Angústia digital
Não há notícia de liquidificador que tenha se recusado a triturar uma maçã, misturando somente a banana e o abacate da vitamina; ou de um forno de microondas que teime em aquecer única e exclusivamente alimentos acondicionados em potes de marca compatível. Até porque não se tem notícia de usuários que aceitassem problemas assim calmamente, como fato inevitável da vida moderna.
Por essas e outras, o computador não é um eletrodoméstico qualquer. Temperamental, às vezes rejeita parcerias com scanners ou impressoras (até da sua mesma marca!), trava sem razão aparente ou não roda um CD-ROM novinho em folha. Não há usuário de microcomputador que já não tenha sido obrigado a assistir, passivamente, à rebeldia de sua máquina. Ou, pior ainda, assumindo toda a culpa pelo incidente, achando que estava fazendo algo errado. Qual será a besteira que estou fazendo agora? é pergunta frequente que as vítimas da informática vivem fazendo-se a si mesmas.
O fato é que computador, quando funciona redondinho, é uma maravilha. Mas quando apresenta problemas, é uma frustração só. Para alguns, a culpa é da indústria de informática, que criou padrões demais e hoje não se entende, atingida em cheio pela sua própria tecnodiversidade. Para outros, a questão está no computador, máquina complicada por excelência, montada com componentes diversos, de fabricantes que nem sempre se mostram muito afinados entre si.
Agência O GloboJeitinhoAntônio João, estudante de informática, descobriu que o monitor, novinho, só funcionava com umas pancadinhas. Outro problema foi com o acesso à Internet. Quando Antônio navegava, o micro travava. Resolvi não me preocupar, porque computador é assim mesmo. Relaxei e o problema sumiuMicro é como carro; é obrigatório saber dirigirA professora universitária Marília Mattos, por exemplo, se diz uma vítima da eletroeletrônica. Já padeceu com defeitos no aparelho de som, agora é a secretária eletrônica que não funciona, mas nada se compara à via-crúcis que encara com seu PC. Desde que comprou o primeiro micro, em 1994, ela não pára de receber visita de técnicos. É placa de vídeo defeituosa, backup perdido, vírus, incompatibilidades... não faltam razões para desperdiçar dinheiro nas mãos de profissionais que nem sempre conseguem solucionar seu problema.
O controle de qualidade na indústria de informática é precário, diz Marília, que atualmente está usando o micro emprestado de uma amiga, já que o dela emperra sempre que tenta acessar a Internet. Ele me venceu, mas não me considero totalmente derrotada. Vou comprar um novo ainda no primeiro semestre.
Situações como as vividas pela professora Marília Mattos em breve serão consideradas coisa do passado, na opinião de Fernando Chaves, gerente de tecnologia e marketing de software da Xerox. Ele explica o otimismo: se o micro popularizou-se a ponto de ser confundido com um eletrodoméstico, deverá, em contrapartida, ficar mais fácil de usar. Para Chaves, a facilidade com que o consumidor aceita o fato de o micro funcionar mais ou menos, também vai acabar. Conforme a tecnologia torna-se corrente, os consumidores ficam mais exigentes.
Para o colunista carioca B. Piropo, o problema é outro. Há dez anos, quem comprava um PC sabia que teria de aprender a usá-lo. Hoje, acredita-se que basta ligar o PC.
A indústria de software vende a idéia de que o micro pode ser usado até por idiotas e esconde as dificuldades dos programas. Micro é como carro; é obrigatório saber dirigir.
O conhecimento de informática, porém, não evitou que Américo Barbosa de Oliveira fosse mais um consumidor frustrado. Engenheiro eletrônico, não conseguiu fazer upgrade de memória. Primeiro, o micro não reconheceu o pente de 32Mb que comprou. Voltou à loja e trocou o pente de 32Mb por outro e comprou um segundo pente, também de 32Mb. Desta vez, o PC só reconheceu 8Mb de cada. Trocou por outros dois pentes de 32Mb. E então o PC leu 16Mb em cada um.
Acabei ficando só com um dos pentes de 32Mb que comprei por último e mais os 16Mb que já tinha no PC, explica ele, que aprendeu uma lição: ao adquirir um PC, deve-se comprar logo o máximo de memória possível. Dei o PC para minha mãe e comprei um novo, com 128Mb, conta ele, que se queixa das lojas de informática.
O fornecedor de hardware Julio Cesar de Angelis, da CDR Informática, já conheceu muitos consumidores frustrados. Eles acabam chegando às suas mãos, indicados por amigos clientes. Já vi lojistas trocando HDs sem necessidade; deveriam ter avisado ao cliente que era preciso apenas habilitá-lo.
O estudante de processamento de dados Antônio João Proença, 21 anos, também pode ser considerado um usuário bem informado. Mas nem por isso escapou do sofrimento. Primeiro, foi o monitor. Com um mês de uso, a tela passou a sair da regulagem.
Um dia, dei umas pancadinhas no monitor e a tela se ajustou, lembra. Outro problema foi com o acesso à Internet. Quando Antônio navegava, o micro travava. Resolvi não me preocupar, porque computador é assim mesmo. Relaxei e o problema sumiu. Depois disso, veio um problema com o kit multimídia: O micro passou a travar de cinco em cinco minutos. Tirei o drive e tudo voltou ao normal.
Chaves, da Xerox, lembra que os problemas não acontecem só por falta de informação, mas também em decorrência da complexidade da indústria. O problema é que existem padrões demais, linguagens demais.
Outra vítima é o professor aposentado Martinho Gonçalves Reis, de 73 anos. Há dois anos ele instalou o Windows 95 no seu Aptiva K81. Desde então, o teclado passou a agir de forma diferente. De acordo com Marco Antonio Kalil, gerente do serviço de suporte a cliente da IBM, não existe incompatibilidade entre o Aptiva K81 e o Win 95. Era preciso apenas configurar o teclado. Depois de avisado pelo Info etc. , Kalil pediu ao pessoal do suporte que ajudasse Martinho.
Nem sempre os usuários sofrem apenas com a falta de informação. Às vezes, também falta coragem para usar o PC. Isso aconteceu com a psicanalista Suelena Werneck Pereira. Ao comprar o seu segundo notebook, um Pentium II, preferiu, por dois meses, usar seu antigo 386.Só passei a usar o novo quando me senti mais segura. E arrisca um diagnóstico para o que acontece nesses casos:
Sei que às vezes há incompatibilidade entre pessoas e máquinas. Não sei se é meu caso, mas reconheço que tenho preguiça de ler manuais e por isso acabo aprendendo pela metade...Agência O GloboEmbrulhado para presenteO engenheiro Américo de Oliveira tentou, mas não conseguiu fazer upgrade de memória; acabou dando o micro para a mãeAgência O Globo





