Ligia Formenti
Da Agência Estado
Uma nova geração de crianças está surgindo no Brasil. São os filhos da Internet. É esse o nome que se poderia dar às crianças cujos pais se conheceram em sites de conversação da rede de computadores, partiram para contatos pessoais, se casaram e já tiveram filhos. Tudo numa rapidez notável, típica dos tempos do online. Alguns desses casais, aliás, já se desfizeram e os pais partiram para outra.
O menino Matheus, por exemplo, que complentou um ano em novembro, nasceu de uma dessas relações. Seus pais, Tatiana de Oliveira Sita e Marcelo Renaud, conheceram-se em uma sala de bate-papo sobre sexo, em janeiro de 1996. Em dezembro do mesmo ano já estavam casados. ‘‘Na época, as pessoas estranharam a maneira como nós nos conhecemos e a velocidade do casamento’’, recorda Tatiana, que tem 24 anos e é professora de inglês.
Ela conta que a distância foi uma das razões da rápida união. Marcelo, que é gerente de vendas, na época morava em Santos. ‘‘Queríamos ficar juntos logo e não estávamos gostando de ter de viajar todos os dias’’, diz ela, que mora na capital.
Há 11 meses o casamento se desfez. Tatiana não atribui o rompimento à forma como os dois se conheceram. Na opinião dela, a separação deve-se a problemas de convivência que são comuns a todos os outros casais. ‘‘Achei ótima a maneira como nos encontramos e pretendo contar tudo isso ao meu filho.’’
Fabiana Carlini, de 21 anos, e Paulo César de Moraes Carlini, de 33, também deverão contar ao filho, que nasceu em novembro, a forma como se conheceram. O casal começou a trocar mensagens em setembro de 1997. Casaram-se dez meses depois e agora esperam um filho.
O casal, que mora em Brasília, convive com um grupo de 20 amigos que se conheceram em sites de conversação. ‘‘Muitas pessoas acreditam que só se fala bobagem ou mentiras durante as mensagens, mas é puro preconceito’’, diz Fabiana.
A psicóloga Mariângela Blois, de 34 anos, concorda. ‘‘Fiquei viúva há três anos, com dois filhos pequenos, e passei a teclar para distrair-me’’, conta. Numa das noites em que visitava um chat - como são chamadas as salas de conversação virtual - Mariângela conheceu Júlian. Um mês e meio depois, em maio de 1997, conheceram-se pessoalmente. Em agosto começaram a namorar e, em outubro do mesmo ano, estavam morando juntos.
O casal também espera um filho. Mariângela conta que, no período em que apenas trocava mensagens com Júlian, passava horas na frente do computador.
A maior parte dos casais segue o mesmo trajeto. Antes dos encontros pessoais, passam horas teclando mensagens e, numa etapa intermediária, falando por telefone. Nessa fase, geralmente as pessoas abandonam o codinome usado na Internet, onde se diz nickname.
Muitas vezes todo esse percurso é interrompido bruscamente, com o sumiço de um dos companheiros. ‘‘Isso ocorre com pessoas que usam as salas para brincar, mentindo sobre idade, sexo, profissão ou estado civil’’, diz Júlian.
Júlian e Mariângela afirmam que tiveram sorte. ‘‘Ela é exatamente aquilo que imaginei’’, confessa ele. Mariângela conta que, ao saber que Júlian era solteiro, ficou temerosa. ‘‘Ele tinha na época 34 anos e, por isso, imaginava-o um solitário convicto.’’
Depois das uniões, o papel da Internet costuma mudar. Ela deixa de ser a madrinha dos casamentos para se transformar em rival. Tatiana e Marcelo, por exemplo, depois que se casaram, abandonaram totalmente as salas de conversação. ‘‘Dava ciúmes, mesmo’’, diz Tatiana. Ela só voltou a frequentar os chats depois de separada. E desde então já teve dois namoros rápidos. Mariângela e Júlian também deixaram as salas. ‘‘Já estamos casados, vivemos em uma família ótima, não temos tempo para gastar com conversas virtuais.’’

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