Qual a causa da dependência química? Por que alguns indivíduos viciam e outros não? Calcula-se que de 20 a 30 milhões de americanos consomem ou já consumiram tóxicos. No Brasil, foi registrado no ano passado um número de 120 a 150 mil viciados em crack. Houve também o aumento de 600% dos casos de uso de maconha por parte dos delinquentes juvenis. Menos de 10% das pessoas que fumam a droga desenvolvem dependência. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que um entre dez adolescentes que bebem desenvolverá a dependência alcoólica.
A maioria dos adolescentes já provou alguma droga. Nem todos, no entanto, se viciaram. Por que, então, a droga vicia fisiologicamente alguns e outros não?
O professor de Patologia Experimental, Rubens Cecchini, chefe do Laboratório de Pesquisa de Radicais Livres em Patologia e Medicina da Universidade de Londrina e Pesquisador do CNPq, acredita que existem vários fatores responsáveis pela causa dos vícios. ‘‘Não só biológicos, mas também metabólicos, sociais, familiares e psicológicos do indivíduo’’, conta.
Ele explica que no contato com a droga, toda pessoa tem mecanismos metabólicos hepáticos. Exemplificando, o professor diz que tanto o álcool como a cocaína são prontamente eliminados pelo fígado (transformadas e excretadas). O que acontece é que de uma pessoa para outra varia a capacidade de transformação da droga. ‘‘Algumas doenças, como hepatite, podem ser fatores que influenciam na dependência química. Além disso, o fígado hiperativo transforma mais rapidamente’’. Existe também o nível de tolerância de cada pessoa. ‘‘Com o tempo, as drogas aumentam a tolerância em nível hepático e o indivíduo pode desenvolver maior capacidade de metabolizar o álcool’’, observa.
Já nos casos de hereditariedade, o médico diz que eventualmente o indivíduo pode desenvolver uma dependência com causa de origem genética. ‘‘No organismo, há o álcool desidrogenase, enzimas que podem estar em maior concentração. O que quer dizer, em certos casos, que o indivíduo pode ter maior capacidade de ingerir o álcool. A revista ‘‘Veja’’ publicou no início deste ano que estudiosos afirmam ser o alcoolismo uma doença transmitida geneticamente. Outros garantem, porém, que os fatores sociais são determinantes.
Lesão bioquímica O psicanalista Marcelo Castro acredita que a compulsão seja um conjunto de fatores que inclui, no caso, o vício pela droga. ‘‘Mas não é tudo’’, diz. Para ele, há a causa psicológica da dependência. Ele afirma que toda substância produz reações no organismo. Drogas como álcool, por exemplo, induzem o fígado a produzir ainda mais enzimas, que ‘‘quebram’’ o álcool. ‘‘Fica uma sobra de enzimas e sente-se a falta do álcool no organismo’’, explica. É a parte física da dependência, em que o organismo passa a exigir cada vez mais a droga.
Castro observa que algumas drogas são altamente destrutivas e induzem à dependência química e metabólica muito rapidamente, como o crack. Com o álcool, o processo somente é um pouco mais demorado.
O neurologista Lincoln Brazil e Silva também tem sua explicação sobre o que acontece para o indivíduo tornar-se dependente da droga. Segundo ele, muitas drogas agem interferindo na endorfina, um composto produzido no organismo que acaba atrofiado. Exemplos como morfina, nicotina, álcool, heroína ou crack chegam a ocupar o espaço da endorfina e por isso ocorre o vício. ‘‘A pessoa sempre estará com falta da substância e o organismo está sempre exigindo mais’’, conclui. A resposta é que as pessoas ficam dependentes quimicamente porque cria-se uma lesão bioquímica no organismo.
Lincoln Brazil e Silva frisa ainda que o uso crônico de muitos calmantes pode criar uma lesão cerebral chamada ‘‘Discinesia Tardia’’. As drogas entram nos receptores cerebrais causando lesões e isso acaba mexendo com as estruturas do cérebro.

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