A vingança dos geeks
Na escola, os nerds, ou geeks (pronuncia-se guíc), são aqueles com óculos fundo-de-garrafa e roupas que nunca estiveram em moda, esnobados pelo sexo oposto, sem nenhuma intimidade com a bola. Vá lá, como eles geralmente são inteligentes e aplicados, o futuro pode até lhes reservar um bom emprego, mas a inépcia social alimentada por anos de cascudos dos colegas esportistas marca uma vida sem excitamentos. Mas nestes anos 90, pelo menos a segunda parte do estereótipo está desatualizada. Com a onipresença da Internet e o boom econômico da indústria da informática, a área de excelência dos nerds tomou vulto e funciona como passaporte para eles se tornarem líderes. Não é à toa que o homem mais rico do mundo, Bill Gates, é a quintessência do geek.
Se vamos dominar o mundo? Já dominamos, diz, evidentemente por e-mail, Tim McEachern, líder do movimento Geek Pride (Orgulho Geek). A economia de nenhuma nação existe sem tecnologia e redes de computadores. Tecnologia, e um polegar opositor, é o que nos separa do reino animal.
Uma vez que eles dominaram o mundo, criou-se o paradoxo: o nerd ou geek, por definição aquele com quem nenhuma garota bonita gostaria de ser vista, virou o supra-sumo do cool. E a indústria cultural, que até pouco tempo os ridicularizava em filmes como A vingança dos nerds, já dá sinais de reconhecer a nova posição. O sucesso-surpresa de bilheteria nos EUA ano passado foi Quem vai ficar com Mary?, basicamente a história do nerd que conquista a loura boazuda da escola.
Este ano, uma série de filmes para adolescentes segue a mesma linha, com inversão sexual: em Shes all that ou Never been kissed (com Drew Barrymore, que estreou há uma semana nos EUA), são as nerds que saem vitoriosas no final. No mundinho independente, um dos filmes mais bem recebidos pela crítica ano passado foi Pi(exibido na Mostra Rio do ano passado), um technothriller em que um geek tenta descobrir o número que traz o segredo da existência, e dos pregões da Bolsa.
Hoje, as crianças estão aprendendo a respeitar os geeks desde cedo. Um dos desenho-animados de televisão mais brilhantes e bem-sucedidos desta década, O laboratório de Dexter (exibido no Brasil pela Cartoon Network), circula em torno de um nerd infante que é um gênio tecnológico e tem um mega-laboratório no porão de sua casa.
Dexter é aquele garotinho paranóico e neurótico, mas não é uma vítima. Ele poder ser um nerd, mas é agressivo e confiante, diz, por telefone, o criador do personagem, Genndy Tartakovsky. No episódio em que ele apanha no playground, ele cria um super-robô para bater nos outros garotos. Ele é um herói.
O momento de vitória dos geeks chegou até mesmo à MTV, naturalmente um terreno estranho a eles. Quando o cartoon grunge Beavis & Butthead já não tinha mais o que render, a emissora americana criou um novo desenho, Daria, lançado em 1997, em que a personagem-título é uma adolescente intelectual com visão sarcástica sobre a estupidez de seus colegas com vida social intensa porém fútil. Confiante como Dexter e cheia de orgulho geek, Daria diz coisas como eu não tenho baixa auto-estima, tenho baixa estima pelo resto do mundo.
Até os videoclipes, geralmente dominados por pop-stars posando de rebeldes e/ou sofisticados, já estão abrindo caminho aos nerds. O melhor exemplo é a banda Harvey Danger, que entrou em alta rotação no último verão americano com Flagpole Sitta, de seu primeiro disco, Where have all the merrymakers gone?, lançado no Brasil pela Polygram. No clipe, a banda, formada por quatro rapazes de Seattle vestidos como estereótipos de nerds, é ignorada ao passar por ambientes cheios de gente posando de chique ou moderna. Parece uma óbvia mensagem de orgulho geek. Mas o vocalista da banda, Sean Nelson, irrita-se com a menção da palavra nerd, mesmo sem negar que seja adequada a ele.
Já fui chamado de nerd várias vezes. É um termo hostil, especialmente quando aplicado a nós. Na escola, isso significava que você era inteligente e não muito popular, incompreendido, fora do circuito. De fato, eu era tudo isso. Porque não era atraente e popular, fazia questão de ser mais inteligente que todo mundo. Dez anos depois, ser inteligente ainda é prioridade. Mas o rótulo de nerd é pejorativo. Percebi que as pessoas que usam esses termos não são tão cool quanto pensam, são apenas cruéis, diz ele, com olhar fulminante.
Compreensível que nem todo mundo fosse adotar o orgulho geek de uma hora para outra. Mesmo entre os adeptos, ainda existe uma polêmica semântica. A maioria adotou geek, porque com tempo o termo foi mais associado ao domínio da tecnologia, enquanto nerd ainda é usado mais como referência à inépcia social. Mas a verdade é que, no banco de escola, as duas palavras são usadas indiscriminadamente. E muito. Especialmente porque nos EUA o sistema escolar praticamente oficializa a distinção entre nerds e populars (aqueles que têm o mais alto nível de status social no recreio, geralmente os capitães de times esportivos e as líderes de torcida), promovendo a eleição da rainha do baile de formatura, do garoto mais popular e coisas assim.
Geeks são perseguidos desde o nascimento. É um inferno ser mais inteligente que o resto de vocês, diz McEachern. As escolas americanas são feitas para cultivar todo o tipo de comportamento vilanesco. Quem sobrevive passa por uma transformação darwiniana e, depois de cinco ou dez anos, evolui. É isso ou anos em psicoterapia.
Até mesmo o supergeek Dexter não é indestrutível e sofre na mão da irmã Dee Dee, que vive fuçando em seu laboratório e é uma graciosa bailarina loura, arquétipo da garota popular da escola. Tartakovsky concorda que seus personagens são essencialmente americanos. Mas, russo criado em Chicago a partir dos 7 anos, ele é um exemplo de que a situação básica é universal. Um pouco da dinâmica entre Dee Dee e Dexter existia entre eu e meu irmão, conta.Agência O GloboCriador e criaturaPara Genndy Tartakovsky, Dexter poder ser um nerd, mas é agressivo e confiante; é um heróiJoão Ximenes Braga,
Agência O Globo





