Carlos Ivan/Agência GloboDe um lado, ficam os personagens da nobreza e do clero; do outro, gente do povo. Todos só se falam por e-mailFelippe, de 14 anos, quis ser o bispo. Renata, de 12, assumiu o papel da personagem TherSse, costureira casada com o dono de uma taberna nos arredores de Paris. É nessa bodega que um grupo de rebeldes do povo reúne-se para engendrar uma revolução, no século 18, na França.
Felippe e Renata são alunos da sétima série do Centro Educacional da Lagoa (CEL), no Rio de Janeiro, e estão aprendendo história como quem joga RPG. E com ajuda da Internet.
Para quem está chegando agora: RPG, ou Role Playing Game, é um jogo de ficção em que cada um assume um personagem e segue a proposta feita por um narrador, também chamado de mestre. A ação de um RPG pode ocorrer em vários mundos e em qualquer época. No caso da turma de Felippe e Renata, o tempo da aventura é o ano de 1860, quase três décadas antes de acontecer a Revolução Francesa.
O movimento revolucionário foi escolhido para tema do RPG porque os alunos da sétima série vão passar os quatro primeiros meses do ano letivo estudando o Iluminismo nas aulas de história. As sete turmas de sétima série do CEL que participam do jogo usam a Internet como mais uma fonte de pesquisa, além da consulta aos livros escolares e aos próprios professores da escola.
Com o que aprendem pesquisando na Web e perguntando, enriquecem os personagens que eles mesmos escolheram no início do ano e criam novas situações.
Tudo começou quando Laura Coutinho, diretora do CEL, participou de uma oficina de RPG. Teve a idéia de levar o jogo para a sala de aula e convidou o professor do seu curso para ser o mestre das turmas. Coube a ele traçar um perfil básico dos personagens: gente do povo, membros do clero, da burguesia e da nobreza.
Foi ele também quem enviou as características de cada papel por e-mail para os estudantes. Ninguém conhece o mestre, que se apresentou no início do jogo, por e-mail, como um oficial do exército belga, Henri Defense. Conforme contou para os estudantes, viveu no início do século, lutou na Primeira Guerra e hoje viaja pelo tempo e acessa a rede.
Cada adolescente escolheu um papel e, uma vez por semana, quando a aula de história é no laboratório de informática, recebe do mestre uma mensagem com perguntas sobre seus personagens e sobre a ação que vai desenvolver. Eles terão que responder as perguntas durante a aula.
Para os professores, tudo não passa de um pretexto para os estudantes aprenderem uma disciplina com mais prazer. ‘‘O importante é que os alunos vivenciem o ambiente da época, procurando saber como as pessoas viviam’’, ensina Gleyse Kischinevsky, uma das professoras de informática educacional do CEL. ‘‘Para resolver uma situação, eles precisam criar soluções reais; não podem, por exemplo, dizer que o bispo pegou um avião para falar com o Papa’’, completa ela.
Há sempre uma professora de informática educacional nas aulas de história, para dar suporte e tirar dúvidas sobre como jogar ou usar o e-mail. Mas como a aula é de história, o professor da disciplina também está sempre lá, aproveitando a curiosidade dos alunos para ensinar o conteúdo da matéria.
‘‘É como se os alunos estivessem montando uma peça de teatro; quando têm dúvidas, recorrem ao professor’’, explica Luiz Fernando Pinheiro, professor de história do CEL.
Laura Coutinho ressalta que o professor de história continua tendo um papel fundamental, independentemente da presença do computador na sala: ‘‘É ele quem domina o processo; a informática é apenas uma estratégia’’, diz ela. ‘‘Por outro lado, oferecer acesso à rede aos alunos, por si só, nada adianta; é preciso ensinar o que fazer com esse novo método de pesquisa’’.
Também para Laura, as aulas de história com RPG e Internet são um bom exemplo de ‘‘edutainment’’, uma palavra em inglês que mistura educação com entretenimento e que está sendo cada vez mais usada no ensino. Trata-se de uma estratégia, bem resumida pelo aluno Felippe:
‘‘Agora ficou mais fácil e divertido estudar’’.

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