Sem a pretensão de oferecer respostas fechadas para situações polêmicas, a Bioética surge como uma nova ciência para lançar luz sobre dilemas morais que a ciência apresenta ao homem moderno neste fim de milênio.
Ainda incipiente, a bioética é tratada na maioria das vezes como um instrumento para ajudar a resolver situações pitorescas impostas pelo avanço tecnológico. Volnei Garrafa, dentista e professor da Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília (UbB), especialista no assunto, cita o caso de um casal de mulheres homossexuais que decide ter um filho através de inseminação artificial, na França. Ele afirma que além destas situações, existem as cotidianas, que também são bioéticas. ‘‘As situações cotidianas de saúde pública deveriam mexer conosco mais que estas situações pitorescas’’, ressalta.
Garrafa conta um caso ocorrido recentemente no País, onde um jovem médico que estava sozinho de plantão tinha três pacientes em fase terminal para socorrer. ‘‘A jornalista perguntou-lhe qual ele iria salvar’’, conta Garrafa. ‘‘O Estado não tem o direito de colocar um jovem profissional diante de um dilema ético desta natureza’’.
O paradoxo vivido pelo Brasil no que diz respeito a tecnologia e saúde pública é citado por Garrafa como uma questão bioética. Segundo ele, é insustentável que um país que é a nona economia mundial viva uma situação de pobreza como atual.
‘‘Somos um país avançado técnico-cientificamente. Como convivemos com tanta sofisticação tecnológica e com crianças e idosos morrendo de fome?’’, questiona. ‘‘Estas situações são profundamente bioéticas’’, complementa. Garrafa classifica as questões Bioética em duas faces: emergentes e persistentes,
Pluralismo O paradoxo está exposto, e uma forma de discutir as questões que o criam é através da bioética. Respostas concretas que apontem uma solução não são a pretensão desta nova ciência, que encontra justamente na sua subjetividade a grande dificuldade para consolidar-se como prática, segundo Garrafa.
‘‘A única coisa que se tem a dizer sobre a bioética é o respeito pelo pluralismo religioso, cultural, sexual’’, considera. ‘‘E para isto é preciso ser profundamente tolerante’’. Tolerância, respeito a divergências de opinões, crenças, preferências sexuais é um quadro de resgate dos valores morais que se desenha para o ano dois mil, defendido pela bioética.
‘‘Existe dentro da bioética regras de caráter moral que não devem ser sancionadas pela Justiça’’, afirma Garrafa. ‘‘Eu sempre digo aos jovens que tomem decisões moralmente, porque são legítimas’’. Já as decisões, segundo Garrafa, ‘‘que passam pelo viés da Justiça correspondem à legalidade’’. ‘‘E nem sempre o que é legal é justo’’, diz.
Entre o legal e o justo o homem vive no seu dia-a-dia situações que não pertencem ao rol das regras éticas. Garrafa cita o caso de um padre italiano em Fortaleza, que levou uma prostituta da praia da Jurema, de 13 anos, portadora de Aids, para fazer um aborto. ‘‘Ele afirmou que não pecou e nem trasngrediu a moral’’, conta Garrafa. ‘‘Moralmente esta é uma situação justificada de aborto’’, defende Garrafa.
Discutir questões como estas de frente, segundo o especialista na nova ciência, é a proposta da bioética. ‘‘A Igreja tem que deixar de ser cínica e parar de colocar questões como esta embaixo do tapete’’, diz.

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