Carmen KleyMilhares de pedras brutas formam as cidades dos incas, algumas pesam centenas de toneladasDois astrônomos brasileiros, um deles do Observatório Municipal de Americana (OMA) - 150 quilômetros de São Paulo - e o outro de Diadema, iniciam, no próximo dia 23, no Peru, a última etapa de pesquisas de um projeto que pretende mudar a história sobre a origem das construções do Império Inca. O projeto - chamado Inti, Uma Visão da Arquitetura Inca Através da Astronomia - foi idealizado por Carlos Henrique de Andrade, do OMA, há oito anos e começou a ser executado no ano passado, em parceria com mais cinco astrônomos das universidades peruanas de Lima e de Cuzco. ‘‘Além de introduzir uma visão absolutamente inédita nos estudos da civilização inca, acreditamos que a conclusão de nosso projeto vai acabar, de uma vez por todas, com muitas das mistificações que existem até hoje ao redor desta civilização’’, afirma Andrade.
De acordo com as teses do Projeto Inti, todos os edifícios, templos e monumentos erguidos pelos incas seguiram rigorosamente a posição de astros, estrelas e planetas. ‘‘O que pretendemos provar é que eles construíram suas casas e cidades baseados na observação detalhada do céu. A Ciência sabe, hoje, que os incas tinham grandes conhecimentos de Astronomia. Mas, para nós, suas técnicas eram muito mais evoluídas e complicadas do que se imagina’’, diz. Assim, a estranha posição de alguns monumentos, a simetria dos ângulos e a confluência de ruas e edifícios, eram determinados pela leitura do movimento dos astros na abóbada celeste.

Carmen KleyNo ano passado, a equipe do Projeto Inti mergulhou durante quarenta dias nos principais sítios arqueológicos incas, entre eles a cidade de Machu Picchu, construída a 3.360 metros acima do nível do mar, na província de Cuzco. Segundo Andrade, as descobertas feitas na ocasião reforçam suas teses. ‘‘Os ângulos, a direção dos muros, o local das edificações e dos monumentos estão diretamente relacionadas com a posição de alguns astros, nos céus da época’’, argumenta. Um dos exemplos mais contundentes, segundo ele, está na cidade de Ollantaytambo. As edificações feitas ali fascinam o mundo, até hoje, por causa de seus misteriosos ângulos. ‘‘Mas o que descobrimos é que os sábios de Ollantaytambo, ao contrário do resto do Império, desenvolveram uma Astronomia própria, calcada em modelos particulares de observação e registro. Quando comparamos os ângulos arquitetônicos criados por eles com aqueles desenvolvidos no resto do Império, chegamos a conclusões surpreendentes. O que eles buscavam expressar em sua arquitetura era a mesma conformação celeste do resto do Império, mas a partir de pontos diferentes de observação’’, explica.

Carmen KleyPedras foram fundidas sem massa, para isso seriam necessárias temperaturas de 25 milhões de grausOllantaytambo é um dos principais portões de saída das famosas trilhas incas, que ligavam todas as regiões do Império. A cidade está construída a 4.200 metros de altitude, numa região inóspita, com temperatura média de 5 graus negativos. ‘‘Todas as construções têm em suas paredes uma leve inclinação para dentro. Se direcionarmos esta inclinação para o infinito e pedurarmos, por exemplo, um pêndulo, o mesmo cairá exatamente no centro da construção. Isso não é coincidência’’, argumenta.
Andrade acredita que a comprovação destas teses ajudará a esclarecer mistérios que até hoje dão origem a lendas e mistificações em torno da civilização inca. Uma delas refere-se aos gigantescos desenhos encontrados nas planícies áridas de Nazca, que já foram atribuídos até a estações de contato com naves alienígenas. ‘‘Os desenhos de Nazca seguem rigorosamente o movimento de determinadas constelações. Ao que tudo indica, eram gigantescos centros de observação astronômica’’, afirma.

ReproduçãoVista de Machu Picchu: local das edificações e monumentos corresponde exatamente à posição de alguns astrosPara chegar a estas conclusões, os pesquisadores do Projeto Inti reconstruíram detalhadamente a conformação dos céus e o movimento dos astros na época do florescimento da civilização Inca. ‘‘Através de nossos mapas celestes é possível determinar com extrema exatidão o verdadeiro aspecto do céu do Império, na época de sua construção’’, garante.

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