Casamentos proliferam na Internet
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de março de 1999
Agência O Globo 
Bastaram dez dias de namoro para a professora Ana Fátima, de 31 anos, descobrir que o analista de suporte José Ribamar, de 38, era o homem da sua vida. A rapidez com que as coisas aconteceram não foi a única peculiaridade do relacionamento. O fato de eles terem se conhecido pela Internet, em junho do ano passado, dá ainda um pouco mais de molho à história desse casal apaixonado, que na semana passada teve seu grande dia. Ana Fátima e José Ribamar casaram-se, em cerimônia religiosa, no Rio de Janeiro.
Esse caso de amor que começou virtual e acabou em casório é um pouco raro, mas com certeza não é único. Afora os que se apaixonam em salas de chats, é possível encontrar casais que se conheceram na rede através de sites que funcionam como agências matrimoniais virtuais. São muitas as opções para internautas irem atrás da cara-metade.
Quem já pensou em recorrer a alguma das agências matrimoniais da Internet - e fez uma boa pesquisa - encontrou um pouquinho de tudo. Viu que algumas delas oferecem serviço gratuito e tentam tirar o lucro da publicidade; outras cobram taxas, que podem ser mensais, semestrais ou anuais. Os preços variam. Uma taxa semestral pode sair por R$ 750, enquanto há até anuidades mais baratas, na faixa dos R$ 100.
Agência O GloboCom tanta oferta, a concorrência cresceu e já existem especialidades: sites que promovem encontros, namoros e casamentos inter-raciais; sites com serviços só para homossexuais; e até agências matrimoniais específicas para moças brasileiras casadoiras que querem conhecer estrangeiros para relacionamento sério. E não é difícil encontrar quem alcance esta proeza.
A técnica em processamento de dados Daniela Magueta da Cunha, de 23 anos, é uma das que conseguiram namorado estrangeiro. Prepara-se para o casamento com o australiano Michael, de 24 anos, em abril. O noivo viu uma foto de Daniela na Brazilian Romance, em www.brazilianromance.com. Trocaram e-mails por três meses e conheceram-se quando ele veio ao Brasil.
Não sou de sair muito; achei que seria mais fácil encontrar um namorado na Internet.
O site, no ar há pouco mais de um ano, é a versão virtual da agência matrimonial que existe há mais de dois anos em São Paulo, criada por Solange Santos, ex-empresária do ramo de roupas. Aos que perguntam por que a agência é especializada em aproximar brasileiras de estrangeiros, ela tenta explicar: Os estrangeiros levam os relacionamentos mais a sério.
Outra agência virtual que surgiu de um serviço já existente na vida real é a novíssima Twins Soul, especializada em encontros multirraciais, há pouco mais de três meses no ar em www.del.com.br/twinssoul.
Com 122 clientes cadastrados e uma média de 30 a 40 acessos por mês, o site promove encontros tanto entre negros, somente, quanto entre negros e pessoas de outras raças. A socióloga Maria Regina Vicente de Carvalho teve a idéia de criar, com uma sócia, uma agência multirracial especializada porque notou que seus amigos negros tinham dificuldade para encontrar parceiros em agências matrimoniais.
De acordo com Maria Regina, os usuários do seu site são, em geral, pessoas em busca de alguém para algo mais do que um caso passageiro. A idéia deles é se casar, afirma Maria Regina, que pretende agora lançar um site para homossexuais negros que se interessem por outros negros ou por homens de outra raça.
A professora de inglês Neia (ela prefere ser identificada apenas assim), 28 anos, de Campinas, ainda não se casou, mas o namoro com o psiquiatra francês William, 40 anos, vai de vento em popa. William viu a foto de Neia na rede (cerca de 20% dos clientes da Twins Soul são estrangeiros), quando já fazia um mês e meio que ela estava cadastrada, e pediu para entrar em contato. Trocaram e-mails por cerca de dois meses até que William convidou Neia para passar as festas de fim de ano em Paris. Como parece ser de praxe nos namoros virtuais que dão certo, tudo aconteceu muito rapidamente e eles já pensam em casamento.
Aconselho aos que procuram relacionamentos sérios a se inscreverem numa agência matrimonial, sugere a professora.
Para Solange Santos, da Brazilian Romance, há vantagens nas agências matrimoniais virtuais, principalmente para estrangeiros. O serviço ficaria muito mais caro e mais lento se eles tivessem que usar o correio convencional.
José Ricardo de Souza, consultor em informática e responsável pelo recém-lançado site Be Happy, em http://behappy.hypermart.net/, também vê vantagens nos sites: A vida está muito louca, ninguém tem tempo para nada.
Ana Fátima e José Ribamar, que se casaram na semana passada, também concordam que tudo fica mais fácil com a Internet. Ana Fátima, que já teve outros namorados na rede, diz que a paquera pela Internet dá menos trabalho:
A gente não precisa se produzir e não sofre decepções, como a de se interessar por alguém que, ao abrir a boca, só diz bobagem, compara. Na Internet, a gente sabe como é o papo logo. O noivo, José Ribamar, também só vê vantagens numa abordagem virtual: Não ter o mail respondido é uma rejeição bem menor do que levar um fora ao vivo.


