Sérgio Andrade/Agência GloboApariçãoBill Gates, o inimigo número 1 deu a volta por cima e virou o salvador da pátriaEra esperado que no seu keynote speech de quarta-feira passada, na Mac World, Steve Jobs revelasse algo de surpreendente. Havia vários temas quentes em pauta: a presidência da Apple, a formação da sua diretoria, o licenciamento do OS, um possível Network Computer. Mas ninguém esperava o anúncio de um acordo com a Microsoft, e muito menos a aparição de Bill Gates (tido como Inimigo Público Número 1 no mundo Mac) no telão. Reação instantânea da platéia: vaias, muitas vaias.
O acordo foi fechado por Jobs, que andou se encontrando secretamente com Gates. Um sinal disto, que passou despercebido, é o Internet Explorer no CD do Mac OS 8, no meio da janela, num folder com ícone especial... Mas, afinal, o que há por trás deste acordo?
A Microsoft aplica uma pequena soma, equivalente a um leve arredondamento em suas contas, e se livra do pessoal do Departamento de Justiça, sempre de prontidão para acusá-la de monopólio e aplicar-lhe a dura Lei Antitruste americana; de quebra, Gates fatura a aura de bom moço, ajudando a salvar sua concorrente. Com isso, protege seu investimento na plataforma - há alguns meses, a Microsoft anunciou que seu investimento no desenvolvimento de software para Macintosh a deixava atrás apenas da Apple - e garante a continuidade de uma fonte de renda: afinal, os programas para Mac são os que dão mais lucro.
Do lado da Apple, com a garantia de que o Office será atualizado, há também garantia de vendas. Até agora, a Microsoft vinha atrasando o lançamento do produto; o último Word para Mac é o 6.0. Do lado da imprensa, o acordo consegue calar a onda do ‘‘vai fechar’’.
Quem perde? A Netscape, por exemplo, que certamente vai sofrer por não ter desenvolvido um servidor para Mac já que, com a aliança, o Internet Explorer ganhou o papel de browser default do Mac OS. A Sun também: como a Microsoft e a Apple juntas têm em suas mãos praticamente todos os computadores pessoais do mundo, o que criarem será ‘‘o’’ padrão, independentemente da vontade da Sun, que terá que se adaptar.
Além da surpresa do acordo, o discurso de Jobs continha o anúncio de um ‘‘Network Computer Plus’’ (?) e de mudanças na diretoria. São elas: entram Larry Ellison, da Oracle (é bom lembrar que, no mercado de software, ela só é menor do que a Microsoft), Jerry York, ex-diretor financeiro da IBM e da Chrysler durante suas viradas, e sai Mike Markulla, antiga eminência parda, muito popular, mas a quem também se atribuem vários erros estratégicos da Apple.
Mas... talvez a parte mais importante do discurso seja o que Jobs não disse. Algumas entrelinhas: o Mac OS tem hoje 12,6% do mercado, em alta dos seus históricos 11% graças aos clones, mas que também baixam sua cota no hardware para menos de 6%. A Apple ainda não licenciou seu OS para uso pelos fabricantes de clones. Tem mais: o número 8 (deveria ser 7.7) foi escolhido para forçar a renegociação desses termos (os contratos cobriam apenas as versões 7.x).
Os boatos são de que a Apple, que perde muito com as vendas de clones (ela é, afinal, um híbrido de fabricante de hardware e de software) vai pura e simplesmente impedir a fabricação de clones (um gesto absurdo) ou aumentar muito o preço da licença, especialmente para máquinas high-end, que é o setor onde está o lucro. O preço variaria conforme o mercado. Fabricar Macs low-end na Índia custaria pouco, fabricar high-end nos Estados Unidos, caríssimo! Incluída neste pacote de indefinições está a plataforma CHRP Common Hardware Reference Platform), definição conjunta Apple/IBM/Motorola de uma máquina capaz de rodar múltiplos OSs. A Apple também não licenciou o MacOS para a CHRP, apesar da existência de fabricantes prontos para lançar máquinas. Acontece que as máquinas CHRP podem ser mais rápidas do que os Macs e clones.
Com isso, volta-se ao problema anterior. Outro não-dito que deve ser observado com atenção é o Rhapsody e o mercado de servidores. O Rhapsody, futuro super OS da Apple, não está incluído no pacote de licenças. Seu rival direto é o NT, e o Rhapsody cobrirá mais plataformas do que ele. Os rumores dizem que Jobs prepara um ataque ao mercado de servidores de rede, com máquinas com múltiplos processadores Intel. O Rhapsody seria distribuído como um OS voltado apenas a este mercado, e o Mac OS ‘‘tradicional’’ continuaria a ser desenvolvido normalmente, sem descontinuidade. Negócios, negócios...

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