Bioespuma pode substituir o isopor
Um composto biodegradável que poderá substituir o isopor na maioria de suas aplicações foi desenvolvido pela empresa Kehl, instalada em São carlos, no interior paulista. Obtido a partir do óleo de mamona, o novo produto foi patenteado com o nome de bioespuma.
O composto é produzido à base de biomassa, ou seja, é um recurso renovável. Sua síntese envolve três reações: duas esterificações, a primeira entre o óleo de mamona e o amido, e a segunda com óleo de soja. O produto obtido, um poliol, deve reagir ainda com um isocianato (NCO) para que se chegue a uma espuma poliuretana biodegradável - a bioespuma. Trata-se de um polímero caracterizado principalmente pela ligação química uretana (RNHCOOR) que lhe dá rigidez e flexibilidade.
É a ligação uretana a principal responsável pelas propriedades físicas da bioespuma, como textura, densidade, resistência à compressão e resiliência. Essas características assemelham-se muito às do isopor. Trata-se de um intermediário entre a espuma tradicional e o isopor, plenamente capaz de susbstituí-lo, explica Ricardo Vicino, químico responsável pela descoberta do composto.
Ciência Hoje/ReproduçãoA ilustração mostra o ciclo de produção e biodegradação da bioespumaO isopor, nome comercial do poliestireno expandido, é um polímero sintético muito usado industrialmente como isolante térmico e na produção de embalagens. Esse material tem duas desvantagens: é derivado do petróleo, um recursos não-renovável, e não é biodegradável, isto é, pode levar anos para se decompor no meio ambiente.
Já a bioespuma se decompõe em um tempo consideravelmente menor. Testes feitos na empresa mostraram que entre oito meses e um ano ela desaparece totalmente no meio ambiente. Durante o verão esse tempo pode ser reduzido a até três meses, garante Vicino. Assim o material pode ser classificado como biodegradável.
A rapidez da degradação da bioespuma se explica pela configuração da sua molécula, que permite que microorganismos a ataquem, desfazendo algumas ligações químicas. Vicino afirma que, em materiais como o plástico e o isopor, os micróbios não têm por onde começar a quebrar as moléculas, razão pela qual demoram a se degradar.
Ciência Hoje/ReproduçãoUma amostra de bioespuma atacada por fungos: a parte inferior parece derreter-seA decomposição do composto se dá em dois tempos. Em primeiro lugar ocorre a biodegradação, feita por fungos e bactérias. No entanto, essa ação não basta para destruir a ligação uretana, que é forte e estável. Essa ligação só se quebra na segunda etapa da degradação da bioespuma, resultado da ação da luz e do calor.
Por ser biodegradável, o novo composto pode ser utilizado na fabricação de recipientes para mudas de plantas. As mudas são plantadas diariamente nesses recipientes, que se decompõem na terra após alguns meses. A bioespuma não inibe o crescimento dos vegetais.
O composto pode ser usado também na produção de embalagens para produtos eletroeletrônicos e para alimentos em geral (bandejas descartáveis para frutas, por exemplo). Vicino conta que algumas empresas da agroindústria já estão fazendo testes com embalagens feitas com o novo material. Segundo ele, a Kehl está desenvolvendo um martelo feito com bioespuma para uso industrial. A ferramenta serviria para operações de precisão, como consertos ou montagens, em que as pancadas de um martelo comum poderiam danificar as peças
Apesar dessas aplicações, a bioespuma não deve substituir o poliestireno como isolante térmico. Seu índice de isolamento pode chegar a 90% daquele obtido pelo isopor. Para atingir um nível satisfatório, seria preciso alterar tanto a estrutura da molécula que ela perderia sua biodegradabilidade, argumenta Vicino.
Além de biodegradável, o composto não é tóxico, nem propaga chamas. Apresenta ainda vantagens em sua produção industrial: sua síntese não usa clorofluorcarbonetos, seus reagentes não precisam ser importados e a taxa de aproveitamento destes é alta - entre 97 e 99%, segundo Vicino. Ele estima que hoje a produção de um quilo do composto custe em torno de R$ 5. Mas o preço deve baixar ainda, acredita.
Compostos biodegradáveis que susbstituam o isopor também têm sido desenvolvidos na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, a maioria deles é derivada do petróleo. O produto brasileiro, ao contrário, é feito a partir da biomassa. A produção da bioespuma é hoje uma alternativa interessante, na contramão da indústria petroquímica, que um dia ficará cara demais, defende Vicino. Atualmente, a Kehl está tentando obter a patente do novo composto no exterior.Ciência Hoje/ReproduçãoRecipientes para plantas e embalagens para perfumes e eletroeletrônicos podem ser feitos de bioespumaBernardo Esteves
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