Animadores afinam o uso da COMPUTAÇÃO GRÁFICA
Agência O Globo
Do Rio
Artistas demonstram na setima edição do Anima Mundi - festival internacional que começou sexta-feira no Rio - que, na dose certa, a computação gráfica pode ser grande aliada do cinema de animação
O sujeito com cara de otário aqui abaixo é Bingo, o palhaço. Ele não concorda muito com isso, mas pouco importa. No circo em que adentra, todos o chamam de Bingo, o palhaço, incluindo uma menina tímida que se transforma num monstro medonho e um homenzinho-árvore com 17 braços feitos de dinheiro. Realistas ou fantasiosos, eles são personagens de Bingo, filme de animação em computação gráfica, que está sendo exibido no Anima Mundi, festival internacional de cinema de animação, que começou sexta-feira no Rio. Bingo, o filme, é uma criação de Chris Landreth, um animador que bate ponto desde 1994 na Alias/Wavefront, empresa criadora do Maya, poderoso software de animação e efeitos especiais. O filme, aliás, foi feito praticamente dentro da A/W, enquanto o Maya era aperfeiçoado.
O Anima Mundi ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e o Espaço Cultural dos Correios até domingo. Em São Paulo, vai do dia 21 a 25, no Museu da Imagem e do Som. Ao todo, serão apresentados 388 trabalhos, vindos de 32 países. Entre eles, está o americano Bunny, de Chris Wedge, vencedor do Oscar de curta de animação deste ano, um dos destaques, ao lado de Bingo, da sessão de computação gráfica. Como acontece todo ano, o festival é dividido em mostras, como curtas, Brasil, infantil e portfólio. Nesta sétima edição do evento, a mostra de computação gráfica está batendo seu próprio recorde, com a exibição de 44 títulos. São três sessões distintas - uma de filmes e duas de vídeo - com quase uma hora de duração cada. Outra novidade: o festival aumentou em 100% a capacidade de espectadores, com a construção de um cinema ao ar livre, ao lado do Espaço Cultural dos Correios, com 500 lugares.
O grito do Tarzan já estava ecoando nos cinemas quando começou o Anima Mundi. Para o público brasileiro interessado em animação e computação gráfica, a coincidência no calendário é oportuna. Maniqueísmo à parte, é a chance de assistir a dois tipos bem diferentes de arte animada: numa ponta, um trabalho dito comercial, feito por grandes estúdios, como é o caso da Disney com seu Tarzan, e resultado de investimentos astronômicos; na outra, uma seleção dos chamados trabalhos de autor - muitas vezes experimentais e com orçamentos mais modestos - na programação de um evento que privilegia a diversidade.
Também é a oportunidade de constatar uma evolução no uso discreto, de coadjuvante e não de protagonista, da computação gráfica na animação. Para César Coelho, um dos quatro organizadores do festival (os demais são os também animadores Aída Queiroz, Léa Zagury e Marcos Magalhães), a mostra de CG deste ano reflete o amadurecimento da linguagem:
Antes, os artistas ficavam deslumbrados com os efeitos criados no computador, diz ele. Acabavam criando tantos movimentos de câmera que chegava a dar náuseas.
O resultado era um show pirotécnico de efeitos especiais, num filme que não necessariamente continha uma história. Não passava de uma mera demonstração de softwares e plug-ins. Este ano, a maior parte das obras de computação gráfica tem começo, meio e fim, comprovando a tendência de se usar a computação como uma técnica ou, como já virou clichê, um instrumento.
Agora, a pessoa tem a história e decide que a melhor forma de contá-la é através de computação, explica César. O curioso é que a animação tradicional está trilhando um outro caminho. Hoje, o movimento é privilegiar o artesanato, os poderes da mão. Muitos dos títulos apresentados neste Anima são explorações do potencial de determinados materiais, como grafite, pintura a óleo e papel com alto relevo.





