Abelhas abrem portas para a ciência
Paulo San Martin Especial para a Folha Ciência
Uma pergunta quase banal sobre o comportamento de duas espécies de abelhas, feita por um botânico alemão no interior da selva amazônica, conduziu um grupo de cientistas brasileiros a descobertas que podem resultar em medicamentos capazes de contribuir, inclusive, para o combate ao HIV - o vírus da Aids. A pergunta foi formulada há seis anos pelo botânico Volker Bittrich, e desde então mobiliza biólogos e químicos da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, em São Paulo. O que eles já descobriram justifica o esforço. As abelhas dos gêneros Trigona e Euglossa coletam e processam substâncias da categoria das benzofenonas que hoje estão no centro de pesquisas de ponta realizadas em grandes laboratórios farmacêuticos do mundo.
Volker, vindo da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, enfiou-se na Amazônia no início de 92, junto com a botânica brasileira Maria do Carmo Amaral, para estudar um gênero muito particular de plantas, as Clusia, que habitam estritamente as regiões neotropicais. As Clusia são muito procuradas como plantas ornamentais e algumas das mais belas coleções brasileiras foram montadas por paisagistas como Burle Marx. Mas o que Volker e Maria do Carmo buscavam era conhecer o processo de polinização das flores de Clusia em ambiente silvestre. E, para isso, nada melhor que a selva amazônica, onde elas existem em profusão, conta Volker.
Enquanto pesquisava o processo de polinização destas plantas, Volker intrigou-se com o comportamento das abelhas Trigona e Euglossa. Ao contrário de todos os demais tipos conhecidos de abelhas, que colhem apenas o pólem e o néctar das flores, as Trigona e Euglossa coletam também uma resina que existe exclusivamente nas flores de Clusia. Vê-se que é uma ligação muito íntima. As únicas abelhas que colhem resina de flores são estas duas e as únicas flores existentes na Natureza que produzem resina são as Clusia, comenta Volker. Portanto, a pergunta quase banal era inevitável. Volker queria saber qual a composição desta resina e porque ela desperta a atenção das duas espécies de abelhas.
No final de 93, Volker concluiu seu trabalho na selva e chegou na Unicamp, universidade que o havia contratado. Ali, com a pergunta na cabeça, pediu ajuda a Anita Marsaioli, professora do Instituto de Química e uma das únicas especialistas brasileiras em Ecologia Química (leia texto nesta página). Anita aceitou o desafio, mas logo descobriu que ele era bem mais complicado do que parecia. Durante dois anos ela e sua equipe tentaram inutilmente descobrir a composição da resina. A principal substância que a compõe, ainda desconhecida para nós, era tão volátil que não conseguiamos fixá-la e estudá-la pelos métodos químicos tradicionais. Para complicar ainda mais as coisas, tinhamos a dificuldade em colher a resina. As flores a secretam em quantidades microscópicas, lembra Anita.
Só no início de 96, depois que os trabalhos de Volker sobre polinização das Clusia já haviam sido publicados em diversas revistas científicas internacionais, a equipe de Anita começou a desvendar o segredo. A partir de métodos de fixação desenvolvidos especialmente para esta pesquisa, descobriram a principal substância que compõem a resina: uma benzofenona isoprelinada. Essa descoberta foi uma surpresa. As benzofenonas começaram a ocupar publicações científicas internacionais há menos de cinco anos. Hoje, os grandes laboratórios farmacêuticos do mundo promovem uma verdadeira corrida para descobrir todo o seu potencial como medicamento. A literatura científica recente mostra a alta atividade anti-microbiana destas substâncias, o que pode dar origem a uma nova geração de antibióticos. Mas o mais importante é que ela apresenta atividade anti-HIV, e tem potenciais para se transformar em um novo medicamento contra a Aids, esclarece Anita.
Para Volker, esta descoberta abre um novo rumo de pesquisas sobre o que ele chama o fascinante mundo das abelhas. Até agora, tinhamos alguns estudos sobre o poder antibiótico de substâncias produzidas por abelhas, como o propólis. Mas nunca havíamos chegado tão longe, exulta.





