Amazônia ontem e hoje
A comissão nunca encontrou tão elevada letalidade por uma endemia e nunca viu uma condição de morbidade mais intensa e generalizada que a encontrada no rio Acre. Praticamente quase a totalidade dos seringueiros estudados se apresentavam infectados pela malária, com lesões no baço e no fígado. Esse foi o quadro reportado pelo parasitologista Carlos Chagas (1879-1934), quando retornou de sua viagem à Amazônia, em 1913, depois de passar seis meses na região.
Oito décadas depois, uma comissão de cientistas da Casa de Osvaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, (Fiocruz), voltou à região para comparar as condições de vida e saúde das populações ribeirinhas atuais com as da época de Chagas. Dividida em três etapas, a expedição Revisitando a Amazônia de Carlos Chagas percorreu o mesmo caminho traçado pelo parasitologista: os rios Tauaracá, Juruá e Solimões em 1991, Negro e Branco em 1995, Acre e Purus em 1997.
Ciência Hoje/ReproduçãoNa farmácia caseira da cidade de Barcelos, Dona Maria do Carmo é uma das mulheres que preparam remédios com plantas medicinaisAs três jornadas foram registradas em vídeo. Mas as imagens da última viagem só serão apresentadas ao público em março durante a exposição multimídia Visões da Amazônia: cultura, ciência e saúde, no Espaço Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro. Promovida pela Fiocruz, a mostra inclui fotografias, pinturas, mapas e objetos locais, além de vídeos e filmes, que compõem um painel sobre as diversas visões construídas para a região.
Carlos Chagas foi enviado à Amazônia pelo governo federal para conter o avanço da malária. As autoridades acreditavam que, combatendo a doença, a produção brasileira de borracha recuperaria a primeira posição mundial, perdida para a Malásia.
Oitenta e cinco anos depois da expedição de Chagas, não se pode dizer que sua missão foi cumprida. O Brasil não só não recuperou seu lugar no raking de produtores de borracha como também não conseguiu erradicar a malária, embora a doença não mais represente a principal causa de morte nas regiões visitadas pelo cientista.
Segundo a pesquisadora Mércia Arruda, coordenadora do grupo de saúde da terceira etapa da expedição, hoje a málaria está restrita a surtos sazonais, no vale dos rios Acre e Purus, não chegando a ser um problema sério de saúde pública. Em 550 lâminas de sangue coletadas nos 47 dias que passamos na região, em 1997, não encontramos um único caso positivo, diz. Mas dados do Ministério da Saúde apontam 35 mortes decorrentes da malária em 1996 no estado do Amazonas. Até os primeiros meses de 97, haviam sido registrados nove óbitos.
A divergência se explica porque, enquanto a expedição se restringiu ao trecho percorrido por Chagas, o órgão público abrangeu todo o estado. O Amazonas realmente apresentou índices elevados de malária, embora a doença mate em uma proporção muito inferior à da época de Chagas, reconhece Mércia.
A concentração da doenças nas colônias agrícolas se deve à grande mobilidade da população ligada a esses projetos, principalmente fator de disseminação. A situação se agrava com a exposição aos ciclos alimentares do mosquito, que circulam em busca de comida no início da manhã e no final da tarde. Esses horários são exatamente aqueles em que as pessoas se dirigem ao rio ou ao igarapé para fazer sua higiene pessoal ou, simplesmente para pegar água para cozinhar ou beber, conta o historiador Fernando Dumas, que também participou da expedição.
Segundo Mércia, a diminuição dos casos de malária pode estar relacionada com o fim da exploração da borracha, que reduziu drasticamente o número de pessoas expostas a condições subumanas de trabalho.
Outro fator que pode ter contribuído para a diminuição dos casos foi o esvaziamento do tráfego de barcos, conhecidos como vapores na época de Chagas, que ajudavam a disseminar as doenças, ao levar pessoas infectadas de um seringal para outro. O trabalho da Superintendência de Campanhas Médicas (Sucam), atual Fundação Nacional de Saúde (FNS), e o atendimento médico, ainda que precário, também vêm contribuindo para a redução da malária. No tempo de Chagas, os médicos eram quase inexistentes e a única droga conhecida, o quinino, era rejeitada pelos pacientes.
