Mulher de corpo escultural, ‘‘sarado’’ e bem definido, 30 anos, lindo par de olhos azuis, bom nível social e intelectual, quer conhecer homens de mesma faixa etária, bom papo, bonito, peso e altura compatíveis e com situação financeira definida. Indispensável e-mail com foto.
Segundo o psicólogo Antônio Carlos Alves de Araújo, é mais ou menos este o ‘‘perfil’’ mais comum definido nos sites de relacionamento virtual. Mas, na vida real da classe média, com todos os seus traumas e desejos, o que tinha tudo para ser o modelo de ‘‘cinderela do terceiro milênio’’ ou do ‘‘príncipe encantado moderno’’, pode se tornar num grande ‘‘sapo’’ ou numa feiosa ‘‘bruxa mᒒ. Ele pesquisou, durante seis meses, cinco sites de namoro virtual, ou e-relacionamento, buscando identificar quais as características de quem procura uma ‘‘alma gêmea’’ usando a Internet como ferramenta de conquista.
De ‘‘cara’’, a pesquisa derrubou o mito de que só os jovens e adolescentes, principalmente do sexo masculino, procuram conhecer pessoas via Internet. De acordo com a pesquisa, perto de 80% dos cadastrados nos sites pesquisados eram mulheres. Destas, 50% estavam na faixa dos 30 aos 39 anos. Os homens também se cadastram, mas a faixa etária varia dos 30 aos 45 anos. ‘‘São os que sofrem de solidão’’ avalia o psicólogo e a Internet é vista como a saída mais ‘‘à mão’’ para encontrar um companheiro ou companheira.
Conhecido o sexo e a faixa etária predominantes, o psicólogo procurou traçar o perfil físico das pessoas que procuram os sites de namoro. Via de regra, se dizem bonitos, com peso e altura ideais e situação financeira e cultural bem definidas.
Mas, cuidado, isso tudo pode ser mentira. ‘‘Faz-se muitas exigências mas, no final, acabam procurando o mesmo perfil; o problema maior é a busca da perfeição’’, aponta Araújo. Conforme o pesquisador, apenas cerca de 10% dos relacionamentos virtuais acabam, de fato, em namoro ou algo mais sério.
Araújo acredita que ‘‘é legal usar’’ esta tática para conhecer pessoas. O problema é o modo como se usa, pois ambos mentem bastante. Na opinião do psicólogo, para que uma relação consiga prosseguir é necessário haver convivência e o mínimo de afinidade. ‘‘Os bem sucedidos foram extremamente francos em seus perfis’’, revela.
Já aconteceu, por exemplo, de um pai que acabou ‘‘conhecendo’’ a própria filha. Se corresponderam durante seis meses, sem trocar fotos nem telefones (por medida de segurança), e resolveram se conhecer pessoalmente, marcando um encontro num shopping de São Paulo. E o que poderia ser uma história com final feliz acabou se transformando numa imensa dor de cabeça.
A consequência imediata deste tipo de situação é que os relacionamentos via Internet assimilaram também a agilidade da rede, onde as duas partes envolvidas queimam rapidamente etapas naturais comuns nos relacionamentos ditos normais. ‘‘Quando saem do contato virtual, há uma aceleração total da relação’’, ressalta o psicólogo. Ele completa citando o caso de um casal que em menos de três meses depois de se conhecerem num site de namoro, resolveram se casar. Se dará certo ou não? Só o tempo conseguirá dizer.
‘‘É chegada a hora de parar e pensar para onde estamos indo, pois nada pode ser mais nefasto para a saúde afetiva do que fazer uma espécie de ‘test-drive’ nas relações humanas’’, completa o psicólogo.

mockup