Cassinos on-line seduzem internautas
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de outubro de 2000
Agência OGlobo Do Rio 
Há muitos anos, quando Las Vegas ainda era uma cidade decadente e a Comdex, uma feira interessante, parei diante de uma engenhoca chamada Roda da Fortuna, e perguntei ao velho crupiê (cubano) quais eram as regras daquilo. Não podia ser mais simples, disse ele. Você põe o seu dinheiro aqui em cima da mesa e eu pego. Muito engraçado, respondi. Fala sério! Eu estou falando sério! Muito mais sério do que você imagina... E estava, é claro.
De lá para cá, inventaram-se muitas novas maneiras de se ir do ponto A (o dinheiro da gente) ao ponto B (o caixa do cassino). As mais recentes e polêmicas estão na Internet, onde a jogatina come linda, leve e solta. Até meados do ano passado, ninguém prestava muita atenção a isso, mesmo porque a tecnologia deixava a desejar tanto a do software dos cassinos, quanto a do hardware das conexões dos usuários. Mas as coisas estão mudando.
Com a propagação da banda larga e o desenvolvimento das interfaces dos cassinos, o jogo virtual vem crescendo de forma espantosa. Só no ano passado, os internautas deixaram mais de US$ 1,67 bilhão nas telinhas verdes, ou seja, o equivalente a um aumento de 80% em relação a 1998.
O negócio é tão bom que, há três anos, havia menos de 50 cassinos on-line; hoje eles são cerca de mil dos quais apenas 250 submetidos a algum tipo de controle, seja das associações de cassinos virtuais, seja de entidades governamentais de ilhas como Antigua ou Barbados. Ou, ainda modestamente, de uma comissão australiana que vem, aos poucos, certificando as operadoras locais. Os outros 750 são arapucas perfeitas, especializadas em depenar os trouxas e mudar de IP rapidinho. Em suma: uma dor-de-cabeça de todo tamanho, que ninguém sabe como controlar.
Nos EUA, onde vive a vasta maioria dos apostadores, jogar a dinheiro pela Internet ou por telefone é proibido por lei em todos os estados. Ou, melhor dizendo: era até 11 de outubro, quando Nevada concedeu licença de operação à Virtgame.com, empresa proprietária de uma tecnologia à prova de apostas interestaduais.
Os efeitos práticos da proibição são discutíveis e, até aqui, servem, basicamente, para fortalecer a noção geral de que os irmãozinhos do Norte são, no mínimo, um povo estranho. Acontece que um número cada vez maior de perdedores está processando as administradoras de cartão de crédito por lhes dar fundos para fraudar a lei, e ninguém acha isso um absurdo. Pelo contrário: há duas semanas, a Justiça californiana deu ganho de causa a uma jogadora que perdeu US$ 70 mil e, agora, não vai precisar pagar um centavo da dívida.
Para perdedores de outras nacionalidades, que têm que arcar com as consequências dos seus atos como acontece aos adultos, em geral a coisa pode ficar tão complicada no mundo virtual quanto no mundo real. A diferença é que, para os jogadores compulsivos, o perigo, agora, está mais perto do que nunca.
No começo do mês, cansada de ler sobre cassinos virtuais sem um conhecimento real de causa, resolvi conferir por mim mesma. Procurei os eternos grupos de discussão uma das inquestionáveis maravilhas da Internet e entrei em cassinos de todos os tipos, dos que oferecem jogos via browser ou applets Java aos que exigem download dos seus brinquedinhos.
Quase todos permitem que se jogue de graça, o que é ótimo, já que assim pude testar vários deles apesar de só estar disposta a apostar em cassinos que trabalham com alguma forma de dinheiro eletrônico, como o ezecash, por exemplo. Não sou uma pessoa propriamente paranóica em relação aos perigos da rede, mas dar número e endereço do meu cartão de crédito a um cassino virtual me pareceu um pouco muito.


