O chá hoasca, também conhecido como ayahuasca e Santo Daime, liberado no Brasil para uso em rituais religiosos, é inofensivo à saúde, segundo resultados preliminares de uma pesquisa realizada por nove centros universitários do Brasil, Estados Unidos e Finlândia. A pesquisa foi publicada pelas revistas científicas norte-americanas ‘‘Psychopharmacology’’ e ‘‘The Journal of Nervous and Mental Disease’’.
Assinados pelos pesquisadores Jace Callaway e Charles Grobb, os artigos foram comemorados pelos adeptos do Santo Daime como um fator de credibilidade inédito para o chá, já que a publicação é etapa decisiva para a aceitação de resultados de pesquisas pelo meio científico. O trabalho reuniu autoridades mundiais em toxicologia, etnobotânica, psiquiatria e psicofarmacologia - entre os quais, Rick Strassmman, o único cientista do mundo com autorização expressa para pesquisar os efeitos da DMT em seres humanos, concedida pelo NIDA, o órgão do governo norte-americano formulador da política de combate às drogas.
Os cientistas afirmam que o chá, do ponto de vista toxicológico, é quase tão inócuo quanto a água e bem próximo ao suco de maracujá. As conclusões da pesquisa invertem conceito anterior da Escola Paulista de Medicina, que, em publicação dos anos 80, classificara o chá como entorpecente e nocivo à saúde, o que o levou a ser listado pelo Ministério da Saúde como substância proscrita, de onde foi retirado por dois pareceres favoráveis do Conselho Federal de Entorpecentes - um de 1986 e outro de 1992.
Segundo a pesquisa, o chá, em contexto religioso, sem a adição de outra substância, nos padrões adotados pela União do Vegetal (UDV), tem sido de grande valia na recuperação e reintegração de alcóolatras e drogados. No entanto, mesmo oficialmente liberado, o chá é tolerado com reservas pelas autoridades, visto por muitas como droga nociva, cuja proibição já foi diversas vezes proposta ao Confen.
A pesquisa contesta as críticas a ayahuasca. Diz, por exemplo, que o chá ‘‘não causa qualquer padrão de dependência, abuso, overdose ou abstinência’’. Segundo um dos artigos, ‘‘não foi observado o surgimento de outros distúrbios mentais posteriores ao seu uso’’. E ainda: ‘‘São abundantes, entre os membros da UDV, histórias de transformação moral, frequentemente envolvendo curas de alcoolismo, abuso de drogas, violências domésticas, práticas de negócios fraudulentos etc., o que sem dúvida contribui para uma semelhança notável com o renascer dos cultos cristãos’’.
A pesquisa foi financiada pela fundação norte-americana Botanical Dimension. Do Brasil, participaram, além da Escola Paulista de Medicina (Departamento de Psiquiatria), as Universidades do Amazonas e de Campinas e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Dos Estados Unidos, a Universidade da Califórnia, a Universidade do Novo México e a Universidade de Miami. Da Finlândia, a Universidade de Kuopio.
As conclusões comparativas são surpreendentes. A primeira delas, confirmando a inocuidade do chá do ponto de vista toxicológico, não constatou ‘‘nenhuma diferença significante no sistema neurosensório, circulatório, renal, respiratório, digestivo, endócrino entre os grupos experimentadores e de controle’’.
Nos testes psiquiátricos, foi constatado que os usuários, comparativamente aos não usuários (grupo de controle), mostraram-se mais ‘‘reflexivos, resistentes, leais, estóicos, calmos, frugais, ordeiros e persistentes’’. Os usuários, segundo os especialistas, mostraram-se, ainda, mais ‘‘confiantes, otimistas, despreocupados, desinibidos, dipostos e enérgicos’’. Exibiram também ‘‘alegria, hipertimia, determinação e confiança elevada em si mesmos’’.
Com relação à memória, os testes neuropsicológicos registram que ‘‘os examinandos apresentaram desempenho significativamente melhor que os do grupo de controle quanto à capacidade de lembrar as palavras na quinta tentativa’’. Foram melhores também em ‘‘número de palavras lembradas, recordação tardia, recordação de palavras após interferência’’.
Pelo Brasil, participaram Cláudio Torres de Miranda, Cristiane Tacla e Eliseu Labigalini Junior, do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina; Osvaldo Luís Saíde, do Departamento de Psiquiatria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; José Cabral, do INPA; Alcidarta Galheda, da Universidade do Amazonas; Alba Brito e João Ernesto Carvalho, da Unicamp; e Guilherme Oberleander, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria Biológica.
Pela Universidade de Kuopio, Jace Callaway (Departamento de Farmacologia e Toxicologia) e David Nichols (Departamento de Química Médica e Farmacologia).
As conclusões, embora preliminares, confirmam o teor de duas resoluções do Confen, que garantem o uso legal do chá no Brasil, em contexto religioso. O médico Edison Saraiva, presidente da União do Vegetal, alerta, no entanto, para a necessidade de limitar o uso da substância aos cultos religiosos: ‘‘É preciso não esquecer que o chá é substância psicoativa, que produz alteração da percepção e deve ser usado com supervisão adequada, em contexto que favoreça a concentração mental’’, advertiu à Agência Estado.

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