Aceitam-se bitcoins
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quarta-feira, 27 de junho de 2018
Mie Francine Chiba<br>eportagem Local 

No último dia 9, a Viação Garcia efetuou a venda de uma passagem rodoviária da linha Maringá/ Campinas. Seria um acontecimento comum, não fosse por um detalhe: a compra foi realizada em bitcoins. Alguns dias atrás, uma moradora de Londrina também teria comprado uma passagem para São Paulo (SP) usando a criptomoeda. Atualmente, existem 12.785 estabelecimentos que aceitam pagamentos em bitcoins no mundo cadastrados no site Coinmap.org, mas a maior concentração está na Europa e nos EUA. No Paraná, são 29 estabelecimentos cadastrados. O número pode ser maior, já que pode haver estabelecimentos não cadastrados no site que também aceitam a moeda.
"As empresas estão de olho neste mercado crescente. Em países como Japão e Austrália, o pagamento com bitcoins já é uma realidade", comenta João Canhada, CEO da Foxbit, corretora de bitcoin brasileira. "A corretora japonesa Coincheck realizou uma parceria com uma processadora de pagamentos e permitiu 260 mil estabelecimentos aceitarem bitcoin. No Brasil, a realidade é diferente, mas vemos o empenho de muitas lojas e empresas para descobrirem como aceitar bitcoin, utilizando gateways, processadores ou criando as próprias soluções", ele continua.
Para realizar pagamentos com a moeda, o usuário deve ter uma carteira virtual com bitcoins. Há diversas corretoras que já fazem a venda dessas moedas. Ao fazer um pagamento, o usuário lê o QR Code do estabelecimento usando o aplicativo de sua carteira no celular, ou acessa um endereço gerado e enviado pela empresa, fazendo a transferência em seguida. Os bitcoins são criptomoedas, moedas digitais que independem de um banco central para circular. Elas permitem realizar pagamentos para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo e são consideradas uma forma mais segura de fazer transações.
A venda da primeira passagem com pagamento em bitcoins na Viação Garcia teve um significado especial, por se tratar de uma empresa tradicional. A empresa nasceu em 1934. O vice-presidente do GBS (Grupo Brasil Sul), do qual a Viação Garcia faz parte, Estefano Boiko Junior, admite que não tem nenhuma perspectiva de que os bitcoins se tornem uma grande fonte de renda. O objetivo é estar na vanguarda. "O que pretendemos é mostrar que estamos inovando, buscando o que tem de mais moderno." Quando o cliente faz a compra da passagem e opta por pagar em bitcoins, o site o direciona para uma operadora, que faz a conversão da moeda em Real instantaneamente para a Viação Garcia, explica Boiko Junior.

PROJETOS ARQUITETÔNICOS
Em Londrina, o Coinmap.org aponta outros três estabelecimentos que aceitam a criptomoeda como forma de pagamento: uma escola do Método DeRose e dois escritórios de arquitetura. Bruno Montosa, do escritório Architec, diz que já foi procurado por um cliente interessado em pagar um projeto de arquitetura em bitcoin, mas o negócio ainda não foi fechado. "Mandei a proposta do projeto em bitcoin", conta. O empresário começou a comprar bitcoins seis meses atrás, quando a moeda atingiu recordes de cotação, e passou a oferecer a possibilidade de pagamentos na criptomoeda para buscar clientes nesse novo nicho de mercado. "É rápido, prático e seguro. Não tem taxas de banco e é um dinheiro que entra e fica lá valorizando", comenta. Ao receber bitcoin, a corretora da carteira utilizada por Montosa rapidamente converte a moeda em real e transfere o valor para o seu banco usual. "Em menos de 24 horas está na minha conta."
Henrique Paleari, dono da HPaleari Arquitetura, é um entusiasta da tecnologia. Começou a usar bitcoin em 2015 e aceita a criptomoeda como pagamento pelos seus projetos de arquitetura, mas ainda não recebeu nenhum. "É uma forma de pagamento como qualquer outra. Sou um entusiasta, conheço há algum tempo e comecei a aceitar para ver se recebo, mas é muito difícil." Para ele, a disseminação de notícias e opiniões negativas sobre a moeda ainda deixam as pessoas desconfiadas. A vantagem do pagamento em bitcoin é a praticidade, diz. No caso de pagamentos internacionais, o usuário fica livre do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e não precisa avisar o banco quando for viajar, por exemplo.
PASSAGENS, CARRO, COMPUTADOR E PIZZAS
A primeira compra de passagem com bitcoin da Viação Garcia foi realizada por Marcelo Belinato, um trader de bitcoin (que faz compra e venda da criptomoeda) de Maringá. Alguns dias atrás, Belinato também comprou um carro de R$ 185 mil de um proprietário de Apucarana, e um computador de uma pessoa física em Londrina usando bitcoins. Ele também compra pizzas de um amigo pizzaiolo de Maringá usando a criptomoeda. Mas estabelecimentos comerciais que aceitam bitcoins ainda são poucos. "É um meio muito fácil e rápido de comprar produtos ou serviços. Mas é uma mudança, é algo novo. As empresas ainda estão se adaptando, e o bitcoin tem muita volatilidade. Você pode ganhar ou perder dinheiro com ele. Mas no longo prazo, vai se tornar uma realidade receber em bitcoins."
Para o trader, tanto para o comprador quanto para o vendedor, a vantagem está em poder fazer a transação de qualquer lugar do mundo, para qualquer lugar do mundo, sem o problema (e as taxas de bancos) da conversão de moedas. O vendedor pode então trocar a criptomoeda pela moeda oficial do País, ou guardar e esperar valorizar, assim como as pessoas fazem com dólares.
Canhada, da Foxbit, diz que a redução de custos é o principal benefício do uso de criptomoedas pelos estabelecimentos. No final da cadeia, isso impacta também no preço do produto ou serviço para os clientes. "O principal benefício para os lojistas é a redução de custos, tanto no custo de transação, quanto no custo de fraudes, já que uma transação confirmada de bitcoin não pode ser revertida."
Para o cliente, fazer transações com bitcoins pode garantir mais segurança.
"Quando você paga com cartão, um estabelecimento malicioso pode copiar os seus dados (números, data de validade e CVV) e realizar compras sem a sua autorização. Já com bitcoin, isso jamais aconteceria, pois você não precisa expor sua senha-chave privada ao estabelecimento." Já a desvantagem, em ambos os casos, está na volatilidade da cotação da moeda, finaliza o CEO da Foxbit. Na última terça-feira (26), segundo a Foxbit, o bitcoin estava sendo negociado por cerca de R$ 24 mil, valor bem inferior do atingido em 17 de dezembro de 2017, quando a criptomoeda chegou próximo aos R$ 70 mil.


