Apple apresenta o iBook
B. Piropo
Agência O Globo
Do Rio
Logo no primeiro dia, um membro da tribo das maçãs brandiu, orgulhoso, o argumento que a seu ver liquidaria a discussão: O iMac é muito mais bonito que qualquer PC. E eu pensei: e daí? Micro é uma ferramenta. Eu mesmo jamais cogitei incluir o quesito beleza na escolha de um alicate. E foi a partir desse momento que comecei a me sentir meio alienígena na MacWorld (evento da Apple que aconteceu há duas semanas em Nova York), se é que me faço entender. E percebi que estava imerso em outra cultura. Melhor dizendo: outra religião. Cujos dogmas não são fáceis de entender, exceto para os iniciados. Por exemplo: durante a feira, um respeitável jornalista especializado em Mac, justificando determinadas atitudes da Apple, lascou: Ao que parece, eles pensam que possuir um Mac já é uma espécie de privilégio...
E foi imbuído deste espírito que esperei mais de uma hora em pé na fila para conseguir um lugar no fundo do auditório, para ver de longe um animado Steve Jobs proferir a palestra de abertura da MacWorld New York 99.
Eu disse animado? Pois bota animado nisso. E não sem razão: afinal, Jobs voltou à Apple justamente para fazê-la retornar aos anos de glória, devolvendo-a a seu rumo original. E, ao que parece, está começando a conseguir. A menina dos olhos da Apple, o iMac, foi lançado há menos de um ano e já vendeu quase dois milhões de unidades. As tecnologias de ponta, abraçadas pela Apple e incorporadas aos seus produtos, estão decolando rapidamente: já há mais de cem diferentes dispositivos USB no mercado (e espera-se que o número atinja a 250 nos próximos meses) e pululavam na feira dispositivos de armazenamento usando o novo barramento FireWire. Nos últimos 12 meses, foram lançados ou atualizados nada menos que quatro mil novos softwares para a linha Mac. Portanto, razão para o entusiasmo não faltava.
Steve Jobs abriu a palestra exibindo alguns números para comprovar o sucesso da empresa depois que voltou a abraçar a estratégia de centralizar seus esforços no desenvolvimento de produtos criativos que incorporam tecnologia inovadora. Em seguida, mencionou o Mac OS9, novo sistema operacional para Mac com lançamento previsto para outubro que, dentre suas mais de 50 inovações, incorpora o Sherlock II, poderosíssimo dispositivo de busca na Internet voltado para o comércio eletrônico (95% dos usuários de Mac nos EUA estão plugados na Internet).
Depois, demonstrou ao vivo o Quick Time TV, um sistema de distribuição de vídeo e áudio através da Internet que emprega o Quick Time (já na versão 4) para exibir via Internet vídeos de alta qualidade usando tecnologia de alto desempenho e que já conta com a adesão de nomes como Fox, HBO, Disney, ESPN e ABC news. E, finalmente, encerrou a primeira parte da palestra com uma impressionante demonstração do ViaVoice, o software de reconhecimento de voz da IBM na versão para Mac. Uma beleza.
E foi então que começou o show, a parte mais esperada pela platéia: o lançamento da versão portátil do iMac, que, segundo Steve Jobs, é um iMac para viagem. Um micro que só poderia se chamar (adivinhem?) iBook e que, nos EUA, já pode ser comprado por US$ 1.600. Mas quem comprar agora somente o receberá em setembro, quando as primeiras unidades estarão disponíveis para o público.
O iBook é uma máquina peculiar. A começar pelo design. O bichinho tem uma alça para carregar (coisa que todo notebook deveria ter) e não tem ferrolho: para fechar, basta encostar as duas abas, como alguns telefones celulares. E foi lançado em duas cores: azul e tangerina.
O iBook é um notebook multimídia que incorpora uma CPU PowerPC G3 de 300MHz e dispõe de 32Mb de memória RAM (que pode ser expandida até 160Mb) e 512K de cache L2. Suporta o barramento USB. Traz embutido um drive CD-ROM de 24x, um HD de (apenas) 3,2Gb, um modem de 56K e suporte à rede. Um controlador gráfico ATI Rage Mobility AGP de 2x com 4Mb de memória de vídeo alimenta a tela de matriz ativa TFT de 12 padrão SVGA que suporta 16 milhões de cores em uma resolução de 800 x 600 pixels com uma imagem brilhante e nítida. A carga da bateria alcança inacreditáveis seis horas de duração graças ao que Jobs classificou como o mais sofisticado sistema de gerenciamento de energia da história da Apple. E tem detalhes de design impressionantemente criativos, como o carregador de bateria, um objeto circular que encaixa diretamente na tomada e no qual o cabo se enrola como em um ioiô. Mas sua característica mais impressionante é a AirPort.
AirPort é um revolucionário sistema de rede sem fio que pode interligar até dez iBooks simultaneamente, distantes até 50 metros da unidade base. O sistema foi desenvolvido em conjunto por Apple e Lucent e consiste de uma estação base que se comunica com cartões tipo PC Card inseridos nos micros (as antenas estão incorporadas às máquinas por padrão). A estação base é um dispositivo circular que lembra os discos voadores dos filmes classe B e contém um modem de 56K e uma porta Ethernet padrão IEEE 802.11b que suporta taxas de transferência de até 11Mb/s. Trata-se de uma solução ideal para escolas e pequenos negócios que poderão intercambiar dados e compartilhar uma única conexão à Internet. O sistema é opcional: cada cartão custará US$ 99 e a estação base, US$ 299. Se o AirPort funcionar como a Apple espera, será o bastante para garantir o sucesso do iBook.
Um sucesso que parece muito provável. Afinal, sob a mão firme de Jobs, a Apple voltou a fazer exatamente o que sabe fazer melhor que ninguém: desenvolver produtos inovadores que incorporam a última palavra em tecnologia de ponta e vendê-los para o mercado doméstico. Uma estratégia que ficou clara na entrevista coletiva dos diretores da Apple: ao ser perguntado se o lançamento dos novos produtos significava que a Apple estava dando por perdida a batalha do mercado corporativo e voltando suas baterias para os usuários domésticos, Steve Jobs pensou um pouco, ensaiou uma resposta mais longa, mas logo a interrompeu, encerrando o assunto com um seco yes.





