A sobrevivência de um símbolo
Uiará e Erê. Nomes que remetem à origem indígena do nosso país foram os escolhidos para batizar os dois filhotes de peixe-boi da Amazônia ( Trichechus inunguis) que têm encantado, respectivamente, os visitantes do Museu Goeldi, em Bélem, e do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Inpa), em Manaus. Uiará foi resgatada e levada aos cuidados do Museu Goeldi após se prender nas redes de um pescador em março de 98, enquanto que, no mesmo mês. Erê nasceu no próprio aquário do Inpa. Foi a primeira vez que uma tentativa de reprodução em cativeiro dessa espécie obteve sucesso.
Graças às iniciativas dessas instituições de estudar a biologia e o comportamento do peixe-boi da Amazônia, o risco de extinção do animal hoje é menor. Desde os tempos de colônia a caça predatória ao peixe-boi era prática comum. Entre 1776 e 1778 foi registrada, pelo então diretor da guarnição da Real Pesca Portuguesa em Vila Franca, Amazonas, a entrada de 58 toneladas de carne do animal e 1.613 barris de óleo, retirados de 1.500 peixes-bois (ver Ciência Hoje nº 10, p. 66). Já no século 20, durante a Segunda Guerra Mundial, a indústria começou a aproveitar o resistente couro do peixe-boi para fabricar cola e correias de carro. A caça só foi proibida em 1976 mas ainda hoje persiste em menor escala.
Segundo o veterinário Paulo Henrique de Castro que cuida de Uiará, os caçadores se aproveitam da amabilidade e lentidão do animal. Ele é o único mamífero herbívoro exclusivamente aquático da Amazônia e possui respiração pulmonar. Dócil e pesando até uma tonelada quando adulto, o peixe-boi sobe lentamente à superfície várias vezes ao dia em busca de comida e oxigênio. É nesse momento que os caçadores se aproximam e inserem duas rolha em suas narinas, matando-o por afixia, conta Paulo. Vera Maria da Silva, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Inpa, explica que é impossível fazer uma estimativa da população atual do peixe-boi da Amazônia devido à turbidez das águas que dificulta a visualização, entre outros fatores.
Uiará já ganhou 4 kg desde que chegou ao Museu Goeldi e lá divide o espaço com uma fêmea adulta de 37 anos. No Inpa, entre os 14 peixes-bois mantidos e estudados pelo instituto, estão Erê e seus pais. De terça a domingo, o espaço dos aquários está aberto para visitas, dando oportunidade ao público de conhecer um pouco mais da vida desse animal símbolo da região amazônica.Guto Ruffeil/Ciência HojeO veterinário Paulo Henrique de Castro, do Museu Goeldi, em Belém, cuida de Uirá, uma fêmea de peixe-boiFernando Paiva
Ciência Hoje/RJ





