A terceira e mais recente edição do famoso livro do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) é a mais completa de todas, anuncia o organizador Paul Ekman logo no prefácio da obra. Mas, a história de The expressions of the emotions in man and animals (As expressões das emoções em homens e animais, ainda sem tradução no Brasil) começa em 1872, com a primeira edição. Na época, Darwin já se tornara famoso naturalista. Havia publicado no ano interior ‘‘A Origem de Homem e a Seleção Sexual’’ e, em 1859, ‘‘A Origem das Espécies’’, sua obra mais conhecida.
ReproduçãoTerceira edição do livro de Charles Darwin traz fotos e ilustrações do acervo do naturalistaNos quatro meses seguintes ao lançamento de The expression... foram vendidos 9 mil exemplares. Diante do interesse despertado e da intensa correspondência que recebeu após a primeira edição, Darwin preparou uma série de acréscimos e modificações para a segunda edição. Esta foi publicada em 1889, sete anos após a morte do naturalista, editada pelo filho do autor Francis Darwin.
A presente edição (pode ser comprada pela Internet) supera a anterior. Foram acrescentados comentários que Darwin desejava incluir, ignorados na segunda edição. Ekman inseriu também anotações esclarecedoras, fruto da consulta aos cadernos e à correspondência de Darwin. Foram incluídas ainda fotos originais do acervo de Darwin que foram substituídas por desenhos nas edições anteriores, para diminuir custos.
Outra novidade é a inclusão de seis apêndices, de diversos autores, inseridos no final do volume. Além de um obituário do naturalista e comparações entre as duas primeiras edições, estão entre os temas abordados comentários sobre o uso das ilustrações e das fotografias no livro, em um texto valioso do norte-americano Phillip Prodger. O mesmo autor, dessa vez em parceria com Ekman, trata também da orientação das ilustrações, destacando a existência de uma assimetria facial, o que faria com que um dos lados expressasse melhor as diferentes emoções. Tudo isso mostra que a atual edição é realmente primorosa, contendo um grande volume de novas informações, tanto do próprio Darwin, como dos editores, o que torna o livro indispensável para biólogos, filósofos e historiadores da ciência, entre outros.
Na introdução, idêntica à da primeira edição, Darwin historia estudos anteriores sobre as expressões faciais dos humanos, com impressionante cuidado na revisão bibliográfica. O naturalista, ainda nessa parte, refere-se longa e elogiosamente à obra de Charles Bell, publicada pela primeira vez em 1806 (Ana-tomy and philosophy of expression). No entanto, um oportuno comentário de Ekmman informa que um dos motivos de Darwin escrever The expression... foi contestar a afirmativa de Bell de que nossos músculos faciais foram obra de Deus para expressar as nossas emoções. Entre os comentários de Ekman foi incluído um trecho de uma carta de Darwin ao naturalista galês Alfred Russel Wallace (1823-1913), no qual está claro o enfoque evolucionista dado ao tema das expressões faciais.
Nos três primeiros capítulos, Darwin expõe os ‘‘princípios gerais da expressão’’, os quais tentam explicar a maior parte das expressões e gestos involuntariamente feitos por animais e humanos, sob a influência de emoções e sensações - nessa parte, uma nota presta tributo ao filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903), quanto à distinção entre emoções e sensações, mostrando sua importância na estruturação do pensamento de Darwin.
Mas, quais os princípios da expressão? Darwin enumera três. O primeiro é o dos ‘‘hábitos úteis associados’’, segundo o qual determinadas expressões e movimentos musculares são induzidos mesmo não correspondendo aos estados da mente desencadeadores de tais expressões (por exemplo, alívio e/ou gratificação). O segundo, o princípio da antítese, pode ser exemplificado pelo movimento de um cão que se aproxima de alguém ainda não identificado, mas que poderia ser uma ameaça, e do movimento oposto que resulta do fato do cão identificar quem se aproxima como sendo seu dono. O terceiro é ‘‘o princípio das ações devidas à constituição do sistema nervoso, independentemente da vontade e do hábito’’. Um exemplo seria a queda de cabelo ou a mudança de cor (de escuro a claro), em resposta a uma situação de terror ou sofrimento.
O capítulo 4, marcado fortemente pela idéia evolucionista, é reservado aos meios de expressão dos animais. Por exemplo, a ereção dos pêlos ou penas, sons, aumento do volume corporal para induzir medo em um opononte, posicionamento das orelhas junto da cabeça como sinal de raiva (caso dos carnívoros em geral).
As expressões humanas são temas entre os capítulos 6 e 13. No capítulo 11, por exemplo, Ekman inclui uma foto inédita do próprio Darwin com seu filho Willy para ilustrar a narrativa superficial feita pelo naturalista sobre um episódio com o filho. Ekman vai aos cadernos de Darwin e resgata o caso detalhadamente. Essa parte da obra é preciosa, não só para biólogos evolucionistas, mas para psicólogos, psiquiatras e antropólogos.
Darwin mostra mais uma vez ser um mestre nas observações e conclusões, no último capítulo, dedicado a uma recapitulação e conclusões. Novamente, o aspecto evolutivo é destaque: ‘‘nós temos visto que o estudo teórico das expressões confirma a conclusão de que o homem é derivado de uma forma animal inferior e apóia a crença de uma unidade (...) entre inúmeras raças’’.
Ao se terminar a leitura desta magnífica obra é quase impossível deixar de dar razão a Konrad Lorentz (prefácio da edição de 1965/University of Chicago Press), que afirma que é no campo dos estudos do comportamento que as verdades inegáveis contidas em The expression... atingem suas maiores consequências, teóricas, práticas e, mesmo, políticas. A seguir ele conclui: ‘‘Eu acredito que mesmo hoje em dia ainda não constatamos o quanto Charles Darwin sabia’’.
The expressions of the emotions in man and animals - Charles Darwin. Terceira edição. Oxford University Press, 1998. Pode ser comprado pela Internet.Em seu livro, Charles Darwin (foto) historia estudos anteriores aos seus sobre as expressões faciais humanasReproduçãoDarwin tenta explicar a maior parte das expressões humanas que ocorrem de forma involuntária sob o efeito das emoções e sensaçõesLivro de Charles Darwin, que está na terceira edição, traz análise do naturalista sobre as emoções e expressões humanas

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