Brasil foi terra de vulcões
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de maio de 1999
Dagoberto Souto Maior Ciência Hoje 
Ao ver cenas de erupções vulcânicas na televisão e no cinema, os brasileiros talvez se sintam aliviados por saber que elas não vão acontecer no País. No entanto, os vulcões existiram em terras hoje brasileiras e eram tão assustadores quanto os que ainda estão em atividade em outros países. No Brasil, alguns deles surgiram e extinguiram-se perto de locais onde atualmente estão grandes cidades.
O geólogo e vulcanólogo Vítor Klein, do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, já havia encontrado vestígios de um vulcão extinto em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, em 1979. A grande surpresa das pesquisas foi não só a descoberta de materiais expelidos pelo vulcão, como quase sempre ocorre nos achados nacionais, mas também de uma edificação vulcânica relativamente inteira. As pedras locais têm características que indicam deformação por alta temperatura, e no meio da mata próxima é vista uma rocha imensa que parece ter servido como tampa, ou parte dela, para o vulcão. Ele deve ter explodido com uma força gigantesca, diz o pesquisador.
A partir de informações locais, Klein começou a seguir pistas que apontam para mais um vulcão extinto, percorrendo os arredores de Itaúna, no município de São Gonçalo, próximo a Niterói, para estudar os sinais deixados pela atividade vulcânica na região. O cone vulcânico tem 300 m (um terço da altura provável de quando era ativo) e compõe-se de fonólito, um tipo de rocha alcalina, rica em sódio e potássio, típica dessas erupções vulcânicas.
O trabalho de Klein adiciona novos dados a estudos anteriores de outros geólogos sobre a atividade vulcânica no continente sul-americano. Os processos vulcânicos ocorrem no continente desde tempos antiquíssimos, mas intensas deformações posteriores mascararam tais fenômenos. Nos períodos Triássico e Jurássico (leia o texto nesta página), o supercontinente que antecedeu os atuais começou a se fragmentar e, em seguida, no Cretáceo, as placas continentais que hoje formam a África e a América do Sul iniciaram seu afastamento, levando à formação do oceano Atlântico. A fragmentação e o afastamento estão possivelmente ligados ao fenômeno dos hot spots - pontos quentes -, teoria mais aceita para explicar grande parte do vulcanismo no Brasil.
Tais hot spots eram imensas bolhas de magma quente, originadas nas profundezas da Terra, que em seu processo ascendente arqueavam as placas continentais e o fundo dos oceanos, abrindo imensas rachaduras através das quais ocorriam derramamentos de lava, formando bacias cheias de magma.
As mais importantes bacias vulcânicas do Brasil são as do Paraná (no Centro-Sul), do Maranhão (no Nordeste) e do Amazonas. No período Cretáceo, entre 135 e 65 milhões de anos atrás, surgiram bacias menores em Campos (RJ), São Luís (MA), Santos (SP) e em alguns locais do Ceará e da Bahia. A bacia do Paraná, segundo Klein, é um dos maiores eventos de vulcanismo do mundo. Há traços de que o derramamento de lava teria se espalhado por mais de 1,2 milhão de km2.
Grandes quantidades de vestígios de vulcões foram identificadas nas ilhas oceânicas de Fernando de Noronha, Trindade e Martim Vaz, estudadas pelo geólogo Fernando Flávio Marques de Almeida. Embora o território onde hoje está situado o Brasil tenha sido rico em vulcões, a certificação de que um deles existiu em determinado local depende de muitas provas, afirma a geóloga Kátia Mansur, chefe do Departamento de Recursos Minerais do governo do Estado do Rio de Janeiro. É preciso encontrar material expelido, como tufos, pedras e pequenos fragmentos, explica. Segundo a geóloga, existiram vulcões também em áreas como o maciço de Itatiaia (RJ), os maciços do Tinguá e do Mendanha, no Morro de São João, entre Cabo Frio e Rio das Ostras (RJ), e as regiões de Poços de Caldas (MG) e Caldas Novas (GO).
Para o geólogo Mitsuru Arai, existem antigos sítios vulcânicos mais perto do que se pensa: dentro do Rio de Janeiro. O bairro de Botafogo é rico em diabásio, rocha ígnea também encontrada na encosta da ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, e no Pão de Açúcar. A presença dessa rocha indica que no passado a lava correu por ali, garante. Vítor Klein lembra ainda que, há dois anos, em visita à Bahia, descobriu vestígios de caminhos de lava na beira da praia de Pitinga, em Arraial da Ajuda, possivelmente de idade geológica recente, ainda não determinada. Os brasileiros, porém, não têm o que temer. Segundo os geólogos, a área da placa continental em que está o Brasil vive um período de relativo repouso.


