Apps viram espaço para publicações anônimas e ofensivas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 
"Amo cantar, mas tenho vergonha e não consigo me expressar!!!" Inofensivo, este é apenas um dos muitos posts publicados no aplicativo Secret, que foi o mais baixado esta semana nas lojas de aplicativos do Google e da Apple. O app permite publicar frases e fotos de forma anônima. Foi concebido, segundo os criadores, para que as pessoas pudessem compartilhar segredos com outras pessoas. O usuário é capaz apenas de saber se a publicação foi de um amigo (que o serviço reconhece por meio dos seus contatos telefônicos ou do Facebook), ou de um amigo do amigo. Também é possível explorar posts de outras pessoas, que podem ser identificadas apenas pelo País ou cidade onde mora. Outros usuários podem comentar o post, também de forma anônima. Acontece que, ao mesmo tempo que a ferramenta vem sendo utilizada para "confissões", tem sido usada como um meio para difamar e caluniar outras pessoas sem que o autor seja descoberto.
Enquanto a reportagem conversava com o delegado do Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber) do Paraná, Demetrius Gonzaga, na última terça-feira, o órgão recebia sua primeira denúncia de difamação pelo Secret, cuja vítima foi um adolescente, usuário do serviço, de Curitiba. A família, entretanto, preferiu não dar entrevista.
Semana passada, um grupo de dez brasileiros declarou que vai entrar com pedidos extrajudiciais para que Apple e Google removam de suas lojas virtuais no Brasil o aplicativo. Segundo o responsável pela iniciativa, o consultor de marketing Bruno de Freitas Machado, 25, cada membro do grupo sofreu calúnia ou teve informações privadas divulgadas sem autorização. Ele decidiu tomar uma atitude legal contra o serviço quando viu que fotos em que aparecia nu haviam sido publicadas.
"O problema é que este aplicativo foi lançado como uma ferramenta para as pessoas contarem os segredos delas mesmas, mas pelo fato de contar com o anonimato, elas estão falando dos outros, tentando denegrir os outros. São condutas que se traduzem como crimes", destaca Gonzaga. Sobre o caso em Curitiba envolvendo o app, o delegado disse que já estava naquele momento enviando um ofício à empresa responsável pelo serviço solicitando informações sobre o caso, uma vez que, segundo ele, os dados são guardados pelo serviço por apenas três dias.
Gonzaga ressalta que "é um equívoco pensar que o usuário terá o anonimato assegurado". "As pessoas se levam pela notícia comercial do anonimato, mas no âmbito judicial e policial pode haver quebra de sigilo." Caso seja comprovado crime através do aplicativo, a empresa responsável deverá fornecer dados do usuário em uma investigação policial ou judicial, explica Gonzaga. E caso não responda, o serviço pode até mesmo ser retirado do ar.
"Esta ilusão de que se apagar (o conteúdo) vai sumir para sempre não é real, porque fica na memória do aparelho. No fundo, tudo está vinculado", reforça Sandra Celli, perita criminal da Polícia Científica do Paraná. Caso se sinta ofendido usando este tipo de aplicativo, Gonzaga e Sandra orientam o usuário a fazer a captura da tela em que o material aparece, já que o conteúdo pode rapidamente ser "apagado". "Não serve como prova, mas ajuda muito a perícia, pois podemos fazer buscas por palavras-chave, por exemplo", afirma Sandra. Em seguida, eles orientam procurar uma unidade policial. (Com agências)