Se a malária sofreu uma redução, a tuberculose apresentou um significativo crescimento. Chagas relata poucos casos no seringal Antimari e nas cidades de Rio Branco e Xapuri. Em 1996, no entanto, a tuberculose matou 95 amazonenses, consolidando a primeira posição na lista das doenças fatais. Outras doenças como a leishmaniose, parasitose transmitida por mosquitos, e a hanseníase também aumentaram. Chagas faz menção a casos isolados de leishmaniose; já os pesquisadores da Fiocruz detectaram, através do exame sorológico feito em 185 amostras, 30,2% de reações positivas para a Leishmania sp, um tipo de leishmaniose, e vários casos de lesões oronasais e em pernas e braços.
Para a hanseaníase, o índice foi de 65,2% em 299 amostras. A realização positiva, no entanto, não significa que a pessoa tenha desenvolvido a doença, mas que teve contato com o bacilo causador da enfermidade, ressalta Mércia.
O beribéri, deficiência causada pela falta de vitamina B, foi controlado. Segundo Fernando Dumas, isso só não foi possível devido à mudança da dieta dos amazonenses. Na época de Chagas, os seringueiros se alimentavam basicamente de enlatados, pois não havia tempo para plantar. Essa atividade era destinada às mulheres, raras na época, sendo inclusive importadas, afirma. Hoje, com a maioria das pessoas residindo nas cidades, alimentos agrícolas vindos de outras regiões brasileiras são facilmente adquiridos, completa.
A expedição também constatou o surgimento de doenças não reportadas por Chagas, entre elas a filariose, parasitose causada por mosquitos do gênero Simulium, a oncocercose, filariose muito comum na África e entre os índios Ianomâni, e as hepatites virais.
Mércia enfatiza, no entanto, que o fato de Carlos Chagas não as ter incluído em seu relatório não quer dizer que elas não existissem: Embora tenhamos usado a mesma metodologia de Chagas - exame clínico, coleta de amostras de sangue e esfregaços sanguíneos - o conhecimento teórico das doenças e o uso de técnicas imunológicas bem mais sensíveis e específicas que as usadas há 85 anos possibilitaram uma análise mais acurada e precisa das doenças existentes na área, explica.
Entre as hepatites virais, a do tipo A se destaca: 94% das 349 amostras de soro analisadas reagiram positivamente à doença. Em crianças menores de 10 anos, 95,4% já tiveram contato com o vírus.
Outra doença que tem atingido a população do Amazonas é a Aids, responsável por 58 óbitos em 1995, 9,4% do total. Dumas aponta a desinformação como a principal causa para a disseminação do HIV. O crescimento desordenado das cidades, sem o acompanhamento de uma infra-estrutura adequada de saneamento básico, contribui para a proliferação de doenças, diz o historiador. Para se ter uma idéia, o atual sistema de tratamento de água e de esgoto de Manaus ainda é o construído pelos ingleses no início do século.
Na opinião de Mércia, às mudanças culturais não se seguiram ações de saúde pública capazes de melhorar o quadro epidemiológico retratado por Chagas. Ainda há localidades totalmente abandonadas. Algumas crianças sequer haviam sido vacinadas contra a poliomielite. Com medidas de saneamento básico e de conscientização da população sobre as vias de transmissão de doenças, como o uso de camisinha - esse método de prevenção não foi encontrado -, bem como a implantação de um programa eficiente de vacinação talvez seja possível modificar a realidade do povo amazonense, acredita a pesquisadora.Reprodução/Ciência HojeAparentemente pouca coisa mudou em Massarabi (fotos) nos últimos 80 anos, remédios caseiros ainda são a única forma de tratar doenças na AmazôniaDanielle Nogueira
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