ASTERÓIDES, um mundo aos pedaços
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de outubro de 2000
Liana John / AE Agência Estado 
Astrônomos da USP explicam as órbitas dos asteróides, fragmentos de astros que atraem leigos e pesquisadores pela possibilidade de colisão com a Terra
Asteróides são corpos celestes sem atmosfera, mas envoltos em muitos mistérios para o homem. Sua observação é difícil, prejudicada pela falta de luz própria, pela distância (a maioria dos asteróides situa-se entre Marte e Júpiter) e por seu tamanho reduzido (nenhum asteróide conhecido tem mais de mil quilômetros de diâmetro, o tamanho de Ceres, cuja massa equivale a apenas 1,18% à da Lua terrestre).
Apesar das dificuldades, o estudo dos asteróides atrai muitos pesquisadores e a atenção do público leigo, dado o risco de tais corpos celestes colidirem com planetas de órbitas internas à de Júpiter, ou seja, Marte, Terra, Vênus e Mercúrio.
Hoje existem 108 asteróides na relação dos mais próximos à órbita terrestre, sendo que os asteróides Hathor e 1997-XF11 passarão mais perto. O Hathor passará a 880 mil km do nosso planeta em 21 de outubro de 2086. E o 1997-XF11 passará a 960 mil km, no ano 2028. A distância da Lua à Terra, apenas para comparação é de 380 mil km.
Estudar a composição e comportamento dos asteróides ajuda a determinar o risco real de colisão e a entender sua origem. E foi estudando alguns grupos de asteróides que 10 pesquisadores brasileiros desenvolveram uma série de instrumentos matemáticos inéditos para diagnóstico de caos, usados na determinação das órbitas dos asteróides. Com estes recursos, eles analisaram asteróides da falha de Hécuba e refutaram uma antiga tese, de que eles estariam lá desde os primórdios da formação do sistema solar.
A falha de Hécuba é uma região onde só existem asteróides fragmentados de, no máximo, 25 km de diâmetro, enquanto que o grupo Hilda, de dinâmica semelhante, é formado por um grande número de asteróides, de até 200 km, explica Sylvio Ferraz Mello, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo, IAG- USP (http://www.iag.usp.br), coordenador da equipe.
Até recentemente se acreditava que a depleção da falha de Hécuba devia-se aos processos dissipativos existentes nos primórdios da formação do sistema solar. Nós provamos que não. Mesmo que a falha de Hécuba estivesse cheia de asteróides no passado, a difusão caótica de suas órbitas os leva a quase-colisões com os planetas internos em tempos de, no máximo, 1 bilhão de anos. Como o sistema solar tem 5 bilhões de anos de idade, já houve tempo suficiente para retirar da falha todos os asteróides que pudessem aí se encontrar após a formação do sistema solar. Os asteróides fragmentados de Hécuba, portanto, seriam resultantes de colisões em datas mais recentes.
Mello explica, ainda, que as órbitas dos asteróides podem sofrer muitas variações, mas sua distância média do Sol e seu período orbital médio permanecem inalterados até que o asteróide sofra uma quase-colisão com um dos planetas interiores (Terra, Marte, Vênus, Mercúrio). Nessa quase-colisão, ele muda sua energia e passa ter uma órbita com período diferente do que tinha anteriormente. Pode, então, escapar da gravidade do Sol e sair do sistema solar ou chocar-se contra a superfície do Sol.
O que ocorre nesta quase-colisão é semelhante ao que se usa em Astronáutica para impulsionar sondas espaciais para longe: uma sonda sai da Terra com uma dada energia e é dirigida para passar muito perto da Lua ou de Vênus e essa quase-colisão é planejada de modo a dar à sonda energia para uma longa viagem pelo espaço interplanetário, acrescenta o pesquisador.
Maiores detalhes sobre asteróides e suas órbitas com Sylvio Ferraz Mello, podem ser obtidos pelo endereço eletrônico [email protected] ou pelo telefone (011) 5778599.


