas ações do produtor rural da região.
Antônio Lima, Joquim Ferreira Santiago, Ribamar, Renato, Chico Leite, Juvenal Pereira Lima, Manoel Felipe Gomes, Paulo Costa de Oliveira, Antão Mendes, Chico Leiteiro, Paruara, Antônio Tavares da Silva e Chico Mariano. Todos esses homens têm uma profissão improvável para os padrões urbanos: são profetas sertanejos. No Ceará, eles observam, em detalhes, fenômenos do cotidiano da natureza, e suas alterações, e os relacionam com o comportamento do clima e com a possibilidade ou não de chover na época invernosa.
Com a experiência e a prática cotidiana, alguns desses observadores viram especialistas e passam a ser chamados profetas. Seus conhecimetnos são transmitidos de geração em geração, de pai para filho, neto e bisneto. A partir das previsões desses profetas da chuva, os agricultores das regiões secas concluem se haverá ou não inverno (chuva) e decidem como agirão em relação a suas plantações.
Os profetas surgem, muito provavelmente, da imperiosa necessidade de sobrevivência do sertanejo, diante das estiagens cíclicas prolongadas. Esse fenômeno climático tem aspecto negativo sobre todas as culturas, especialmente as de subsistência, como feijão, milho e mandioca. As consequências são mais fortes sobre as família pobres, que têm nesses produtos sua principal fonte alimentícia.
Para tentar enfrentar o problema da estiagem, o sertanejo passa a observar minuciosamente os sinais oferecidos pela natureza. Dessa forma, descobre que astros, animais e plantas podem conter valiosas informações metereológicas, se observados cuidadosamente ao longo do tempo. Assim, a ocorrência ou ausência de alguns acontecimentos passam a ser vistas como indicadores de um inverno bom (chuvoso) ou mau (seco).
Os sinais de uma boa estação chuvosa podem ser, por exemplo: a estrela de Magalhães (planeta Vênus) passando para o poente, no período de inverno; casas de pássaro joão-de-barro com a entrada voltada para o poente; carnaubeiras carregadas em outubro; formigas mudando de vivenda, à procura de abrigo, trocando locais baixos por altos; temperaturas muito elevadas; primeira lua cheia de outubro de cor amarela (por outro lado, se tiver barra na lua, é sinal de mau inverno); aranhas fazendo suas teias rapidamente, em portas, janelas e outros lugares da casa; tatu aparecendo de dezembro a junho, e cupim gordo, cheio de fios e criando asa.
Hoje, cientistas reconhecem que a ciência começa e termina nos limites do senso comum. No entanto, toda ciência trabalha com metáforas. Os físicos e os biólogos, por exemplo, muitas vezes iniciam com metáforas as explicações sobre suas teorias. A ciência precisa admitir que todo conhecimento é parcial e muito limitado, e que é, na verdade, uma sucessão de reformulações. Assim, o conflito é necessário. E, como afirma o sociólogo cearense Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, das universidades federal e estadual do Ceará, a ciência está cheia de dogmas que precisam ser derrubados. Se transportarmos essas questões para o sertão cearense, perceberemos que é preciso chegar a um consenso entre profetas e cientistas. Assim, todos agricultores, cientistas e Estado ganham.
As previsões elaboradas pelos profetas da chuva, com base em sua experiência, podem ser um complemento importante para as projeções climáticas feitas, com base probabilística, por instituições como a Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme). Na tentativa de poupar o agricultor da perda da semente cultivada em época inapropriada, estratégias de plantio têm sido estabelecidas. Assim, surgem programas como arrancada da produção e hora de plantar, através dos quais as autoridades competentes, baseadas nas informações e previsões da Funceme, autorizam a venda de sementes selecionadas de feijão, milho, e algodão para produtores previamente cadastrados pela Empresa de Extensão Agropecuária do Ceará (Ematerce).
Apesar de todos esses esforços do governo, da Funceme, dos Sindicatos dos Traabalhadores Rurais e da Ematerce, a época de plantio não tem sido organizada adequadamente. Em algumas regiões, os agricultores das famílias, plantam, com as primeiras chuvas, a semente que guardaram da colheita anterior (quando a tiveram). Quando recebem as sementes selecionadas pelos órgãos competentes, as utilizam como alimento, por já terem plantado anteriormente. Isso acontece quando o primeiro plantio não foi perdido em consequência de veranicos (períodos secos dentro de uma quadra chuvosa).
O papel da Funceme é de fundamental importância para o sucesso da agricultura no semi-árido. No entando, o sistema de informação deve ser inteligível para o produtor rural. Deve ser realista, no sentido de alertar também sobre as possibilidades e limitações do tipo de maquinaria que a instituição tem disponível, principalmente quando comparado aos instrumentos usados em países mais avançados tecnologicamente. A previsão de variações climáticas é uma ciência incipiente até nos países mais desenvolvidos, mas o que pode ser feito deve ser colocado em prática e explicado com clareza suficiente para que seja assimilado pelos produtores rurais.
Portanto, os profetas precisam ser convertidos em aliados da ciência convencional. Esse é o melhor caminho para conciliar a cultura popular, profundamente arraigada no povo, com a ciência. A consequência seria o resgate da credibilidade da Funceme por parte dos agricultures, com base em um adequado processo de comunicação. Afinal, os profetas baseiam suas previsões em sua experiência empírica sobre o comportamento da natureza, o que, para o olho atento do pesquisador empírico, tem grande influência nas decisões tomadas pelos sertanejos.
Tanto as previsões dos profetas da chuva como as dos institutos de meteorologia são incipientes e incompletas. As previsões dos institutos são apenas probabilísticas, existe uma margem de erro. No Nordeste, as chuvas são mal distribuídas tanto do ponto de vista espacial como temporal. Hoje não é possível prognosticar, com absoluta certeza, a quantidade de chuva que ocorrerá em uma área específica de um município. Assim, por que não aproveitar o positivo das informações de ambas as partes? Quem lucrará, em última instância, será o sofrido produtor do sertão.
Dario Mayorga e Irles Mayorga são membros do Departamento de Economia Agrícola da Universidade Federal do Ceará





